Conseguindo, porém, escapar à vigilância dos interessados, e depois de curtir uma noite, a mais escura de sua vida, numa espécie de jaula com grades de ferro, Amaro, que só temia regressar à “fazenda”, voltar ao seio da escravidão, estremeceu diante de um rio muito largo e muito calmo, onde havia barcos vogando em todos os sentidos, à vela, outros deitando fumaça, e lá cima, beirando a água, um morro alto, em ponta, varando as nuvens, como ele nunca tinha visto…
[…] todo o conjunto da paisagem comunicava-lhe uma sensação tão forte de liberdade e vida, que até lhe vinha vontade de chorar, mas chorar francamente, abertamente, na presença dos outros, como se estivesse enlouquecendo… Aquele magnífico cenário gravara-se-lhe na retina para toda a existência; nunca mais o havia de esquecer, oh! Nunca mais! Ele, o escravo, “o negro fugido”, sentia-se verdadeiramente homem, igual aos outros homens, feliz de o ser, grande como a natureza, em toda a pujança viril da sua mocidade, e tinha pena, muita pena dos que ficavam na “fazenda” trabalhando, sem ganhar dinheiro, desde a madrugadinha té… sabe Deus!
CAMINHA, A. Bom Crioulo. São Paulo: Martin Claret, 2008.
A situação descrita no fragmento aproxima-o dos padrões estéticos do Naturalismo em função da
A) fragilidade emocional atribuída ao indivíduo oprimido.
B) influência da paisagem sobre a capacidade de resiliência.
C) impossibilidade de superação dos traumas da escravidão.
D) correlação de causalidade entre força física e origem étnica.
E) condição moral do indivíduo vinculada aos papéis de gênero.

✍ Resolução Em Texto
- Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
- Literatura Brasileira (Naturalismo: Características e Autores)
- Teoria Literária (O Determinismo do Meio)
- Tema/Objetivo Geral: Identificar a influência determinante do ambiente físico sobre o estado psicológico e comportamental do personagem, uma característica central da estética naturalista.
- Nível da Questão: Médio.
- O texto de Bom Crioulo é denso e descritivo. O aluno precisa diferenciar o Naturalismo (focado na influência biológica e ambiental) do Romantismo (que idealiza a natureza). A dificuldade está em perceber que a “resiliência” do personagem não vem de dentro, mas é uma reação fisiológica provocada pela paisagem externa.
- Gabarito: B
- A alternativa está correta. O Naturalismo defende a tese de que o homem é produto do meio. No trecho, a visão da paisagem grandiosa e livre atua como um estímulo externo que altera a química interna de Amaro, devolvendo-lhe a sensação de humanidade e força (resiliência).
PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo: A missão é ler o trecho de Bom Crioulo e encontrar a “impressão digital” do Naturalismo. O que está acontecendo com o personagem Amaro que prova que este texto pertence a essa escola literária específica?
Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine que o personagem é uma planta e o ambiente é a luz do sol. Se você coloca a planta no escuro (senzala/prisão), ela murcha. Se você a coloca no sol (paisagem livre), ela se ergue e fica forte instantaneamente. No Naturalismo, o personagem não tem controle total sobre si mesmo; ele reage quimicamente ao lugar onde está. A questão quer que você identifique essa reação “Ambiente → Emoção”.
Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):
- Analisar o Estímulo: Observar como a paisagem é descrita (rio largo, morro alto, vida).
- Analisar a Resposta: Observar como Amaro reage (choro, sensação de virilidade, força).
- Ligar os Pontos: Conectar a causa (Meio) ao efeito (Indivíduo) para justificar a estética naturalista.
PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para visualizar a lógica do Naturalismo, vamos usar um Fluxograma de Causa e Efeito.
FLUXOGRAMA: O DETERMINISMO AMBIENTAL
- O Cenário (O Meio):
- Descrição: Rio largo, barcos, morro alto, “magnífico cenário”.
- Natureza: Aberta, livre, grandiosa.
⬇️ (Ação sobre o Indivíduo)
- O Processo (A Influência):
- Texto: “Todo o conjunto da paisagem comunicava-lhe uma sensação tão forte”.
- Mecanismo: O externo invade o interno.
⬇️ (Resultado)
- A Reação (O Homem):
- Efeito: Vontade de chorar, sentir-se homem, “pujança viril”.
- Conclusão: A paisagem criou a resiliência momentânea.
Conclusão da Ferramenta: No Naturalismo, a paisagem não é enfeite; é um agente ativo que modifica o comportamento.
PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Vamos dissecar o texto procurando a conexão biológica/ambiental.
- O Antes (A Compressão): Amaro estava numa “jaula com grades”, na escuridão. Nesse ambiente, ele era apenas medo (“só temia regressar”).
- O Choque Visual: De repente, ele vê o rio, os barcos e o morro. O texto diz que a paisagem “comunicava-lhe uma sensação tão forte de liberdade e vida”. Note o verbo: a paisagem comunica (envia) a sensação para ele. Ele é passivo, o ambiente é ativo.
- A Transformação Fisiológica: Diante desse estímulo visual, ele sente vontade de chorar e sente sua “pujança viril” (força física/vitalidade). Ele se sente “grande como a natureza”.
- O Veredito: Ele recuperou sua força (resiliência) não por uma reflexão filosófica interna, mas porque a paisagem ativou isso nele. Isso é o determinismo do meio: o ambiente moldando o homem.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
A armadilha mais sedutora aqui é a alternativa D (correlação entre força física e origem étnica). O Naturalismo frequentemente associa raça e comportamento (zoomorfismo), e o texto fala em “negro fugido” e “pujança viril”. O aluno lê essas palavras e pensa: “Ah, Naturalismo sempre fala de raça!”. Cuidado! Embora a raça seja citada, a causa da mudança de estado de Amaro no texto não é a sua cor, é a visão da paisagem. A pergunta é sobre a situação descrita no fragmento, e o fragmento foca no impacto da natureza sobre o homem, não na genética racial como causa da força.
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: O trecho mostra como a mudança de ambiente (da jaula para a natureza aberta) altera imediatamente o estado psicológico do personagem, provando a tese naturalista da influência do meio.
- Expectativa: Uma alternativa que ligue a “paisagem/meio” à “força/resiliência/estado emocional”.
PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
A) fragilidade emocional atribuída ao indivíduo oprimido.
- O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Textual. O texto diz que ele sentiu “pujança viril” (força extrema) e se sentiu “grande como a natureza”. Embora tenha chorado, foi um choro de libertação e potência, não de fragilidade ou fraqueza.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
B) influência da paisagem sobre a capacidade de resiliência.
- Análise de Correspondência: Perfeita. O texto narra explicitamente como a visão do “magnífico cenário” comunicou-lhe vida e liberdade, fazendo-o sentir-se “verdadeiramente homem” e capaz de resistir (resiliência) e ter pena dos que ficaram. O meio (paisagem) determinou o comportamento.
- Conclusão: 🟢 Alternativa correta.
C) impossibilidade de superação dos traumas da escravidão.
- O “Diagnóstico do Erro”: Interpretação Oposta. No momento descrito, Amaro supera momentaneamente o trauma. Ele se sente “igual aos outros homens” e “feliz de o ser”. O texto foca na libertação e no esquecimento da dor passada diante da natureza, não na impossibilidade de superação.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
D) correlação de causalidade entre força física e origem étnica.
- O “Diagnóstico do Erro”: Foco no Elemento Errado. Embora o Naturalismo use temas raciais, neste fragmento específico a força (“pujança viril”) é despertada pelo cenário (“todo o conjunto da paisagem comunicava-lhe…”), e não apresentada como uma consequência direta e exclusiva da sua etnia. O gatilho é ambiental, não genético.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
E) condição moral do indivíduo vinculada aos papéis de gênero.
- O “Diagnóstico do Erro”: Extrapolação Temática. O texto menciona “viril” (masculino), mas não discute papéis de gênero ou moralidade sexual neste trecho. O foco é a liberdade existencial versus a escravidão, mediada pela natureza.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa B é a correta. O Naturalismo é a literatura do “porquê”: o personagem age assim porque o meio, a raça ou o momento histórico o obrigam. Aqui, foi o Meio.
Resumo-flash (A Imagem Mental): O homem é um camaleão: se o ambiente é cinza, ele fica triste; se o ambiente é verde e livre, ele fica forte.
Para ir Além (A Ponte para o Futuro): Esse determinismo ambiental do século XIX (onde o clima ou a geografia definiam o caráter) evoluiu para a moderna Psicologia Ambiental. Hoje, arquitetos e urbanistas estudam como o design de cidades, parques e hospitais afeta diretamente a saúde mental e a recuperação dos pacientes (resiliência), provando que Adolfo Caminha estava certo: a paisagem que vemos muda quem somos por dentro.