Tu é um termo que não figura muito bem nos desenvolvimentos modernos e contemporâneos da ética e da política. Com efeito, muitos movimentos revolucionários (que variam do comunismo tradicional ao feminismo da irmandade) parecem compartilhar de um código linguístico curioso baseado na moral intrínseca dos pronomes. O nós é sempre positivo, o vós é um aliado possível, o eles tem o rosto de um antagonista, o eu é impróprio, e o tu é, obviamente, supérfluo.
CAVARERO, A. Relating Narratives apud BUTLER, J. Relatar a si mesmo. Belo Horizonte: Autêntica, 2015 (adaptado).
Um dos principais problemas morais da contemporaneidade, conforme mencionado no texto, reside na dificuldade em
A) construir o diálogo coletivo.
B) demarcar a presença do ego.
C) viabilizar a afetividade pessoal.
D) reconhecer a alteridade singular.
E) ultrapassar a experiência intersubjetiva.

✍ Resolução Em Texto
Matérias Necessárias: Filosofia Contemporânea (Alteridade, Ética), Sociologia (Movimentos Sociais) e Interpretação de Texto.
Tema/Objetivo Geral: Analisar a crítica à desumanização nas relações políticas de massa através da metáfora dos pronomes pessoais.
Nível da Questão: Difícil.
Por que? O aluno precisa traduzir termos gramaticais (“Tu”, “Nós”) em conceitos filosóficos densos (“Alteridade”, “Subjetividade”). A alternativa correta usa um vocabulário técnico (“Alteridade singular”) que exige repertório filosófico prévio.
Gabarito: Alternativa D.
A exclusão do “Tu” representa a incapacidade de enxergar o Outro como um indivíduo único, focando apenas em massas coletivas (“Nós” contra “Eles”).
Resolução Passo a Passo
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo:
A questão pede para identificar qual falha ética (problema moral) da sociedade atual é revelada pelo fato de o pronome “Tu” ser considerado inútil (“supérfluo”) nos discursos políticos.
Simplificação Radical (A Analogia Central):
Imagine um comício político gigante ou uma briga de torcidas organizadas.
- Gritam “NÓS!” (Nosso time/partido é o melhor).
- Gritam “ELES!” (O outro time/partido é o inimigo).
- Mas se você parar para conversar com uma única pessoa do outro lado (o “Tu”), olhando no olho dela, a briga de torcida perde o sentido.
A questão diz que, hoje em dia, nós esquecemos dessa conversa “olho no olho” (o Tu). Qual é o nome técnico desse esquecimento?
Nosso Plano de Ataque será o seguinte:
- Mapear o significado político de cada pronome citado no texto.
- Focar no pronome excluído: o “Tu”.
- Traduzir “Tu” para a linguagem filosófica (O Outro, a Alteridade).
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Precisamos da ferramenta da Gramática da Alteridade.
Vamos traduzir os pronomes do texto para conceitos sociológicos:
| Pronome | Status no Texto | Tradução Política/Social |
| Nós | Sempre positivo | O Coletivo, a Tribo, a “Bolha”. |
| Eles | Antagonista | O Inimigo, o alvo do ódio. |
| Eu | Impróprio | O Egoísmo (rejeitado pelos movimentos). |
| Tu | Supérfluo (Desnecessário) | A relação humana real, um a um. O indivíduo concreto à minha frente. |
Conceito Chave: Alteridade
Do latim alter (outro). É a capacidade de reconhecer que existe um outro ser humano na minha frente, que é diferente de mim, mas legítimo. O “Tu” é a expressão gramatical da alteridade.
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Vamos investigar o “crime” descrito no texto: o assassinato do “Tu”.
O texto de Adriana Cavarero (citada por Judith Butler) argumenta que os movimentos revolucionários focam tanto no grupo (Nós) e na luta contra o sistema (Eles), que esquecem da relação pessoal direta.
Se o “Tu” é supérfluo, significa que não importa quem você é como indivíduo, importa apenas se você é “dos nossos” ou “dos deles”.
Raciocínio Investigativo:
Se eu ignoro o “Tu”, eu ignoro a pessoa específica. Eu paro de ver o rosto do ser humano e vejo apenas o uniforme que ele veste.
Qual é o problema moral disso?
A dificuldade de reconhecer a singularidade (a característica única) do outro (alteridade).
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
Confundir “Eu” com “Tu”.
Muitos alunos marcam a alternativa B (demarcar a presença do ego) porque leem que o “Eu é impróprio”.
CUIDADO! A questão pergunta sobre o problema de considerar o “Tu” supérfluo. O problema não é diminuir o ego (isso até pode ser bom em certos contextos éticos), o problema grave é tornar o Outro irrelevante.
A Bússola (Expectativa):
Procuramos uma alternativa que use sinônimos filosóficos para “Enxergar o Outro como um indivíduo único”.
Sinônimo de “Outro” = Alteridade.
Sinônimo de “Indivíduo Único” = Singular.
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
Vamos examinar as opções:
A) construir o diálogo coletivo.
- Análise: O texto diz que o “Nós é sempre positivo”. Ou seja, o coletivo está forte, está garantido. O problema não é o coletivo, é o individual/relacional.
- Diagnóstico do Erro: Leitura oposta ao texto.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
B) demarcar a presença do ego.
- Análise: Refere-se ao pronome “Eu”. O texto diz que o “Eu” é impróprio, mas o foco da crítica de Cavarero sobre o que se perdeu (“supérfluo”) recai sobre o “Tu”. Além disso, moralmente, inflar o ego não costuma ser a solução ética buscada.
- Diagnóstico do Erro: Foco no pronome errado (“Eu” em vez de “Tu”).
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
C) viabilizar a afetividade pessoal.
- Análise: Embora o reconhecimento do “Tu” envolva afeto, o termo “afetividade” reduz a questão a sentimentos/emoções. O problema descrito é moral/ético (reconhecimento de direitos e existência), que é mais profundo que apenas “gostar” ou ter afeto por alguém.
- Diagnóstico do Erro: Reducionismo (tratar ética como apenas sentimento).
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
D) reconhecer a alteridade singular.
- Análise: Perfeito.
- Alteridade: O reconhecimento do Outro (“Tu”).
- Singular: O fato de que esse “Tu” não é uma massa abstrata, mas uma pessoa única.
Se o “Tu” é supérfluo, temos dificuldade em reconhecer a alteridade singular.
- Conclusão: 🟢 Alternativa correta.
E) ultrapassar a experiência intersubjetiva.
- Análise: “Intersubjetiva” é a relação entre sujeitos (Eu e Tu). Se o “Tu” é ignorado, nós não ultrapassamos essa experiência (no sentido de ir além dela), nós nem chegamos a realizá-la! Nós falhamos nela. O texto aponta uma carência, não uma superação.
- Diagnóstico do Erro: Erro de sentido do verbo “ultrapassar”.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento:
Em uma era de polarização política onde tudo é “Nós contra Eles”, a ética verdadeira reside no resgate do “Tu”: a capacidade de olhar para o rosto do Outro e reconhecer ali uma humanidade singular, irredutível a qualquer rótulo partidário.
Resumo-flash (A Imagem Mental):
👥 A Cegueira da Massa: Na multidão de “Nós” e “Eles”, o rosto do “Tu” fica borrado.
🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Conecte isso com Emmanuel Lévinas, filósofo que baseou toda sua ética no “Rosto do Outro”. Para ele, a ética começa quando eu olho para o rosto do Outro (o Tu) e entendo que sou responsável por ele, antes de qualquer política ou ideologia.