Duas castas de considerações fez de si para consigo o cauto Conselheiro. Primeiramente foi saltar-lhe ao nariz a evidência de que ministro não visita empregado público, ainda que in extremis, mesmo a uma braça, ou duas, acima do chapéu do amanuense mais bisonho. Também não visita escritor enfermo por ser escritor, e por estar enfermo. Seriam trabalhos, ambos, a que não se daria um ministro, nem sempre ocupado das cousas, altas ou baixas, do Estado.
O tempo ministerial não se vai perdulariamente, não se faz em farinhas. Os titulares esquivam-se até a suspirar, que os suspiros implicam o desperdício de minutos se o suspiro é de minutos, além de permitirem ilações perigosas sobre a estabilidade do ministro, quando não do próprio gabinete.
A segunda ponderação remeteu-o à certeza de que terminantemente chegavam ao cabo seus dias; e de que as esperanças eram aéreas, atado agora à cama até que o encerrassem na urna, como um voto eleitoral frio.
MARANHÃO, H. Memorial do fim: a morte de Machado de Assis. São Paulo: Marco Zero, 1991.
O texto relata o momento em que, no leito de morte, Machado de Assis recebe a visita do Barão do Rio Branco, ministro de Estado. Criando a cena, o narrador obtém expressividade ao
A) representar com fidelidade os fatos históricos.
B) caracterizar a situação com profundidade dramática.
C) explorar a sensibilidade dos personagens envolvidos.
D) assumir a perspectiva irônica e o estilo narrativo do personagem.
E) recorrer a metáforas sutis e comparações de sentido filosófico.

✍ Resolução Em Texto
- Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
- Literatura Brasileira (Estilo de Machado de Assis e Realismo)
- Teoria Literária (Foco Narrativo, Tom e Intertextualidade)
- Tema/Objetivo Geral: Identificar recursos estilísticos em um texto contemporâneo que emula (imita/homenageia) a voz e a visão de mundo de um autor clássico.
- Nível da Questão: Médio.
- Exige que o aluno tenha “ouvido literário”. Não basta interpretar o que está escrito, é preciso reconhecer como está escrito. O texto de Haroldo Maranhão é um pastiche (imitação consciente) do estilo de Machado. Se o aluno não conhece a ironia e o pessimismo machadianos, pode cair em distratores sobre “drama” ou “história”.
- Gabarito: D
- A alternativa está correta. O texto adota o vocabulário rebuscado, a sintaxe complexa e, principalmente, a visão cética e irônica sobre a sociedade e a morte que são as marcas registradas de Machado de Assis (o personagem retratado).
PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo: A missão é ler este texto sobre a morte de Machado de Assis e responder: “O que torna esse texto tão rico e expressivo? É a precisão histórica ou é o fato de o narrador estar ‘imitando’ a voz e o pensamento do próprio Machado?”
Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine um filme sobre a vida de Charlie Chaplin. Para tornar o filme genial, o diretor não apenas filma a vida dele, mas filma no estilo dele: preto e branco, mudo e acelerado.
Aqui, o autor (Haroldo Maranhão) escreveu sobre a morte do Rei da Ironia (Machado) usando a própria ironia como tinta. A questão quer que você perceba que o texto veste a “máscara” do personagem.
Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):
- Detectar o Tom: O texto é triste e choroso ou é seco e debochado?
- Identificar a Crítica: O que ele fala sobre o Ministro? (Que ele não perde tempo, que é importante demais). Isso é elogio ou sarcasmo?
- Ligar ao Homenageado: Lembrar que Machado de Assis é o pai do pessimismo irônico no Brasil.
PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para entender essa “incorporação” literária, vamos usar um Diálogo Mentor-Aluno.
DIÁLOGO: 🕵️♂️ MENTOR & 🧠 ALUNO
- 🧠 Aluno: Mestre, o texto parece muito formal e chato. Fala de “amanuense”, “in extremis”, “cousas”. Por que isso é “expressivo”?
- 🕵️♂️ Mentor: Ótima observação! Essa formalidade é uma fantasia. O autor está escrevendo como se fosse o Machado de Assis do século XIX. Mas olhe o conteúdo: ele diz que o Ministro não visita ninguém porque o tempo dele “não se faz em farinhas” (não se desperdiça).
- 🧠 Aluno: Parece que ele está chamando o Ministro de metido.
- 🕵️♂️ Mentor: Exatamente! Isso se chama Ironia. Ele usa palavras bonitas para criticar a vaidade do poder.
- 🧠 Aluno: E o final? “Encerrassem na urna, como um voto eleitoral frio”. Que horror!
- 🕵️♂️ Mentor: Isso é o Pessimismo Machadiano. O narrador entrou na cabeça do personagem e assumiu a visão de mundo dele: fria, analítica e sem ilusões românticas. A “expressividade” vem dessa imitação perfeita do estilo do mestre.
PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Vamos rastrear a “voz” de Machado no texto de Maranhão.
- A Análise Social Fria: O personagem (Machado) está morrendo, mas em vez de chorar, ele analisa a hierarquia social: “Ministro não visita empregado público”. Ele reduz a própria morte a um evento burocrático. Isso é típico do Realismo.
- A Ironia Fina: O texto diz: “Os titulares esquivam-se até a suspirar, que os suspiros implicam o desperdício de minutos”.
- Tradução: “Político é tão ocupado (ou finge ser) que não tem tempo nem de suspirar de tristeza”. Isso é um deboche elegante.
- A Metalinguagem do Estilo: O autor (Haroldo) usa a palavra “Cauto” (prudente), “Cousas” (coisas) e construções inversas. Ele mimetiza a escrita de Machado para contar o fim de Machado.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
A armadilha mais perigosa é a alternativa B (caracterizar a situação com profundidade dramática). Quando lemos sobre “leito de morte”, nosso cérebro ativa o modo “Drama/Novela”. Esperamos choro, despedidas emocionadas e dor. O aluno pode marcar essa opção por inércia. No entanto, o texto é o oposto de dramático; ele é cerebral. O narrador não foca na dor física ou na tristeza da perda, mas nas “considerações” lógicas e cínicas sobre cargos públicos e votos frios. Confundir tema triste (morte) com tratamento dramático é o erro aqui.
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: O texto não narra a morte com emoção, mas com o distanciamento crítico e o sarcasmo social que eram próprios do escritor Machado de Assis.
- Expectativa: Uma alternativa que fale sobre “estilo”, “ironia”, “perspectiva do personagem” ou “metalinguagem”.
PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
A) representar com fidelidade os fatos históricos.
- O “Diagnóstico do Erro”: Confusão de Gênero. Embora use personagens reais (Machado, Rio Branco), isso é uma obra de ficção (romance), não um documento histórico ou biografia. O foco é a literatura, não a precisão documental.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
B) caracterizar a situação com profundidade dramática.
- O “Diagnóstico do Erro”: Erro de Tom. Como vimos na armadilha, o texto é racional e irônico, não sentimental ou dramático. “Voto eleitoral frio” é uma comparação seca, não emotiva.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
C) explorar a sensibilidade dos personagens envolvidos.
- O “Diagnóstico do Erro”: Incompatibilidade. Machado de Assis (o personagem) e o narrador não demonstram “sensibilidade” (ternura/afeto), mas sim ceticismo e frieza analítica. O Ministro é descrito como alguém calculista que economiza suspiros.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
D) assumir a perspectiva irônica e o estilo narrativo do personagem.
- Análise de Correspondência: Perfeita. O narrador conta a história “vestindo a pele” de Machado de Assis, usando sua ironia característica (“tempo ministerial não se faz em farinhas”) e seu pessimismo diante da vida e da morte.
- Conclusão: 🟢 Alternativa correta.
E) recorrer a metáforas sutis e comparações de sentido filosófico.
- O “Diagnóstico do Erro”: Foco Secundário. Existem comparações (“como um voto eleitoral frio”), mas o que dá expressividade e unicidade ao texto não é o uso genérico de metáforas (que todo poeta usa), mas a ironia específica que imita o biografado. A ironia é a “alma” do texto, a metáfora é apenas o corpo.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa D é a correta. Para escrever sobre o mestre da ironia, o autor precisou afiar a pena com o mesmo veneno elegante de Machado.
Resumo-flash (A Imagem Mental): O narrador colocou os óculos (pince-nez) de Machado de Assis para enxergar o mundo com o sarcasmo dele.
Para ir Além (A Ponte para o Futuro): Esse recurso de escrever “à maneira de” chama-se Pastiche (quando é homenagem) ou Paródia (quando é deboche). No cinema, Quentin Tarantino faz isso o tempo todo: seus filmes não são apenas histórias violentas, são imitações estéticas dos filmes de kung-fu e faroeste dos anos 70. Entender o estilo de um autor permite que você brinque com ele, recriando sua voz em novos contextos.