Questão 52 caderno azul do ENEM 2020 PPL – Dia 1

Se os filósofos não forem reis nas cidades ou se os que hoje são chamados reis e soberanos não forem filósofos genuínos e capazes e se, numa mesma pessoa, não coincidirem poder político e filosofia e não for barrada agora, sob coerção, a caminhada das diversas naturezas que, em separado buscam uma dessas duas metas, não é possível, caro Glaucon, que haja para as cidades uma trégua de males e, penso, nem para o gênero humano.

PLATÃO. A República. São Paulo: Martins Fontes, 2014

A tese apresentada pressupõe a necessidade do conhecimento verdadeiro para a

A)  superação de entraves dialógicos. 

B)  organização de uma sociedade justa.

C)  formação de um saber enciclopédico.

D)  promoção da igualdade dos cidadãos.

E)  consolidação de uma democracia direta.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
Filosofia Antiga (Platão), Teoria Política (A República), Epistemologia (Teoria do Conhecimento).

Tema/Objetivo Geral:
Compreender o conceito de Sofocracia (o governo dos sábios) e a definição platônica de Justiça como ordenamento racional da sociedade.

Nível da Questão:
Médio.
Por que? O texto é denso, típico da escrita clássica. Além disso, o aluno precisa vencer o senso comum de que “política serve para a democracia/igualdade”. Para Platão, política serve para a ordem/hierarquia, o que confunde muitos estudantes modernos.

Gabarito:
Alternativa B.
Para Platão, a sociedade só é justa quando governada pela razão (os filósofos), assim como o corpo só é saudável quando governado pela cabeça.


Resolução Passo a Passo

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo:
A questão quer que você identifique a finalidade da proposta política de Platão. Por que ele insiste tanto que o governante precisa ser um filósofo (ter conhecimento verdadeiro)? Para que serve esse conhecimento na gestão da cidade?

Simplificação Radical (A Analogia Central):
Imagine um navio em meio a uma tempestade.
Quem você quer no comando?

  1. O passageiro mais popular e simpático?
  2. Ou o navegador que estudou os mapas e as estrelas (conhecimento)?
    Platão diz que a cidade é o navio. Se colocarmos ignorantes no poder, o navio afunda (caos). Se colocarmos quem tem o conhecimento (o filósofo), o navio chega ao destino seguro. Esse destino seguro chama-se Justiça.

Nosso Plano de Ataque será o seguinte:

  1. Analisar a condição imposta no texto (“Filósofos devem ser Reis”).
  2. Identificar o problema que ele quer resolver (“Trégua de males”).
  3. Conectar a solução (Rei-Filósofo) ao objetivo final de A República (A Cidade Justa/Calípolis).

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Precisamos da ferramenta da Sofocracia e a Alma Tripartite.

Dossiê Técnico: A Cidade Ideal de Platão
Platão não acredita em democracia (governo da maioria). Ele acredita na Sofocracia (governo dos sábios). Para ele, a sociedade deve espelhar a alma humana:

Parte da Alma Classe Social Virtude Função
Apetitiva (Barriga) Produtores Moderação Sustentar a cidade.
Irascível (Peito) Guerreiros Coragem Defender a cidade.
Racional (Cabeça) Filósofos Sabedoria Governar a cidade.

O Conceito de Justiça:
Para Platão, Justiça é Harmonia. Justiça acontece quando cada um faz a sua função e a Cabeça (Razão/Filósofo) comanda o resto do corpo. Se a barriga tentar comandar, temos um monstro desgovernado (injustiça).


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos analisar o texto de Platão:

  • A Condição: “Se os filósofos não forem reis… ou os reis não forem filósofos…” (União de Poder + Saber).
  • A Consequência: “…não é possível que haja para as cidades uma trégua de males”.

Raciocínio Investigativo:
O texto diz que os “males” (injustiças, corrupção, caos) só acabam quando o conhecimento assume o trono.
Portanto, o conhecimento verdadeiro é a ferramenta necessária para criar uma sociedade onde não existam esses males. Uma sociedade sem males, onde cada um cumpre seu papel racionalmente, é a definição de Sociedade Justa.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
Achar que Platão é Democrático.
Muitos alunos marcam “Democracia Direta” (E) ou “Igualdade” (D) porque associam filosofia à “coisa boa” e democracia à “coisa boa”.
CUIDADO! Platão odiava a democracia (foi a democracia ateniense que matou Sócrates, seu mestre). Para Platão, a maioria é ignorante e vive na caverna. Dar poder à maioria é suicídio. Ele é elitista: só os sábios devem mandar.

A Bússola (Expectativa):
Procuramos uma alternativa que fale sobre Ordem, Harmonia ou Justiça.


4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Vamos examinar as opções:

A) superação de entraves dialógicos.

  • Análise: “Entraves dialógicos” soa como Habermas (filósofo contemporâneo que foca na comunicação). Para Platão, o objetivo não é apenas “conversar melhor”, é alcançar a Verdade Absoluta (Mundo das Ideias). O diálogo (dialética) é o meio, não o fim político.
  • Diagnóstico do Erro: Anacronismo e confusão entre método e finalidade.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

B) organização de uma sociedade justa.

  • Análise: Perfeito. O livro A República (de onde o texto foi tirado) é, essencialmente, uma investigação sobre “O que é a Justiça?”. A conclusão de Platão é esta: Justiça é cada um no seu lugar, sob a regência daquele que conhece a Verdade (o Filósofo). Sem conhecimento, não há justiça, apenas caos.
  • Conclusão: 🟢 Alternativa correta.

C) formação de um saber enciclopédico.

  • Análise: Platão não quer um rei que saiba “um pouco de tudo” (enciclopédia). Ele quer um rei que saiba a Essência das Coisas (o Mundo das Ideias, o Bem, o Belo). É um saber profundo e metafísico, não um acúmulo de informações gerais.
  • Diagnóstico do Erro: Interpretação vulgar de “conhecimento”.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

D) promoção da igualdade dos cidadãos.

  • Análise: Platão é anti-igualitário. Para ele, as pessoas nascem com “almas de metais diferentes” (Ouro, Prata, Bronze). Tentar igualar o ouro ao bronze é injustiça. A justiça platônica é tratar os desiguais de forma hierárquica.
  • Diagnóstico do Erro: Aplicação de valores modernos (igualdade) a um autor antigo e aristocrático.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

E) consolidação de uma democracia direta.

  • Análise: O maior inimigo de Platão. Ele via a democracia como o governo da opinião (doxa) e das paixões, o oposto do governo do conhecimento (episteme).
  • Diagnóstico do Erro: Contradição direta com o pensamento do autor.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento:
A utopia política de Platão baseia-se na premissa de que a política é uma arte técnica que exige competência: assim como só o médico deve curar, só o filósofo (que contempla a Verdade) deve governar para garantir a justiça.

Resumo-flash (A Imagem Mental):
👑 A Coroa é do Cérebro: Em um corpo saudável, a cabeça manda. Em uma cidade justa, o sábio governa.

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Conecte isso com a Tecnocracia Moderna.
Quando ouvimos hoje: “Devemos deixar os economistas decidirem a economia” ou “Vamos ouvir a ciência para decidir sobre a pandemia”, estamos ecoando Platão. É a ideia de que o Saber Técnico deve estar acima da vontade popular.

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