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Questão 15, caderno azul do ENEM 2024 PPL – Dia 1

Sim, ela sentia dentro de si um animal perfeito. Repugnava-lhe deixar um dia esse animal solto. Por medo talvez da falta de estética. Ou receio de alguma revelação… Não, não, — repetia-se ela — é preciso não ter medo de criar. No fundo de tudo possivelmente o animal repugnava-lhe porque ainda havia nela o desejo de agradar e de ser amada por alguém poderoso como a tia morta. Para depois no entanto pisá-la, repudiá-la sem contemplações. Porque a melhor frase, sempre ainda a mais jovem, era: a bondade me dá ânsias de vomitar. A bondade era morna e leve, cheirava a carne crua guardada há muito tempo. Sem apodrecer inteiramente apesar de tudo. Refrescavam-na de quando em quando, botavam um pouco de tempero, o suficiente para conservá-la um pedaço de carne morna e quieta. LISPECTOR, C. Perto do coração selvagem.

Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.

Nessa passagem, a reflexão feita pela personagem resulta da sua tomada de consciência da

A) inclinação do ser humano para o egoísmo.

B) violência sofrida pelos membros da família.

C) dissimulação praticada em nome da convivência.

D) dificuldade de relacionamento entre as gerações.

E) postura de desdém pela memória da tia morta.

Resolução Em Texto

📚 Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • Literatura Brasileira (Modernismo – Geração de 45, Clarice Lispector)
  • Teoria da Literatura (Fluxo de Consciência, Análise Psicológica de Personagem)
  • Interpretação de Texto Literário

🎯 Tema/Objetivo Geral

Análise do fluxo de consciência de uma personagem de Clarice Lispector para identificar o conflito interno entre sua natureza autêntica (“animal”) e as convenções sociais (“bondade”).

📊 Nível da Questão

Difícil.
Por quê? O texto é um exemplo clássico do estilo introspectivo e complexo de Clarice Lispector. A linguagem é abstrata e metafórica (“animal perfeito”, “bondade morna”), e o raciocínio da personagem é fragmentado e contraditório. A questão exige a capacidade de sintetizar esse fluxo de pensamento em um conceito sociopsicológico (“dissimulação”), diferenciando-o de outras interpretações plausíveis.

✅ Gabarito

Alternativa C.
Resumo: A personagem reconhece a existência de um “animal perfeito” dentro de si (sua natureza selvagem, autêntica), mas o reprime por medo e pelo desejo de “agradar e ser amada”. Essa repressão, que a leva a performar uma “bondade” que ela despreza (“me dá ânsias de vomitar”), é um ato de dissimulação em prol da aceitação social e da convivência.


Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo

Transcrição Essencial 📌

“Nessa passagem, a reflexão feita pela personagem resulta da sua tomada de consciência da”

O que está sendo pedido?

A questão nos pede para identificar qual é a principal descoberta, a “ficha que caiu” para a personagem durante seu monólogo interior. Do que ela se deu conta sobre si mesma e sobre a forma como age no mundo?

Objetivo Cristalino 💎

Nosso objetivo é decifrar o conflito central da personagem entre seu “eu” interior e seu “eu” exterior, e encontrar a alternativa que melhor nomeia esse conflito.

🧠 A personagem gosta de ser “boazinha”? Ou a “bondade” dela é uma máscara que ela usa para conseguir algo, mesmo que essa máscara a enjoe?


Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdo Necessários

Definição de Termos 🔖

  • Fluxo de Consciência: Técnica narrativa que busca representar o fluxo contínuo de pensamentos, sensações e memórias na mente de uma personagem, muitas vezes de forma não linear e associativa.
  • “Animal Perfeito”: No contexto de Clarice, essa metáfora representa a essência instintiva, autêntica, “selvagem” e não socializada do ser. É o eu verdadeiro, livre das convenções.
  • “Bondade”: No texto, “bondade” não é uma virtude, mas o oposto do “animal”. É o comportamento socialmente aceitável, domesticado, polido, mas que, para a personagem, é falso e nauseante (“morna”, “carne crua guardada”, “dá ânsias de vomitar”).
  • Dissimulação: O ato de disfarçar ou ocultar os verdadeiros sentimentos, intenções ou a própria identidade, geralmente para se adaptar a uma situação social ou obter alguma vantagem. É “fingir ser o que não se é”.

Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema

Contextualização Simplificada 💬

A personagem, Joana, está travando uma batalha dentro de sua própria cabeça. Ela sente que dentro dela existe um “bicho” forte e autêntico (o “animal perfeito”). Mas ela tem medo de soltar esse bicho. Por quê? A reflexão dela revela o motivo: ela ainda quer ser amada e aceita, como sua tia poderosa a amava. Para conseguir esse amor, ela precisa usar uma máscara, a máscara da “bondade”.
Só que essa máscara a sufoca. Ela descreve essa “bondade” falsa com nojo, como uma carne velha, morna e sem vida. É algo que ela pratica para ser aceita, para conviver, mas que no fundo a repugna. A questão nos pergunta: qual o nome desse ato de fingir ser “boazinha” para se encaixar na sociedade?

Estratégia Geral 🗺️

Nossa estratégia será analisar a oposição fundamental que a personagem cria entre o seu “eu” verdadeiro (o animal) e o seu “eu” social (a bondade), para entender que a repressão do primeiro em favor do segundo é um ato de dissimulação.


Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio

Passo a Passo Detalhado 👣

  1. O Conflito Interno: O texto estabelece uma dualidade na personagem:
    • Eu Interior: “um animal perfeito”.
    • Eu Exterior: A persona que pratica a “bondade”.
  2. A Repressão: Ela conscientemente reprime seu eu interior: “Repugnava-lhe deixar um dia esse animal solto”.
  3. A Motivação da Repressão (O Ponto-Chave): Por que ela faz isso? A resposta está no texto: “…porque ainda havia nela o desejo de agradar e de ser amada…”. A aceitação social é a motivação.
  4. A Falsidade da Máscara: A personagem tem plena consciência de que essa “bondade” é uma farsa que a enoja. Ela a descreve com metáforas de repulsa: “me dá ânsias de vomitar”, “carne crua guardada há muito tempo”.
  5. A Síntese do Processo: A personagem percebe que está fingindo um comportamento (bondade) que não sente, a fim de obter um ganho social (ser amada, agradar). Esse ato de fingir em nome da aceitação e da convivência é, por definição, a dissimulação.
  6. Conclusão: A tomada de consciência da personagem é sobre sua própria dissimulação e o nojo que ela sente por precisar praticá-la.

A Armadilha Comum 🚨

A principal armadilha é a Alternativa A (“inclinação do ser humano para o egoísmo”). O desejo de “pisá-la, repudiá-la” depois de ser amada pode ser interpretado como egoísmo. No entanto, o foco principal da reflexão não é o egoísmo em si, mas o processo de fingimento que ela precisa manter. O egoísmo é parte do “animal” que está sendo reprimido, mas a tomada de consciência é sobre o ato de reprimir e dissimular.

Fechamento e Expectativa

A análise nos leva a procurar a alternativa que descreva esse conflito entre ser e parecer, entre a essência e a máscara social.


Passo 5: Análise das Alternativas

🔴 A) inclinação do ser humano para o egoísmo.
Incorreta. O egoísmo é um dos traços do “animal” interior, mas a reflexão central é sobre a necessidade de escondê-lo através de uma falsa bondade.

🔴 B) violência sofrida pelos membros da família.
Incorreta. O texto não descreve uma violência física sofrida, mas um conflito psicológico interno. A vontade de “pisar” na tia é um desejo, não um fato ocorrido.

🟢 C) dissimulação praticada em nome da convivência.
Correta. Esta alternativa captura a essência do conflito. A personagem pratica a “bondade” (que ela odeia) como uma forma de dissimulação para poder ser amada e aceita, ou seja, em nome da convivência.

🔴 D) dificuldade de relacionamento entre as gerações.
Incorreta. Embora mencione a tia, o conflito não é sobre um choque de gerações, mas sobre uma luta interna da própria personagem.

🔴 E) postura de desdém pela memória da tia morta.
Incorreta. Ela deseja repudiar a tia, mas ao mesmo tempo busca a aprovação que a tia representava. A postura é ambivalente, não de simples desdém. E, mais importante, a reflexão é sobre ela mesma, não apenas sobre a tia.


Passo 6: Conclusão e Justificativa Final

Resumo do Raciocínio 📝

O trecho de Perto do coração selvagem expõe o fluxo de consciência de uma personagem que se debate com sua dualidade interna. Ela reconhece sua natureza instintiva, o “animal perfeito”, mas a reprime para se adequar às expectativas sociais e obter aceitação, um desejo simbolizado pela figura da tia. Essa performance de uma “bondade” que ela intrinsecamente despreza e considera nauseante é um ato consciente de disfarce. Portanto, a reflexão da personagem resulta de sua tomada de consciência da dissimulação que ela pratica em nome da convivência social.

Gabarito Reafirmado 🏅

A alternativa correta é a C.

Resumo Final para Revisão 🔍

Em Clarice Lispector, a “civilização” (representada aqui pela “bondade”) é frequentemente vista como uma máscara que reprime o “selvagem” (o “animal”). A tensão entre essas duas forças e a consciência dessa farsa é um tema central. A palavra que melhor define essa farsa social é dissimulação.

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