A verdade é que não me preocupo muito com o outro mundo. Admito Deus, pagador celeste dos meus
trabalhadores, mal remunerados cá na terra, e admito o diabo, futuro carrasco do ladrão que me furtou uma vaca
de raça. Tenho, portanto, um pouco de religião, embora julgue que, em parte, ela é dispensável a um homem.
Mas mulher sem religião é horrível. Comunista, materialista. Bonito casamento! Amizade
com o Padilha, aquele imbecil. “Palestras amenas e variadas”. Que haveria nas palestras? Reformas sociais,
ou coisa pior. Sei lá! Mulher sem religião é capaz de tudo.
RAMOS, G. São Bernardo. Rio de Janeiro: Record, 1981.
Uma das características da prosa de Graciliano Ramos é ser bastante direta e enxuta. No romance São Bernardo, o autor faz a análise psicológica de personagens e expõe desigualdades sociais com base na relação entre patrão e empregado, além da relação conjugal. Nesse sentido, o texto revela um(a)
A) narrador personagem que coloca no mesmo plano Deus e o diabo, além de defender o livre-arbítrio
feminino no tocante à religião.
B) narrador onisciente, que não participa da história, conhecedor profundo do caráter machista de Paulo
Honório e da sua ideologia política.
C) narração em terceira pessoa que explora o aspecto objetivo e claro da linguagem para associar o espaço
interno do personagem ao espaço externo.
D) discurso em primeira pessoa que transmite o caráter ambíguo da religiosidade do personagem e sua
convicção acerca da relação que a mulher deve ter com a religião.
E) narrador alheio às questões socioculturais e econômicas da sociedade capitalista e que defende
a divisão dos bens e o trabalho coletivo como modo de organização social e política.

✍ Resolução Em Texto
Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
- Literatura Brasileira: Romance de 30 (Graciliano Ramos) e a obra São Bernardo.
- Teoria Literária: Foco Narrativo (1ª pessoa vs. 3ª pessoa) e tipos de Narrador (Personagem vs. Onisciente).
- Interpretação de Texto: Análise psicológica de personagem.
Tema/Objetivo Geral:
Analisar um trecho do romance São Bernardo para identificar o tipo de narrador (1ª pessoa, protagonista) e sua visão de mundo pragmática, cínica e machista, especialmente em relação à religião e ao papel da mulher.
Nível da Questão: Médio.
- Justificativa: A questão exige a identificação técnica do narrador (o que elimina B, C e E de cara) e a interpretação do conteúdo ideológico do discurso. O aluno precisa perceber a hipocrisia de Paulo Honório: ele usa a religião como ferramenta de controle para os empregados (“pagador celeste”) e para a esposa, mas a dispensa para si mesmo.
Gabarito: D.
- Resumo: O texto é narrado em 1ª pessoa por Paulo Honório (“não me preocupo”, “tenho”). Ele revela uma religiosidade ambígua (acredita em Deus apenas como “pagador de salários” para acalmar os pobres) e uma visão machista rígida (homem não precisa de religião, mas mulher sem religião é “horrível”).
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Função Pedagógica: Identificar quem fala e o que ele pensa.
Decodificação do Objetivo: A questão pede duas coisas:
Quem está narrando? (Eu ou Ele?).
O que ele acha da religião e da mulher?
Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine um coronel antigo conversando.
Ele diz: “Eu não preciso ir à missa, mas minha mulher tem que ir. E meus empregados também, para não reclamarem do salário”.
A questão quer que você identifique esse coronel (narrador em 1ª pessoa) e essa moral dupla (ambiguidade).
Nosso Plano de Ataque será o seguinte:
- Verificar os pronomes: “Me”, “Tenho”, “Julgue”. (1ª Pessoa).
- Analisar a opinião sobre religião: “Dispensável a um homem”, “essencial para a mulher”.
- Encontrar a alternativa que une “1ª pessoa” + “visão ambígua/machista”.
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para classificar o narrador, vamos usar o Detector de Vozes.
| Tipo de Narrador | Marca Gramatical | Conhecimento | Exemplo no Texto |
| Personagem (1ª Pessoa) | Eu, Me, Meu, Nós. | Limitado à sua própria visão. | “Não ME preocupo”, “TENHO religião”. |
| Observador (3ª Pessoa) | Ele, Ela, Eles. | Só vê o exterior. | (Não ocorre). |
| Onisciente (3ª Pessoa) | Ele, Ela, Eles. | Sabe tudo (mente e sentimentos). | (Não ocorre). |
Conceito Chave: O Narrador Não-Confiável
Paulo Honório é um narrador bruto e sincero, mas sua visão é distorcida pelo seu egoísmo e possessividade. Ele acha que está certo, mas o leitor percebe que ele é um tirano.
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Vamos analisar o discurso de Paulo Honório:
- Sobre Deus:“Admito Deus, pagador celeste dos meus trabalhadores, mal remunerados”.
- Isso é cinismo. Ele paga mal e deixa Deus pagar o resto no céu. A religião é útil para ele economizar.
- Sobre Ele mesmo:“Julgue que, em parte, ela [religião] é dispensável a um homem”.
- Ele se acha acima da necessidade religiosa.
- Sobre a Mulher:“Mas mulher sem religião é horrível”.
- Aqui está o machismo. A mulher precisa ser contida pela religião para não virar “comunista” ou ter ideias próprias (“reformas sociais”).
Conclusão:
O narrador é personagem (1ª pessoa). Sua religiosidade é ambígua (útil para os outros, inútil para ele) e sua visão sobre a mulher é controladora (ela deve ter religião).
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
A alternativa (A) fala em “narrador personagem”, o que está certo. Mas diz que ele “defende o livre-arbítrio feminino”.
- Por que seduz? Porque acertou o tipo de narrador.
- Por que está errada? O texto diz o oposto de livre-arbítrio. Ele diz: “Mulher sem religião é horrível”. Ele condena a liberdade da mulher de não ter religião. Ele quer impor a religião como freio moral.
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: O texto é um monólogo interior de um coronel (1ª pessoa) que usa a religião como ferramenta de controle social e doméstico.
- Expectativa: A alternativa correta deve falar sobre 1ª pessoa, ambiguidade, controle ou machismo.
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
- A) narrador personagem que coloca no mesmo plano Deus e o diabo, além de defender o livre-arbítrio feminino no tocante à religião.
- Diagnóstico do Erro: Contradição de Conteúdo.
- Narrativa do Erro: Ele não defende o livre-arbítrio; ele ataca a mulher que pensa livremente (“comunista”, “reformas sociais”). Ele quer uma esposa submissa à religião.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- B) narrador onisciente, que não participa da história, conhecedor profundo do caráter machista de Paulo Honório e da sua ideologia política.
- Diagnóstico do Erro: Erro de Foco Narrativo.
- Narrativa do Erro: O texto usa “eu” (“Tenho”, “Não me preocupo”). Narrador onisciente usa “ele”. Quem fala é o próprio Paulo Honório, não uma voz externa.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- C) narração em terceira pessoa que explora o aspecto objetivo e claro da linguagem para associar o espaço interno do personagem ao espaço externo.
- Diagnóstico do Erro: Erro de Foco Narrativo.
- Narrativa do Erro: Novamente, o erro é dizer “terceira pessoa”. O texto é em primeira pessoa.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- D) discurso em primeira pessoa que transmite o caráter ambíguo da religiosidade do personagem e sua convicção acerca da relação que a mulher deve ter com a religião.
- Análise de Correspondência: Perfeito.
- “Primeira pessoa”: “Tenho”, “Julgue”.
- “Caráter ambíguo”: Ele “admite” Deus por conveniência (pagar empregados), mas se acha isento.
- “Convicção sobre a mulher”: Ela deve ter religião para não ser “horrível” ou subversiva.
- Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
- Análise de Correspondência: Perfeito.
- E) narrador alheio às questões socioculturais e econômicas da sociedade capitalista e que defende a divisão dos bens e o trabalho coletivo como modo de organização social e política.
- Diagnóstico do Erro: Interpretação Oposta.
- Narrativa do Erro: Paulo Honório é um capitalista selvagem. Ele paga mal os trabalhadores e critica “comunistas” e “reformas sociais”. Ele defende a propriedade privada (sua vaca, sua fazenda), não a divisão de bens.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento:
Paulo Honório é a encarnação do mandonismo local: ao assumir a voz narrativa em primeira pessoa (Alternativa D), ele revela sem filtros uma mentalidade onde a religião não é fé, mas uma ferramenta política para domesticar trabalhadores e mulheres.
Resumo-flash (A Imagem Mental):
Para o Coronel, Deus é o RH que paga o que ele deve, e a Igreja é a escola que ensina a mulher a obedecer.
🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
O romance São Bernardo (1934) é um estudo sobre a Coisificação (Reificação). Paulo Honório trata tudo como propriedade: a terra, os bichos, os empregados e a esposa (Madalena). Ele “possui” o mundo, mas termina sozinho porque não consegue criar laços humanos verdadeiros. É a solidão do poder.