Para provar que os índios se encontram no estado de barbárie, Sepúlveda vai utilizar a Historia general y natural de las índias, na qual o índio americano era um ser um tanto infra-humano. Para provar o contrário, Las Casas escreve um novo tratado: La apologética historia, em que contraria os vários argumentos de Sepúlveda para justificar a guerra contra os índios. Aí, o índio é um homem como os outros do universo, superior até em muitos aspectos.
No contexto da colonização americana, as narrativas conflitantes de Sepúlveda e Las Casas expressam o seguinte aspecto:
A) Aceitação da diversidade.
B) Reconhecimento da alteridade.
C) Reprodução do etnocentrismo.
D) Compartilhamento do bem comum.
E) Convergência das crenças religiosas.

Resolução Em Texto
📚 Matérias Necessárias para a Solução da Questão
- História da América (Colonização, Visão do Outro)
- Sociologia/Antropologia (Etnocentrismo, Alteridade, Relativismo Cultural)
- Filosofia (Ética)
🎯 Tema/Objetivo Geral
Análise da controvérsia de Valladolid e do debate entre Sepúlveda e Las Casas, identificando o etnocentrismo como a base comum de ambas as argumentações, apesar de suas conclusões opostas.
📊 Nível da Questão
Difícil.
Por quê? A questão é sutil e contraintuitiva. À primeira vista, Las Casas parece ser um defensor da “alteridade” e “diversidade”, o que levaria o aluno a errar. A dificuldade está em perceber que, mesmo ao defender os indígenas, Las Casas o faz dentro de uma lógica cristã e europeia, comparando-os aos “gregos e romanos” e vendo-os como bons selvagens prontos para a conversão. Ambas as visões, a de Sepúlveda e a de Las Casas, partem do pressuposto da superioridade do modelo europeu/cristão para julgar os indígenas, o que é a definição de etnocentrismo.
✅ Gabarito
Alternativa C.
Resumo: O texto apresenta duas visões opostas sobre os indígenas, mas ambas são construídas a partir de um mesmo ponto de partida: a cultura europeia como o padrão de medida para julgar a outra. Sepúlveda usa esse padrão para classificar os indígenas como “bárbaros”. Las Casas usa o mesmo padrão para “elevar” os indígenas, comparando-os aos antigos e vendo-os como virtuosos. Esse ato de julgar outra cultura a partir dos valores da sua própria cultura é a essência do etnocentrismo.
Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo
Transcrição Essencial 📌
“No contexto da colonização americana, as narrativas conflitantes de Sepúlveda e Las Casas expressam o seguinte aspecto:”
O que está sendo pedido?
A questão nos pede para encontrar o ponto em comum subjacente às duas visões, que parecem tão diferentes. O que, na forma de pensar de Sepúlveda e de Las Casas, revela uma característica da mentalidade da época da colonização?
Objetivo Cristalino 💎
Nosso objetivo é ir além da aparente contradição entre “índio-bárbaro” e “índio-bom-selvagem” e identificar o pressuposto compartilhado por ambos os debatedores.
🧠 Tanto para dizer que os indígenas eram “inferiores” quanto para dizer que eram “superiores”, qual foi a “régua” que os dois espanhóis usaram para medi-los? A régua deles mesmos ou a régua dos próprios indígenas?
Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdo Necessários
Definição de Termos 🔖
- Controvérsia de Valladolid (1550-1551): Foi um famoso debate ocorrido na Espanha para discutir a natureza dos povos indígenas do Novo Mundo e o direito dos espanhóis de escravizá-los e guerrear contra eles. Os dois principais oponentes foram Juan Ginés de Sepúlveda e Bartolomé de las Casas.
- Etnocentrismo: É a visão de mundo na qual o nosso próprio grupo é tomado como centro de tudo e todos os outros são pensados e avaliados através dos nossos valores, nossos modelos e nossas definições. É a tendência de julgar outras culturas como “estranhas”, “erradas” ou “inferiores” por não seguirem os nossos próprios costumes.
- Alteridade: É a capacidade de se colocar no lugar do “outro”, de reconhecer a diferença como legítima e de compreender a outra cultura em seus próprios termos, sem julgá-la a partir do seu próprio ponto de vista.
Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema
Contextualização Simplificada 💬
Imagine um debate entre dois críticos de comida europeus que vão a uma feijoada pela primeira vez.
- Crítico 1 (Sepúlveda): “Que horror! Comida bárbara! Misturam partes nojentas do porco, feijão preto… Isso é comida de gente inferior, que não tem refinamento.”
- Crítico 2 (Las Casas): “Que maravilha! Que pureza! Eles usam ingredientes simples da terra, sem as complicações e os molhos artificiais da nossa culinária. Eles são puros, virtuosos, como os camponeses da Roma Antiga! São o exemplo da boa comida!”
A pergunta da questão é: apesar de um odiar e o outro amar a feijoada, o que os dois têm em comum? Ambos estão julgando a feijoada usando a culinária francesa como padrão de referência. Nenhum dos dois tentou entender a feijoada dentro de sua própria história e cultura. Esse ato de usar a sua própria cultura como régua para medir as outras é o etnocentrismo.
Estratégia Geral 🗺️
Nossa estratégia será analisar o critério de julgamento de cada um dos autores para mostrar que, embora suas conclusões sejam opostas, o método de avaliação é o mesmo: a comparação com o padrão europeu.
Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio
Passo a Passo Detalhado 👣
- A Visão de Sepúlveda:
- Argumento: Os índios estão no “estado de barbárie” e são “um ser um tanto infra-humano”.
- Critério de Julgamento: Para chegar a essa conclusão, ele os compara com o modelo de civilização europeu. Como os costumes indígenas (sacrifícios humanos, por exemplo, em algumas culturas) não se encaixavam nos valores cristãos e europeus, ele os classifica como inferiores. Ele usa a régua europeia e conclui que os índios não a atingem.
- A Visão de Las Casas:
- Argumento: O índio é “um homem como os outros”, e “superior até em muitos aspectos”.
- Critério de Julgamento: Para provar isso, ele também os compara com o ideal europeu. Ele os associa a um ideal de pureza e bondade cristã (o “bom selvagem”), ou os compara positivamente às grandes civilizações da Antiguidade clássica (gregos e romanos), que eram a base da cultura europeia. Ele usa a mesma régua europeia, mas conclui que os índios não só a atingem, como a superam em certos aspectos morais.
- O Ponto em Comum (O Etnocentrismo): Ambos os discursos, o de condenação e o de defesa, partem do pressuposto de que a cultura europeia é o padrão universal a partir do qual as outras culturas devem ser medidas e julgadas. Nenhum dos dois pratica a alteridade, que seria tentar entender a cultura indígena em seus próprios termos e valores. Essa centralidade do “eu” europeu como medida para o “outro” indígena é a definição de etnocentrismo.
A Armadilha Comum 🚨
A armadilha fatal é a Alternativa B (“Reconhecimento da alteridade”). É muito fácil e tentador associar Las Casas, o “defensor dos índios”, com a alteridade e o respeito à diferença. No entanto, do ponto de vista da antropologia moderna, sua defesa era paternalista e etnocêntrica. Ele não defendia a cultura indígena como ela era, mas a via como uma versão “pura” e “primitiva” do que os europeus deveriam ser, e os via como um povo a ser evangelizado e “elevado” pela fé cristã.
Fechamento e Expectativa
A análise nos leva a procurar a alternativa que descreva essa atitude de julgar o outro a partir de seu próprio ponto de vista cultural.
Passo 5: Análise das Alternativas
🔴 A) Aceitação da diversidade.
Incorreta. Sepúlveda claramente não aceita a diversidade, e a “aceitação” de Las Casas é condicionada à assimilação do indígena ao cristianismo.
🔴 B) Reconhecimento da alteridade.
Incorreta. Nenhum dos dois pratica a alteridade em seu sentido moderno. Ambos julgam os indígenas a partir de seus próprios referenciais.
🟢 C) Reprodução do etnocentrismo.
Correta. Ambos os discursos, apesar de conflitantes, partem de uma perspectiva etnocêntrica, utilizando a cultura e os valores europeus como padrão para julgar e classificar a cultura indígena.
🔴 D) Compartilhamento do bem comum.
Incorreta. O debate é sobre a dominação e a guerra, o oposto do compartilhamento do bem comum.
🔴 E) Convergência das crenças religiosas.
Incorreta. O debate parte da supremacia da crença religiosa cristã, que é usada como critério para julgar os indígenas, e não de uma convergência.
Passo 6: Conclusão e Justificativa Final
Resumo do Raciocínio 📝
O debate entre Sepúlveda e Las Casas, embora apresente conclusões diametralmente opostas sobre a natureza dos povos indígenas — um os vendo como bárbaros inferiores e o outro como bons selvagens superiores em virtude —, compartilha um mesmo pressuposto fundamental. Ambas as argumentações são construídas a partir de uma perspectiva europeia e cristã, utilizando os valores e os modelos de sua própria cultura como a régua para medir e julgar a cultura do outro. Esse ato de tomar a própria cultura como o centro e o padrão para avaliar as demais é a definição exata de etnocentrismo.
Gabarito Reafirmado 🏅
A alternativa correta é a C.
Resumo Final para Revisão 🔍
Lembre-se: mesmo um elogio pode ser etnocêntrico. Se você diz “eles são bons como nós éramos antigamente” ou “eles são bons porque são como os nossos heróis gregos“, você ainda está usando a sua cultura como o espelho e o padrão. Isso é etnocentrismo, não alteridade.