Entre as tentativas de encontrar o melhor ângulo para retirar o terneiro, meu irmão, o guri e seu pai tentavam convencer Jaqueline de que a morte da vaca não seria uma grande perda: “não é a mesma coisa que perder um pai, um avô, que a gente lembra para o resto da vida, fica lá no cemitério”, “bicho é bicho”. Jefferson, o guri, repetia tudo que o pai dizia, mas já afastado, pois havia sido corrido pela mãe. Jaqueline repete: “pra mim não tem diferença! Os bichos estão tudo na volta. Eles sabem quando eu chego, me conhecem, sabem o meu cheiro. Sou eu que dou comida. Não tem diferença nenhuma!”. O pai tenta concordar sem afrontar os caras, dizendo que as pessoas desenvolvem valor de estima pelos animais.
KOSBY, M. F. Mugido (ou diário de uma doula). Rio de Janeiro: Garupa, 2017.
No fragmento, as reações à perda de um animal refletem concepções fortalecidas pela
A) sensibilidade adquirida com a lida no campo.
B) banalização da morte em função de sua recorrência.
C) expectativa do sofrimento na visão do destino humano.
D) certeza da efemeridade da vida como fator de pessimismo.
E) empatia gerada pela interseção entre o homem e seu ambiente

✍ Resolução Em Texto
Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
- Interpretação de Texto (Inferência e Ponto de Vista).
- Sociologia Rural (Relação Homem x Natureza).
Tema/Objetivo Geral:
Análise da construção de valores afetivos e sociais em narrativas literárias.
Nível da Questão:
Médio.
Por que? A questão exige que o candidato vá além do óbvio (que a personagem está triste) e identifique a causa sociológica/ambiental desse sentimento, distinguindo-a das opiniões contrárias apresentadas no mesmo texto. Há distratores que parecem corretos pelo senso comum (como a alternativa A).
Gabarito:
Alternativa E.
Essa alternativa é a correta pois traduz a fala de Jaqueline: o afeto não nasce do nada, ele emerge da convivência diária, do reconhecimento mútuo e da partilha do mesmo espaço (interseção) entre ela e os animais.
Resolução Passo a Passo
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
O enunciado nos pede para identificar a origem ou o fundamento das reações apresentadas diante da morte do animal.
Temos um conflito claro:
- O grupo dos homens: Visão pragmática (“bicho é bicho”).
- Jaqueline: Visão afetiva (“não tem diferença”).
O desafio é entender o que fortalece essas concepções, especialmente a visão de Jaqueline, que ganha destaque narrativo ao justificar seu sentimento.
Simplificação Radical (A Analogia Central):
Imagine que você tem um vizinho que você nunca vê. Se ele se mudar, você não sente nada. Agora, imagine um vizinho com quem você toma café todo dia. Se ele se mudar, você sente falta.
- O desafio aqui é: Perceber que a dor de Jaqueline não é “frescura”, é fruto de uma relação de vizinhança íntima (interseção) com a vaca.
Nosso Plano de Ataque será o seguinte:
- Mapear o conflito de vozes no texto.
- Isolar a justificativa de Jaqueline (a voz dissonante).
- Conectar essa justificativa à relação dela com o ambiente (a resposta).
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para este caso, usaremos a Lente do Contraste. Vamos separar as visões para entender o que a questão busca.
Tabela Comparativa: O Pragmatismo vs. O Afeto
| Elemento | Visão dos Homens (Pai, Irmão, Guri) | Visão de Jaqueline |
| Definição do Animal | Recurso, “coisa”, ser substituível. | Companheiro, indivíduo, ser único. |
| Argumento | “Bicho é bicho”, “Não é gente”. | “Eles me conhecem”, “Sabem meu cheiro”. |
| Base da Relação | Utilidade / Hierarquia. | Convivência / Interseção. |
Conceito-Chave: A Interseção Homem-Ambiente
Não se trata apenas de estar no mesmo lugar, mas de como se vive nesse lugar. A “interseção” é o ponto onde a vida humana e a vida animal se misturam, criando laços que transcendem a utilidade econômica.
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Vamos analisar o “depoimento” da nossa testemunha principal, Jaqueline:
“pra mim não tem diferença! Os bichos estão tudo na volta. Eles sabem quando eu chego, me conhecem, sabem o meu cheiro. Sou eu que dou comida.”
Note os verbos e ações:
- “Estão na volta” = Proximidade física (Ambiente).
- “Sabem meu cheiro”, “Dou comida” = Troca sensorial e cuidado (Interseção).
Ela não está defendendo a vaca por um princípio filosófico abstrato, mas porque existe uma rotina compartilhada. A empatia dela nasce dessa rotina.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! O erro mais comum aqui é achar que a resposta está na “sensibilidade” inerente à pessoa ou ao trabalho no campo (Alternativa A).
Pense comigo: O pai e o irmão também lidam no campo, certo? Eles têm a “lida no campo”, mas não têm a mesma sensibilidade de Jaqueline. Logo, a “lida” sozinha não explica a reação dela. O segredo é a qualidade da relação (a empatia gerada pela troca).
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: As reações (especialmente a de Jaqueline, que quebra o padrão) são fundamentadas na troca de experiências e no reconhecimento do outro (animal) como parte do seu mundo.
- Expectativa: Devemos buscar uma alternativa que fale sobre essa conexão mútua, essa mistura de vidas (homem e animal) no mesmo espaço.
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
Vamos dissecar as opções:
(A) sensibilidade adquirida com a lida no campo.
O aluno desatento marca essa pensando: “Ela trabalha no campo, por isso gosta dos bichos”.
Por que está errada? O texto mostra outros personagens que também têm a “lida no campo” (pai, irmão), mas que tratam a morte com frieza (“bicho é bicho”). Se a lida no campo garantisse sensibilidade, todos pensariam igual a Jaqueline. O texto mostra o oposto.
Conclusão: 🟡 PARCIALMENTE CORRETA (É um forte distrator, mas falha na lógica comparativa).
(B) banalização da morte em função de sua recorrência.
Por que está errada? Isso explica a visão dos homens, mas o texto destaca o contraponto de Jaqueline, que recusa essa banalização. A questão pede as concepções que geram as reações (no plural), mas a alternativa ignora a tensão principal do texto: a resistência afetiva de Jaqueline. Além disso, a reação dela reflete valorização, não banalização.
Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
(C) expectativa do sofrimento na visão do destino humano.
Por que está errada? A personagem compara a morte do animal à morte de parentes (“não é a mesma coisa que perder um pai…”), mas o foco dela é elevar o status do animal, e não fazer uma reflexão existencial sobre o destino humano ou o sofrimento futuro. É uma “fuga ao tema”.
Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
(D) certeza da efemeridade da vida como fator de pessimismo.
Por que está errada? Jaqueline não é pessimista; ela é apegada. Ela não diz “tudo morre, que triste”, ela diz “eles são importantes para mim”. A visão pessimista/niilista não se aplica aqui.
Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
(E) empatia gerada pela interseção entre o homem e seu ambiente.
Por que está correta? Perfeito. A palavra “interseção” resume a fala de Jaqueline: “eles sabem meu cheiro”, “estão na volta”. É o cruzamento da vida humana com o ambiente animal que gera a empatia (capacidade de sentir a dor do outro). Jaqueline humaniza os bichos porque compartilha a vida com eles.
Conclusão: 🟢 Alternativa correta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento:
A alternativa (E) é a única que captura a essência da fala de Jaqueline: o afeto pelos animais não é mágico, é construído na convivência diária, na interseção onde o humano e o bicho se reconhecem.
Resumo-flash (A Imagem Mental):
💡 “Quem alimenta, sente.” (A proximidade cria a empatia que a distância apaga).
🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Na Geografia e Biologia, esse conceito se conecta à Biofilia (a hipótese de que os humanos têm uma tendência inata a buscar conexões com a natureza). Na Ética, discutimos o Especismo (discriminação baseada na espécie), que é exatamente o que os homens do texto praticam e o que Jaqueline combate instintivamente.