Em nenhum outro tipo de literatura a fantasia desempenha papel tão importante. Sapos se transformam em príncipes, animais conversam com humanos, mesas se põem sozinhas e contratempos insolúveis se resolvem de um parágrafo para outro. Essa falta de verossimilhança não afasta o leitor. Pelo contrário, juntamente com o anonimato dos príncipes e princesas, que não têm personalidade definida e vivem em terras distantes sem localização exata, ela facilita a identificação com os personagens. O mundo da fantasia abre espaço para que coisas desagradáveis, que não seriam toleradas em outros tipos de história, passem incólumes, como bruxas comedoras de criancinha e anões cruéis que roubam bebês. Boa parte do fascínio dos contos tem origem justamente nesse mundo sombrio. Contos de fadas não constituem sempre histórias agradáveis polvilhadas com açúcar, como a casa de pão de ló de João e Maria. Pelo contrário, as tramas são recheadas de malvadezas que sobrevivem às dezenas de adaptações. Podem passar despercebidas, mas estão lá. Ou é inofensiva a história de uma menina e sua avó que são devoradas vivas por um lobo? Ou é inocente o conto da menina que é sequestrada e obrigada a passar a juventude trancada no alto de uma torre? E o que dizer do bebê condenado à morte no dia do seu batizado?
Disponível em: https://super.abril.com.br. Acesso em: 20 jun. 2019 (adaptado).
As perguntas ao final do texto estão relacionadas ao argumento segundo o qual contos de fadas
A) manifestam aspectos obscuros da condição humana.
B) estimulam a fantasia e a imaginação dos leitores.
C) favorecem a identificação com os personagens.
D) são inadequados para a maioria das crianças.
E) são adaptados aos valores de cada época.

✍ Resolução Em Texto
- Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
- Língua Portuguesa (Interpretação de Texto).
- Literatura (Gênero Conto de Fadas e suas características originais).
- Psicanálise dos Contos de Fadas (Conceito de Bruno Bettelheim – Opcional, mas enriquecedor).
- Tema/Objetivo Geral: Analisar a função argumentativa de perguntas retóricas em um texto que discute a dualidade entre fantasia e crueldade nas narrativas infantis.
- Nível da Questão: Médio.
- Exige que o aluno vá além do senso comum (“contos de fadas são bonitinhos”) e interprete o texto que aponta justamente o contrário (a presença do macabro).
- Gabarito: A
- A alternativa está correta. As perguntas finais listam atos de violência (canibalismo, sequestro, sentença de morte) para comprovar a tese de que essas histórias lidam com os medos e lados sombrios da existência humana.
PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo: O enunciado pede para focarmos nas perguntas finais do texto. O autor lançou três perguntas pesadas sobre lobos devoradores e sequestros. O examinador quer saber: “Essas perguntas servem de prova para qual argumento?”
Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine um bolo lindo, coberto de glacê rosa (a Fantasia). O autor corta o bolo e mostra que o recheio é de pimenta e limão azedo (a Crueldade). As perguntas no final do texto são o momento em que ele aponta para o recheio e diz: “Viu? Não é só doce. Tem pimenta aqui.” Ele quer provar que o conto de fadas não é apenas fofura; ele tem um lado dark.
Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):
- Isolar as Perguntas: Ler atentamente as três perguntas finais.
- Identificar o Teor: Perceber que elas descrevem crimes e tragédias (morte, cárcere privado).
- Conectar com a Tese: Ligar esses exemplos à ideia central do texto sobre o “mundo sombrio” e as “malvadezas”.
PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para entender a profundidade dessas histórias, vamos usar um Decodificador de Arquétipos.
FERRAMENTA: O LADO B DOS CONTOS DE FADAS
O texto argumenta que a fantasia permite que coisas terríveis aconteçam. Vamos traduzir as perguntas do autor:
| Pergunta no Texto | O Conto Referência | O Significado Oculto (Aspecto Obscuro) |
| “Menina e avó devoradas vivas por um lobo?” | Chapeuzinho Vermelho | Medo da predação, violência sexual (metaforicamente), morte, invasão. |
| “Menina sequestrada e obrigada a passar a juventude trancada” | Rapunzel | Abuso parental, isolamento social, posse, roubo de crianças. |
| “Bebê condenado à morte no dia do seu batizado?” | A Bela Adormecida | Maldição, inveja, destino trágico, vulnerabilidade infantil. |
Conclusão da Ferramenta: O autor usa essas perguntas para rasgar a embalagem da “história inofensiva” e mostrar que o conteúdo lida com medos profundos e sombrios da humanidade.
PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Vamos rastrear a construção do argumento no texto:
- A Introdução: O autor começa falando que a fantasia facilita a identificação.
- A Virada (O Plot Twist): No meio do texto, ele diz: “Contos de fadas não constituem sempre histórias agradáveis… as tramas são recheadas de malvadezas”.
- A Comprovação: Ele usa as perguntas finais como evidências. Ele pergunta ironicamente: “Ou é inofensiva a história…?”
- A resposta implícita é: “Não, não é inofensiva. É brutal.”
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
Cuidado para não marcar a alternativa C (identificação).
- Por que confunde? O texto fala sobre identificação no primeiro parágrafo (“facilita a identificação com os personagens”).
- O Desarme: O enunciado pede especificamente a relação das perguntas ao final do texto. As perguntas finais não falam sobre identificação, falam sobre a crueldade (ser devorado, sequestrado). Fique atento ao recorte que a questão pede!
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: As perguntas expõem a violência crua dos contos para provar que eles lidam com o lado escuro da vida.
- Expectativa: Buscamos uma alternativa que use palavras como “obscuro”, “sombrio”, “cruel” ou “humano”.
PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
A) manifestam aspectos obscuros da condição humana.
- Análise de Correspondência: Alternativa correta.
- “Aspectos obscuros”: Corresponde a “mundo sombrio”, “malvadezas”, “bruxas comedoras de criancinha”.
- As perguntas finais (morte, sequestro) são exemplos práticos desses aspectos obscuros que fazem parte da nossa condição e história.
- Conclusão: 🟢 Alternativa correta.
B) estimulam a fantasia e a imaginação dos leitores.
- O “Diagnóstico do Erro”: Tangente / Verdade Universal. Sim, contos estimulam a fantasia. Mas as perguntas finais (sobre ser comido vivo ou sequestrado) não estão ali para provar que a imaginação é estimulada, mas para provar que o conteúdo é pesado/sombrio.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
C) favorecem a identificação com os personagens.
- O “Diagnóstico do Erro”: Erro de Localização. Esse argumento aparece no início do texto (ligado ao anonimato dos príncipes), não no final (onde estão as perguntas sobre violência).
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
D) são inadequados para a maioria das crianças.
- O “Diagnóstico do Erro”: Juízo de Valor Externo. O texto diz que as crianças se identificam e se fascinam por esse mundo sombrio. Em nenhum momento o autor diz que é “inadequado” ou que deveria ser proibido. Ele apenas constata a natureza das histórias.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
E) são adaptados aos valores de cada época.
- O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Textual. O texto diz exatamente o oposto: “as tramas são recheadas de malvadezas que sobrevivem às dezenas de adaptações”. Ou seja, a crueldade persiste, ela não muda com a época.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento: Confirmamos a alternativa A. Os contos de fadas funcionam como um laboratório seguro onde a criança pode encarar os monstros da vida real (abandono, morte, fome) através da fantasia.
Resumo-flash (A Imagem Mental): O Conto de Fadas é um monstro disfarçado de pelúcia.
Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O psicanalista Bruno Bettelheim, em sua obra “A Psicanálise dos Contos de Fadas”, explica que essas histórias são vitais para o desenvolvimento infantil. A criança precisa saber que o “Lobo Mau” existe e que bruxas comem gente, para que ela possa processar seus próprios sentimentos de raiva, medo e abandono, e aprender que, mesmo nesse mundo sombrio, é possível vencer (matar o lobo).