Questão 124 caderno azul ENEM 2023 PPL

Hoje em dia, não é raro encontrar sacolas plásticas preenchidas com apenas um ou dois produtos. E não só no supermercado: da padaria à farmácia, o consumidor está sempre diante de uma sacola, mesmo que ela não seja tão necessária assim. A cada mês, cerca de 1,5 bilhão de sacolas são consumidas no Brasil. Isso significa 50 milhões por dia e 18 bilhões ao ano. Não é à toa, portanto, que o uso indiscriminado de sacolas virou um dos alvos preferidos dos ambientalistas. 

Revista Sustenta, n. 1, out. 2008 (adaptado). 

Os ambientalistas consideram o uso excessivo de sacolas plásticas um risco ambiental, pois 

A) o uso de materiais descartáveis incrementa o consumo. 

B) o plástico é derivado do petróleo, recurso natural escasso. 

C) as sacolas se transformam em lixo de difícil decomposição. 

D) o risco de contaminação do solo e subsolo por gases tóxicos aumenta. 

E) o consumo de produtos industrializados é estimulado em detrimento dos artesanais.

Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • Ecologia (Poluição e Impactos Ambientais).
  • Química Ambiental (Polímeros Sintéticos e Biodegradabilidade).
  • Gestão de Resíduos Sólidos.

Tema/Objetivo Geral:
Compreender a relação entre a estrutura química dos materiais sintéticos (plásticos) e seu tempo de permanência no meio ambiente, identificando as consequências ecológicas do descarte inadequado.

Nível da Questão: Fácil.

  • A questão aborda um tema de conhecimento geral e cotidiano (poluição por plásticos), exigindo apenas a associação direta entre o material sintético e sua durabilidade no ambiente, sem necessidade de cálculos ou conceitos químicos complexos.

Gabarito: Alternativa C.

  • A principal característica dos polímeros sintéticos (plásticos) que causa dano ambiental é a sua resistência à biodegradação. Como decompositores naturais não conseguem quebrar as cadeias poliméricas eficientemente, as sacolas se acumulam por séculos nos ecossistemas, causando poluição física.

PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo:
O enunciado apresenta dados estatísticos sobre o consumo massivo de sacolas plásticas no Brasil e afirma que esse uso indiscriminado é alvo de críticas ambientalistas. A questão exige que identifiquemos a razão técnica e ecológica pela qual as sacolas plásticas representam um risco ao meio ambiente.

Simplificação Radical (A Analogia Central):
Imagine que a natureza é uma grande composteira (uma caixa de reciclagem natural). Se você joga uma casca de banana (orgânica), as bactérias “comem” a casca e ela some em semanas.
A sacola plástica é como uma pedra artificial indestrutível jogada nessa composteira. As bactérias olham para ela e não sabem como comê-la. Se você jogar 18 bilhões dessas “pedras” por ano, a composteira vai transbordar, porque entra muito material, mas nada sai. O problema é o entupimento do sistema por material que não some.

Nosso Plano de Ataque:

  • Análise do Material: Definir quimicamente o que é o plástico e por que ele é diferente de materiais orgânicos naturais.
  • Análise de Fluxo: Comparar a taxa de entrada (consumo) com a taxa de saída (decomposição).
  • Identificação do Impacto: Conectar a propriedade de “durabilidade” ao conceito de poluição por resíduos sólidos.

PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para entender a raiz do problema, utilizaremos uma Análise Comparativa de Biodegradabilidade.

I. A Química da Persistência (Por que o plástico dura tanto?)

  • Origem: As sacolas são feitas de polímeros sintéticos (geralmente Polietileno), derivados do petróleo.
  • Estrutura Molecular: São macromoléculas formadas por longas cadeias de Carbono e Hidrogênio (C-H) com ligações covalentes muito estáveis e apolares.
  • O Bloqueio Biológico: A evolução biológica na Terra criou enzimas (tesouras moleculares) específicas para quebrar ligações encontradas na natureza (como celulose, proteínas, amido). Como o plástico é uma invenção humana recente (séc. XX) e possui ligações sintéticas estranhas à bioquímica natural, os microrganismos decompositores (bactérias e fungos) não possuem as “tesouras” (enzimas) necessárias para digerir esse material.
  • Resultado: O material é recalcitrante (teimoso/resistente). Ele sofre fotodegradação (quebra em pedaços menores pela luz UV), virando microplástico, mas não sofre biodegradação completa rápida.

II. O Cenário de Acúmulo (Input vs. Output)

  • Input (Entrada): 18 bilhões de sacolas/ano (segundo o texto).
  • Output (Saída/Decomposição): Zero (no curto prazo) ou muito lenta (séculos).
  • Matemática do Desastre: Quando Entrada≫SaıˊdaEntrada≫Saıˊda, ocorre Acúmulo Exponencial.
    • Onde fica esse acúmulo? Aterros sanitários (ocupando volume útil), lixões a céu aberto, rios e oceanos.

Conclusão da Ferramenta:
O risco ambiental não é apenas a extração da matéria-prima, mas a incapacidade do ciclo natural de absorver e reciclar o resíduo gerado. É um problema de persistência.


PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos conectar a teoria química ao problema ambiental descrito.

Interpretação do Enunciado:
O texto foca na quantidade (“1,5 bilhão por mês”) e no uso trivial (“apenas um ou dois produtos”). Isso gera um volume gigantesco de descarte.
O comando pergunta: “Os ambientalistas consideram… um risco ambiental, pois…”.
Estamos procurando a consequência direta desse descarte no ecossistema.

Raciocínio Dedutivo:

  1. O plástico é descartado.
  2. Ele vai para o solo ou água.
  3. Lá, ele encontra bactérias.
  4. As bactérias ignoram o plástico.
  5. O plástico permanece intacto por 100, 200, 400 anos.
  6. Durante esse tempo, ele:
    • Impermeabiliza o solo (causando enchentes).
    • É confundido com alimento por tartarugas e aves marinhas (causando morte por asfixia ou inanição).
    • Fragmenta-se em microplásticos que entram na cadeia alimentar humana.

Síntese do Problema:
O problema central é que criamos um material “imortal” para uma aplicação descartável. A “difícil decomposição” é o motor de todos os outros impactos negativos (morte de animais, poluição visual, enchentes). Se a sacola se decompusesse em 2 dias, o uso excessivo seria menos problemático ambientalmente (embora ainda fosse um desperdício de energia).

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
Cuidado com a alternativa que fala sobre o petróleo ser escasso (Alternativa B).
Muitos alunos marcam essa opção porque é uma verdade: o petróleo vai acabar um dia. Porém, no contexto de poluição ambiental e resíduos sólidos (foco de ambientalistas urbanos e de gestão de lixo), a preocupação imediata não é a falta de combustível para o futuro, mas o “lixo eterno” que estamos criando agora. A pergunta é sobre o risco ambiental do uso da sacola, não sobre a sustentabilidade energética da matéria-prima.

A Bússola (Síntese do Raciocínio):
Procuramos uma alternativa que explique o destino final da sacola. O destino é o “não-desaparecimento”. A palavra-chave esperada é decomposição (ou falta dela).


PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Análise Individual:

(A) o uso de materiais descartáveis incrementa o consumo.
Diagnóstico do Erro: Fuga ao Tema (Aspecto Comportamental).
O incremento do consumo é um fenômeno econômico e social. Embora gere mais lixo, a frase em si não explica o mecanismo do dano ambiental físico. O risco ambiental não é o ato de comprar, é o resíduo que sobra e não desaparece.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

(B) o plástico é derivado do petróleo, recurso natural escasso.
Diagnóstico do Erro: Foco na Origem (Recurso) vs. Foco no Destino (Poluição).
A escassez do petróleo é um problema de segurança energética e economia. O “risco ambiental” citado pelos ambientalistas em relação às sacolas refere-se à poluição física dos ecossistemas (rios, mares, matas). Mesmo que o plástico fosse feito de uma fonte infinita, se ele não se degradasse, continuaria sendo um problema de poluição.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

(C) as sacolas se transformam em lixo de difícil decomposição.
Análise de Correspondência: Esta alternativa descreve precisamente a causa do impacto ambiental. Devido à sua estabilidade química, as sacolas plásticas resistem à decomposição biológica, acumulando-se no ambiente por centenas de anos. Esse acúmulo físico é o que mata a fauna, entope drenagens e polui oceanos.
Conclusão: ✔️ Alternativa correta.

(D) o risco de contaminação do solo e subsolo por gases tóxicos aumenta.
Diagnóstico do Erro: Imprecisão Química.
Plásticos em temperatura ambiente ou enterrados em aterros são quimicamente inertes e estáveis; eles não emitem nuvens de gases tóxicos para o solo. A emissão de gases tóxicos (como dioxinas) ocorre principalmente se o plástico for queimado (incineração inadequada), o que não é o cenário padrão de descarte descrito (lixo no solo/subsolo).
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

(E) o consumo de produtos industrializados é estimulado em detrimento dos artesanais.
Diagnóstico do Erro: Análise Socioeconômica.
Esta é uma consequência do modelo de mercado industrial, mas não constitui um “risco ambiental” direto no sentido de degradação ecológica ou poluição. É uma crítica cultural/econômica, não biológica/física.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.


PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento:
O impacto ambiental dos plásticos de uso único decorre do desequilíbrio temporal entre sua utilidade efêmera e sua persistência secular na natureza, causada pela ausência de decompositores capazes de degradar polímeros sintéticos.

Resumo-flash:
“Útil por minutos, lixo por séculos: a conta biológica não fecha.”

Para ir Além (Ponte Interdisciplinar):
Conecte este tema com a Oceanografia e Geopolítica. O acúmulo de plásticos criou as “Ilhas de Plástico” (Giro do Pacífico Norte), áreas maiores que a França onde as correntes oceânicas concentram o lixo flutuante. Isso gerou conflitos internacionais sobre quem é responsável pela limpeza de águas internacionais e impulsionou leis globais para banimento de plásticos de uso único.

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