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Questão 68, caderno azul do ENEM 2021 PPL

TEXTO I

O uso do Cerrado pelas populações indígenas estava ligado a um caráter conservacionista e sagrado. A caça e a pesca eram realizadas apenas para a subsistência. A coleta recolhia apenas o que o Cerrado oferecia. A agricultura com a produção de milho e tubérculos abria apenas alguns clarões nas áreas de florestas deciduas. O Cerrado era o fundamento central da existência dessas tribos. Isso significa a sacralização dos elementos deste bioma pelos grupos indígenas.

SILVA, E. B. D.; BORGES, J. A. Dos usos e reocupações do Cerrado goiano: agroecologia como alternativa. XI EREEGO, Jataí-GO, 2009 (adaptado).

TEXTO II

O desenvolvimento sustentável é aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer a capacidade de as gerações futuras atenderem suas próprias necessidades.

COMISSÃO das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. Nosso futuro comum [Relatório Brundtland]. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1988.

Qual característica presente no Texto II amplia a concepção de conservação ambiental apresentada no Texto I?

A) Mercantilização da natureza.
B) Valorização cultural da paisagem.
C) Organização da produção familiar.
D) Manutenção da cobertura vegetal.
E) Preocupação com os descendentes.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
Geografia e Meio Ambiente (Sustentabilidade), Sociologia (Cultura Indígena), História (Conferências Ambientais / Relatório Brundtland).

Tema/Objetivo Geral:
A evolução do conceito de conservação. O objetivo é perceber como a definição moderna de “Desenvolvimento Sustentável” adiciona uma dimensão de tempo (futuro) à prática de preservação que os indígenas já faziam no espaço (presente).

Nível da Questão:
Médio.
Por que? O aluno precisa interpretar a definição formal do Relatório Brundtland e perceber que a palavra “gerações futuras” é a chave que conecta o conceito técnico à palavra “descendentes” na alternativa correta.

Gabarito:
Letra E.
A alternativa está correta porque o Texto II introduz explicitamente a “solidariedade intergeracional” (cuidar hoje para que os netos tenham amanhã), expandindo a visão do Texto I, que foca na relação sagrada e imediata com a terra.


🏗 Resolução Passo a Passo

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA) 🗺️

Decodificação do Objetivo:
A questão pergunta: “O Texto I mostra como os indígenas cuidam da natureza. O Texto II define sustentabilidade. O que o Texto II tem de ‘novo’ ou ‘mais amplo’ que complementa o Texto I?”

Simplificação Radical (A Analogia Central):
Imagine uma corrida de bastão (revezamento).

  • Texto I (Indígenas): O atleta corre bem, cuida da pista e não estraga o equipamento. Ele respeita o momento da corrida.
  • Texto II (Sustentabilidade): O técnico diz: “Corra bem, mas lembre-se que você tem que passar o bastão para o próximo corredor.”
    A ampliação é essa: a responsabilidade de passar o bastão (o planeta) para quem vem depois.

Nosso Plano de Ataque será o seguinte:

  1. Analisar a prática indígena do Texto I (foco na subsistência e no sagrado).
  2. Analisar a definição do Texto II (foco nas “gerações futuras”).
  3. Identificar a alternativa que traduz “gerações futuras”.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS) 🧰

Precisamos entender a definição clássica de Desenvolvimento Sustentável.

Dossiê: O Relatório Brundtland (1987) 📜

Este documento mudou o mundo. Antes, pensava-se apenas em “preservar o mato”. Depois dele, entende-se que preservamos o mato para garantir a sobrevivência humana a longo prazo.

Tabela Comparativa: As Duas Visões

Característica Texto I (Visão Indígena) Texto II (Visão Brundtland)
Foco Principal O Sagrado / O Espaço. O Tempo / A Ética.
Ação Caçar/colher só o necessário para hoje (Subsistência). Usar recursos sem esgotá-los para amanhã.
Beneficiário A tribo atual e a natureza em si. A geração atual E a geração futura.
Palavra-Chave Conservaçãoista. Intergeracional.

Conceito Chave:
Solidariedade Intergeracional: É a obrigação ética que os vivos têm com os que ainda não nasceram.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA) 🕵️‍♂️

Vamos comparar os trechos cruciais:

Texto I:

  • “A caça e a pesca eram realizadas apenas para a subsistência.”
  • Isso garante o equilíbrio no presente.

Texto II:

  • “…sem comprometer a capacidade de as gerações futuras atenderem suas próprias necessidades.”
  • Aqui está a ampliação. O conceito moderno de sustentabilidade não é apenas sobre “amar a árvore”, é sobre garantir que seu neto tenha uma árvore para usar. É uma visão temporal.

A Conexão:
O que são “gerações futuras”? São os descendentes. O Texto II amplia o Texto I ao transformar a preservação em um compromisso com o futuro da linhagem humana.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO com a alternativa D (“Manutenção da cobertura vegetal”).
Ambos os textos implicam nisso. Os indígenas mantêm a cobertura vegetal (Texto I) e a sustentabilidade exige manter a cobertura vegetal (Texto II). Se ambos fazem, isso não é o que “amplia” ou diferencia o Texto II. O comando pede o elemento que expande a concepção, não o que é igual.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: A grande novidade conceitual do Texto II em relação à prática descrita no Texto I é a introdução da variável “tempo/futuro”, personificada nas próximas gerações.
  • Expectativa: Devemos buscar a alternativa que fale de “filhos”, “netos”, “futuro” ou “descendentes”.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA) 💀

Vamos interrogar os suspeitos:

  • A) Mercantilização da natureza.
    • Diagnóstico do Erro: Leitura Oposta.
    • Análise: O Texto II fala de “atender necessidades”, mas o conceito de sustentabilidade geralmente se opõe à mercantilização predatória (transformar tudo em mercadoria). O Texto I é sagrado, o oposto de mercantil.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

  • B) Valorização cultural da paisagem.
    • Diagnóstico do Erro: Troca de Textos.
    • Análise: Quem faz a valorização cultural e sagrada é o Texto I (indígenas). O Texto II é uma definição técnica/econômica da ONU. A questão pede o que o Texto II traz de novo.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

  • C) Organização da produção familiar.
    • Diagnóstico do Erro: Especificidade Irrelevante.
    • Análise: O Texto II é uma definição macroeconômica global, não se limita à agricultura familiar (embora a inclua). O Texto I fala de subsistência tribal. Não é esse o ponto de expansão conceitual.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

  • D) Manutenção da cobertura vegetal.
    • Diagnóstico do Erro: Confusão Meio/Fim.
    • Análise: Manter a vegetação é o meio para atingir a sustentabilidade, e já aparece na prática indígena (Texto I: “abria apenas alguns clarões”). O Texto II não inova nisso; ele inova no propósito (o futuro).
    • Conclusão: 🟡 PARCIALMENTE CORRETA (Distrator Forte: É uma consequência da sustentabilidade, mas não a característica distintiva da definição apresentada).

  • E) Preocupação com os descendentes.
    • Análise: Perfeita.
      • Texto II: “Gerações futuras”.
      • Alternativa: “Descendentes”.
      • O conceito de sustentabilidade é baseado na ética de que não temos o direito de gastar a “herança” dos nossos netos.
    • Conclusão: 🟢 Alternativa correta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA) 🎭

Frase de Fechamento:
A resposta é a Letra E, pois a definição clássica de Desenvolvimento Sustentável (Relatório Brundtland) introduz o vetor temporal na conservação ambiental, estabelecendo o dever ético de preservar recursos não apenas para a subsistência atual, mas para garantir a sobrevivência dos descendentes (“gerações futuras”).

Resumo-flash (A Imagem Mental):
⏳ A Ampulheta: O índio cuida da areia que está em cima (presente). A sustentabilidade cuida para que a areia continue caindo para a parte de baixo (futuro).

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Este conceito se conecta com a filosofia de Hans Jonas e seu “Princípio Responsabilidade”. Ele dizia: “Aja de tal modo que os efeitos da tua ação sejam compatíveis com a permanência de uma vida humana autêntica na Terra”. É a base filosófica da ecologia moderna.

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