Questão 64 caderno azul do ENEM 2022 PPL – Dia 1

Se por um lado podemos falar de certa “influência” do feminismo nas organizações de esquerda armada a partir da admissão das mulheres nessas organizações, e de sua efetiva participação, muitas vezes de armas na mão, nos eventos, além de sua prisão, tortura e desaparecimento, por outro lado, a impressão que temos ao ler os relatos ou ouvir os testemunhos das pessoas entrevistadas é que uma “consciência feminista” apenas se deu nessas mulheres num momento posterior. Como se o contato com os movimentos e literatura feministas no exílio ou após 1975, com o Ano da Mulher instituído pela Organização das Nações Unidas, desse a tais mulheres palavras para expressar o que antes seria um sentimento difuso diante daquilo que lhes acontecia no cotidiano.

WOLFF, C. S. Feminismo e configurações de gênero na guerrilha: perspectivas comparativas
no Cone Sul, 1968-1985. Revista Brasileira de História, n. 54, 2007.

Para as mulheres apresentadas no texto, a reflexão sobre a perspectiva feminista proporcionou o(a)

A) desvalorização de suas demandas na resistência.

B) direcionamento da ação militante contra a violência doméstica.

C) enfraquecimento da atuação nos movimentos subversivos.

D) ressignificação da memória acerca do engajamento político.

E) limitação da participação das trabalhadoras em manifestações.

✍ Resolução Em Texto

  • Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
    • História do Brasil/América Latina (Ditaduras Militares e Resistência)
    • Sociologia (Feminismo e Movimentos Sociais)
    • Interpretação de Texto (Ressignificação e Memória)
  • Tema/Objetivo Geral: Compreender como o contato tardio com a teoria feminista permitiu que mulheres ex-militantes reinterpreta sem suas experiências passadas na luta armada, dando novos nomes e sentidos ao que viveram.
  • Nível da Questão: Médio.
    • Exige uma leitura atenta da temporalidade do texto. O aluno precisa perceber que a “ação” (luta armada) aconteceu antes da “consciência” (feminismo). A resposta correta depende de entender que o feminismo não mudou a luta (que já tinha acabado ou estava em curso), mas mudou a memória sobre ela.
  • Gabarito: D
    • A alternativa está correta. O texto diz que o feminismo “deu palavras” para expressar o que antes era um “sentimento difuso”. Dar palavras novas ao passado é, por definição, ressignificar a memória.

PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo: Em bom português, a missão é: “O texto diz que mulheres lutaram na guerrilha armada, mas só viraram feministas ‘de carteirinha’ anos depois, no exílio. O que esse ‘virar feminista depois’ fez com a cabeça delas em relação ao tempo em que elas seguravam fuzis?”

Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine que você passou a infância inteira sendo chamado de “tagarela” e achava isso ruim. Anos depois, você estuda Comunicação e descobre que você tem “alta oratória”.
O fato passado (falar muito) não mudou. O que mudou foi o nome que você deu a ele e como você se sente sobre isso hoje. Você ressignificou sua infância. As mulheres do texto fizeram isso: olharam para o passado na guerrilha e, com os óculos do feminismo, enxergaram coisas (machismo, força, opressão) que não viam na época.

Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):

  • Linha do Tempo: Identificar que a militância armada veio antes e a teoria feminista veio depois (exílio/1975).
  • O Efeito: O texto diz que o feminismo “deu palavras” para o “sentimento difuso”.
  • A Conclusão: Se eu ganho palavras para descrever meu passado, eu estou mudando minha compreensão sobre ele (Ressignificando a memória).

PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para entender esse processo mental, vamos usar um Diagrama de Antes e Depois.

DIAGRAMA: A LENTE FEMINISTA

FaseO Que AconteciaComo Elas Entendiam na ÉpocaComo Elas Entendem HOJE (Pós-Feminismo)
Durante a LutaPegavam em armas, eram presas, torturadas.“Sou uma soldada da revolução” (Foco na Luta de Classes).“Eu sofria machismo dos companheiros e violência específica do Estado” (Foco no Gênero).
SentimentoAção Prática.“Sentimento difuso” (incômodo sem nome).Memória Ressignificada (Clareza Política).

Conclusão da Ferramenta: O feminismo não alterou a batalha (que já passou), alterou a história contada sobre a batalha.


PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos rastrear a lógica do texto.

  • A Participação Real: O texto admite que elas estavam lá, “de armas na mão”. Elas não eram enfeite, eram guerreiras.
  • O “Delay” da Consciência: O texto diz que a “consciência feminista” só veio num “momento posterior”.
  • O Papel do Exílio: Ao saírem do país e encontrarem a literatura feminista (Anos 70), elas ganharam vocabulário.
  • O Resultado (A Chave): O texto diz: “desse a tais mulheres palavras para expressar o que antes seria um sentimento difuso”.
    • Quando você dá nome ao que sentiu no passado, você não muda o fato, você muda a interpretação do fato. Na História e Sociologia, isso se chama Ressignificação da Memória. Elas deixaram de ver sua luta apenas como “socialista” e passaram a vê-la também como “uma experiência de gênero”.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨

A armadilha mais perigosa é a alternativa B (direcionamento da ação militante contra a violência doméstica). O aluno lê “feminismo” e “violência” (citada como tortura no texto) e associa automaticamente ao combate à violência doméstica. O texto fala sobre mulheres na guerrilha/esquerda armada, um contexto de luta contra Ditaduras, não violência doméstica no lar. Além disso, a reflexão feminista veio depois (“momento posterior”). Ela não direcionou a ação na época (elas já tinham largado as armas ou estavam no exílio); ela mudou a visão sobre o que já tinha acontecido. É sobre memória, não sobre nova militância imediata.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: O contato com a teoria feminista ocorreu após a experiência armada. Isso serviu para dar sentido e vocabulário às vivências passadas, permitindo uma nova interpretação (ressignificação) da memória daquele período.
  • Expectativa: Uma alternativa que fale sobre “passado”, “memória”, “reinterpretação” ou “novo olhar”.

PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

A) desvalorização de suas demandas na resistência.

  • O “Diagnóstico do Erro”: Inversão de Valor. O feminismo não desvalorizou a luta delas; pelo contrário, valorizou aspectos que antes eram ignorados (como o papel específico da mulher). Deu “palavras” para expressar a dor e a luta, validando a experiência.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

B) direcionamento da ação militante contra a violência doméstica.

  • O “Diagnóstico do Erro”: Anacronismo e Desvio de Tema. O texto trata da militância política armada (contra o Estado/Ditadura). Embora o feminismo combata a violência doméstica, o texto foca na releitura da experiência guerrilheira, não numa campanha doméstica posterior.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

C) enfraquecimento da atuação nos movimentos subversivos.

  • O “Diagnóstico do Erro”: Erro Cronológico. O texto diz que a consciência veio depois (“momento posterior”, “no exílio”). Logo, o feminismo não poderia ter enfraquecido a atuação durante a guerrilha, pois a consciência feminista nem estava lá ainda com força total.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

D) ressignificação da memória acerca do engajamento político.

  • Análise de Correspondência: Perfeita. “Ressignificar” é dar novo sentido. “Memória” refere-se ao passado (a luta armada). O texto diz exatamente que o feminismo deu palavras para entender o que aconteceu (“o que antes seria um sentimento difuso”), alterando a forma como elas lembram e narram sua história política.
  • Conclusão: 🟢 Alternativa correta.

E) limitação da participação das trabalhadoras em manifestações.

  • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição. O feminismo historicamente amplia e incentiva a participação política das mulheres, não a limita. Além disso, o texto fala de guerrilheiras (luta armada), não especificamente de “trabalhadoras em manifestações” (sindicalismo/passeatas), embora possam coincidir.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa D é a correta. A teoria não muda o passado, mas muda os olhos de quem olha para trás.

Resumo-flash (A Imagem Mental): O feminismo foi a legenda que faltava no filme da vida delas.

Para ir Além (A Ponte para o Futuro): Esse processo é fundamental para a Comissão da Verdade e estudos de Memória e Gênero. Muitas mulheres que foram torturadas na Ditadura relataram, décadas depois, que sofreram violências específicas por serem mulheres (violência sexual, ameaças aos filhos) que os homens não sofriam. O feminismo ajudou a tirar essa dor da categoria “ossos do ofício da guerra” e colocá-la na categoria “violência de gênero”, mudando a história oficial.

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