Pensar o corpo como algo produzido pela cultura é, simultaneamente, um desafio e uma necessidade. Um desafio porque rompe, de certa forma, com o olhar naturalista sobre o qual muitas vezes o corpo é observado, explicado, classificado e tratado. Uma necessidade porque, ao desnaturalizá-lo, revela, sobretudo, que o corpo é histórico. Isto é, mais do que um dado natural cuja materialidade nos presentifica no mundo, o corpo é uma construção sobre a qual são conferidas diferentes marcas em diferentes tempos, espaços, conjunturas econômicas, grupos sociais e étnicos.
LOURO, G. L.; FELIPE, J.; GOELLNER, S. V. (Org.). Corpo, gênero e sexualidade:
um debate contemporâneo na educação. Petrópolis: Vozes, 2013 (adaptado).
A que valor da contemporaneidade o entendimento sobre o corpo expresso no texto é correlato?
A) Individualidade.
B) Fraternidade.
C) Diversidade.
D) Igualdade.
E) Liberdade.

✍ Resolução Em Texto
- Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
- Sociologia (Cultura e Identidade / Diversidade Cultural)
- Antropologia (O Corpo como Construção Social)
- Filosofia (Natureza vs. Cultura)
- Tema/Objetivo Geral: Compreender o corpo humano não apenas como um dado biológico imutável, mas como um produto cultural que reflete a pluralidade de experiências, tempos e grupos sociais.
- Nível da Questão: Médio.
- Exige abstração. O aluno precisa sair do senso comum (“corpo é anatomia”) e adotar a visão sociológica (“corpo é história”). A dificuldade está em conectar essa multiplicidade de formas de ser (descrita no texto) ao termo abstrato “Diversidade” nas alternativas.
- Gabarito: C
- A alternativa está correta. O texto afirma que o corpo recebe “diferentes marcas em diferentes tempos, espaços, grupos sociais e étnicos”. Essa variação infinita de formas de existir e se expressar corporalmente é a definição exata de diversidade.
PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo: A missão é ler o texto filosófico sobre o corpo e responder: “Se o corpo muda dependendo da época, do país, da classe social e da cultura, qual é o valor moderno que defende e celebra essas diferenças todas?”
Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine que o corpo humano é uma Tela em Branco.
- Para a Biologia tradicional (Naturalismo), a tela já vem pintada de fábrica e é igual para todos (anatomia).
- Para a Sociologia (o Texto), cada cultura pega essa tela e pinta de um jeito: tatuagens, roupas, gestos, padrões de beleza, cirurgias.
Se existem milhões de pinturas diferentes na mesma tela, estamos falando de Pluralidade ou Diversidade. A questão quer que você dê esse nome para o fenômeno.
Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):
- Identificar a Tese: O texto diz que o corpo é “produzido pela cultura” e é “histórico”.
- Rastrear as Variáveis: O texto lista “diferentes tempos, espaços, grupos sociais e étnicos”.
- Conectar ao Valor: Qual palavra resume “diferentes formas de ser”? (Dica: começa com D).
PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para entender essa mudança de visão, vamos usar um Diagrama de Oposição.
DIAGRAMA: NATUREZA vs. CULTURA
| Visão Naturalista (O Passado) | Visão Cultural/Histórica (O Texto) |
| O Corpo é: Dado biológico, fixo, universal. | O Corpo é: Construção social, mutável, particular. |
| Exemplo: “Homens são mais fortes que mulheres por natureza”. | Exemplo: “A força é treinada e valorizada de formas diferentes em cada cultura”. |
| Foco: Padrão Único. | Foco: Múltiplas Possibilidades. |
| Valor Associado: Universalidade / Padronização. | Valor Associado: Diversidade / Pluralidade. |
Conclusão da Ferramenta: O texto defende o lado direito da tabela. O valor correspondente é a diversidade.
PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Vamos analisar o argumento do texto.
- O Desafio: O texto propõe “romper com o olhar naturalista”. Isso significa parar de achar que tudo é culpa do DNA.
- A Proposta: “O corpo é uma construção”. Isso significa que a sociedade molda o físico. Ex: O corpo bombado de academia de hoje é diferente do corpo gordo (sinal de riqueza) da Idade Média.
- A Evidência Final: O texto fala de “conferir diferentes marcas em diferentes tempos, espaços, grupos sociais e étnicos”.
- Se existem diferentes marcas para diferentes etnias e grupos, isso significa que não há um modelo único. Há vários. A coexistência de vários modelos é o que chamamos de Diversidade.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
A armadilha aqui é a alternativa A (Individualidade). O aluno pensa: “Ah, meu corpo, minhas regras! Eu faço o que eu quiser com ele, então é individualidade”. O texto não fala do indivíduo escolhendo sozinho. Ele fala de “cultura”, “tempos”, “conjunturas econômicas” e “grupos sociais”. Essas são forças coletivas. O corpo é moldado pelo grupo (sociedade), não apenas pela vontade individual. O índio pinta o corpo de urucum não porque ele, indivíduo, inventou isso hoje de manhã, mas porque a cultura dele (o coletivo) valoriza essa estética.
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: O texto descreve o corpo como um reflexo das múltiplas culturas e contextos históricos. Reconhecer que existem várias formas legítimas de “ter um corpo” é reconhecer a diversidade humana.
- Expectativa: Uma alternativa que fale sobre “pluralidade”, “diferença”, “multiplicidade” ou “diversidade”.
PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
A) Individualidade.
- O “Diagnóstico do Erro”: Erro de Escala. O texto foca em fatores macro (cultura, economia, etnia), que são coletivos, e não nas escolhas puramente pessoais ou na autonomia do sujeito isolado.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
B) Fraternidade.
- O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. Fraternidade é um valor de união, solidariedade e irmandade. O texto discute a constituição e a aparência do corpo, não a relação afetiva ou solidária entre os donos dos corpos.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
C) Diversidade.
- Análise de Correspondência: Perfeita. O texto enfatiza que o corpo varia conforme o grupo étnico, social e o tempo histórico. Valorizar essas “diferentes marcas” é valorizar a diversidade cultural.
- Conclusão: 🟢 Alternativa correta.
D) Igualdade.
- O “Diagnóstico do Erro”: Contradição de Conceito. O texto destaca as diferenças (“diferentes marcas”, “diferentes tempos”), não as semelhanças. Embora a igualdade de direitos seja um valor, o foco do texto é a variação (heterogeneidade), não a equiparação (homogeneidade).
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
E) Liberdade.
- O “Diagnóstico do Erro”: Interpretação Tangencial. Embora desnaturalizar o corpo possa levar à liberdade de ser diferente, o texto está descrevendo o fenômeno da variação cultural, não a luta política pela liberdade de escolha.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa C é a correta. O corpo humano é o documento mais fiel da história; ele carrega as cicatrizes, as pinturas e as formas que a cultura exige dele.
Resumo-flash (A Imagem Mental): O corpo não é uma estátua fixa; é um camaleão que muda de cor conforme a cultura.
Para ir Além (A Ponte para o Futuro): Esse tema é central nos estudos de Gênero e Sexualidade (citados na referência bibliográfica do texto). A filósofa Judith Butler argumenta que até o sexo (macho/fêmea) passa por interpretações culturais, e o gênero (homem/mulher) é uma performance social, não uma verdade biológica fixa. Entender o corpo como cultura é a base para combater preconceitos contra corpos que fogem do padrão (gordofobia, racismo, transfobia).
