Questão 58 caderno azul do ENEM 2022 PPL – Dia 1

A mobilidade urbana constitui-se em um tema fundamental quando se discute desenvolvimento urbano e qualidade de vida da população. As condições de deslocamentos das pessoas e das mercadorias nos centros urbanos impactam toda a sociedade pela geração de externalidades negativas, como acidentes, poluição e congestionamentos, afetando especialmente a vida dos mais pobres, que geralmente moram em regiões mais distantes das oportunidades urbanas.

CARVALHO, C. H. R. Mobilidade urbana: avanços, desafios e perspectivas.
In: COSTA, M. A. (Org.). O estatuto da cidade e a Habitat III. Brasília: Ipea, 2016.

Para minimizar essa problemática apresentada no texto, deve-se incentivar a

A) habitação em locais periféricos.

B) ocupação de áreas subutilizadas.

C) utilização de veículos individuais.

D) construção de estacionamentos em vias públicas.

E) concentração de empregos em zonas centrais.

✍ Resolução Em Texto

  • Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
    • Geografia Urbana (Mobilidade, Planejamento Urbano e Uso do Solo)
    • Sociologia (Desigualdade Socioespacial e Segregação)
  • Tema/Objetivo Geral: Relacionar os problemas de mobilidade urbana (congestionamento, poluição) à estrutura espacial da cidade, identificando que aproximar a moradia dos centros de emprego (ocupação de vazios urbanos) é a solução estrutural mais eficiente.
  • Nível da Questão: Médio.
    • A questão exige que o aluno fuja do senso comum de “melhorar o trânsito com obras viárias” e pense em “planejamento urbano”. É preciso entender que o problema não é a falta de rua, mas a distância entre a casa e o trabalho.
  • Gabarito: B
    • A alternativa está correta. Ocupar áreas subutilizadas (vazios urbanos) em regiões centrais ou dotadas de infraestrutura permite que as pessoas morem mais perto do trabalho e dos serviços, reduzindo a necessidade de longos deslocamentos e, consequentemente, diminuindo o tráfego e a poluição.

PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo: Em bom português, a missão é: “O texto diz que a cidade está travada, poluída e que o pobre sofre mais porque mora muito longe de tudo. Qual é a melhor estratégia para resolver isso: mandar o pobre morar ainda mais longe, dar mais carro pra ele ou trazer ele para morar perto de onde as coisas acontecem?”

Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine uma Rosquinha (Donut).

  • A massa em volta é a periferia (onde as pessoas dormem).
  • O buraco no meio é o centro (onde estão os empregos e hospitais).
  • O problema: Todo mundo tem que atravessar a massa para chegar perto do buraco todo dia.
  • A solução do texto: Preencher os espaços vazios perto do centro (ocupar áreas subutilizadas) para que as pessoas não precisem viajar tanto. É transformar a rosquinha num pãozinho recheado.

Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):

  • Diagnosticar a Doença: O texto cita “deslocamentos”, “congestionamentos” e “distância das oportunidades”.
  • Identificar a Causa: A separação excessiva entre moradia (periferia) e trabalho (centro).
  • Prescrever o Remédio: Encontrar a alternativa que diminua essa distância física.

PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para entender modelos de cidade, vamos usar uma Tabela de Contrastes Urbanos.

TABELA: CIDADE ESPRAIADA vs. CIDADE COMPACTA

ModeloCidade Espraiada (O Problema Atual)Cidade Compacta (A Solução)
EstruturaAs pessoas moram longe do centro.As pessoas moram perto do centro.
EspaçoExistem muitos terrenos vazios no meio da cidade (Especulação).Os vazios são ocupados por moradia (Função Social).
TransporteDependência de carro/ônibus por longas horas.Possibilidade de ir a pé, bicicleta ou trajeto curto.
ImpactoPoluição, estresse, gasto alto.Qualidade de vida, economia.

Conclusão da Ferramenta: A alternativa correta deve promover a Cidade Compacta (densificar áreas que já têm estrutura).


PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos analisar a lógica urbana.

  • O Problema Social: O texto diz que os mais pobres moram em “regiões mais distantes das oportunidades urbanas”. Isso gera a Segregação Socioespacial.
  • O Problema Ambiental: Essa distância obriga o uso intenso de transporte motorizado, gerando “poluição e congestionamentos”.
  • A Solução Lógica: Se o problema é a distância, a solução é aproximar.
    • Como aproximar? Construindo moradias onde já existe infraestrutura (água, luz, metrô), mas que hoje são terrenos baldios ou prédios abandonados. Isso se chama ocupação de áreas subutilizadas.
    • Ao fazer isso, você coloca o trabalhador vizinho do emprego. Ele não pega ônibus, não polui e não engarrafa a rua.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨

A armadilha mais perigosa aqui é a alternativa E (concentração de empregos em zonas centrais). O aluno pensa: “Se tiver emprego no centro, é bom!”. O erro é que os empregos já estão concentrados no centro. É justamente essa concentração excessiva versus a moradia na periferia que causa o fluxo pendular (todo mundo indo pro mesmo lugar na mesma hora). Concentrar ainda mais os empregos no centro sem levar a moradia para lá só pioraria o engarrafamento. O desafio é descentralizar os empregos ou centralizar a moradia (ocupar vazios).

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: O texto denuncia os males dos longos deslocamentos pendulares. A medida corretiva deve focar no adensamento urbano inteligente: usar os espaços vazios dentro da malha urbana consolidada para moradia.
  • Expectativa: Uma alternativa que fale sobre “preencher vazios”, “adensamento”, “função social da propriedade” ou “ocupar áreas ociosas”.

PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

A) habitação em locais periféricos.

  • O “Diagnóstico do Erro”: Agravamento do Problema. O texto diz que o problema é justamente morar longe (“regiões mais distantes”). Incentivar mais moradia na periferia aumentaria a distância, o tempo de viagem e a exclusão social.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

B) ocupação de áreas subutilizadas.

  • Análise de Correspondência: Perfeita. Áreas subutilizadas (“vazios urbanos”) geralmente estão em locais com infraestrutura pronta. Ocupá-las com moradia aproxima a população do trabalho, reduzindo a necessidade de grandes deslocamentos e mitigando as externalidades citadas (poluição, trânsito).
  • Conclusão: 🟢 Alternativa correta.

C) utilização de veículos individuais.

  • O “Diagnóstico do Erro”: Causa, não Solução. O uso de veículos individuais (carros) é o principal causador dos congestionamentos e da poluição citados no texto. Incentivá-los pioraria drasticamente a mobilidade.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

D) construção de estacionamentos em vias públicas.

  • O “Diagnóstico do Erro”: Incentivo ao Transporte Individual. Criar estacionamentos estimula o uso do carro. A tendência do urbanismo moderno é reduzir vagas para priorizar transporte público, ciclovias e pedestres.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

E) concentração de empregos em zonas centrais.

  • O “Diagnóstico do Erro”: Manutenção do Status Quo. Como visto na armadilha, os centros já concentram empregos. Aumentar essa concentração sem levar moradores para lá intensifica o “movimento pendular” (vai e vem diário) que colapsa o trânsito nos horários de pico.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa B é a correta. A melhor política de transporte não é fazer viadutos, é fazer com que as pessoas não precisem ir tão longe.

Resumo-flash (A Imagem Mental): Ocupar o vazio urbano é transformar o lote vago em vizinho do trabalho.

Para ir Além (A Ponte para o Futuro): Esse conceito é a base do Estatuto da Cidade no Brasil, que combate a “Especulação Imobiliária” (deixar terreno vazio esperando valorizar). A ideia moderna é a “Cidade de 15 Minutos” (conceito popularizado em Paris), onde o cidadão deve ter acesso a trabalho, lazer, saúde e educação a uma distância de 15 minutos a pé ou de bicicleta de sua casa. Isso só é possível com a ocupação inteligente do solo (Alternativa B).

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