O instituto popular, de acordo com o exame da razão, fez da figura do alferes Xavier o principal dos inconfidentes, e colocou os seus parceiros a meia ração de glória. Merecem, decerto, a nossa estima aqueles outros; eram patriotas. Mas o que se ofereceu a carregar com os pecadores de Israel, o que chorou de alegria quando viu comutada a pena de morte dos seus companheiros, pena que só ia ser executada nele, o enforcado, o esquartejado, o decapitado, esse tem de receber o prêmio na proporção do martírio, e ganhar por todos, visto que pagou por todos.
ASSIS, M. Gazeta de Notícias, n. 114, 24 abr. 1892.
No processo de transição para a República, a narrativa machadiana sobre a Inconfidência Mineira associa
A) redenção cristã e cultura cívica.
B) veneração aos santos e radicalismo militar.
C) apologia aos protestantes e culto ufanista.
D) tradição messiânica e tendência regionalista.
E) representação eclesiástica e dogmatismo ideológico.

Resolução em texto
Matérias Necessárias para a Solução da Questão: História do Brasil (Período Colonial e transição para a República), Literatura (contexto machadiano), Formação da memória nacional.
Nível da Questão: Médio
Gabarito: A
Tema/Objetivo Geral (Opcional): Analisar a construção simbólica de Tiradentes como mártir e herói republicano, relacionando elementos religiosos e civismo.
Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo
📌 Retomar o Comando da Questão (trecho essencial):
“No processo de transição para a República, a narrativa machadiana sobre a Inconfidência Mineira associa…”
🔹 Explicação Detalhada:
A questão pede que se identifique como, na visão de Machado de Assis, Tiradentes se tornou o herói-mártir dos inconfidentes, e como isso se relaciona a uma ideia de “redenção cristã” e “cultura cívica” na formação simbólica do herói nacional no final do século XIX.
🔹 Identificação de Palavras-Chave:
- Tiradentes
- Martírio
- Transição para a República
- Redenção cristã
- Cultura cívica
🔹 Definição do Objetivo:
Mostrar como Tiradentes foi interpretado e exaltado como mártir, comparável a uma figura cristã, reforçando a formação de uma nova cultura cívica republicana.
➡ “Agora que o comando foi analisado e o objetivo definido, vamos explicar os conceitos e conteúdos necessários.”
Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários
📌 Conceitos Teóricos Essenciais:
- Inconfidência Mineira (1789): Movimento de caráter emancipacionista e republicano.
- Figura de Tiradentes: Foi ressignificada no final do Império e no início da República como símbolo de heroísmo nacional.
- Transição para a República (1889): Necessidade de símbolos que legitimassem o novo regime, resultando na “cristianização” de Tiradentes como mártir da pátria.
➡ “Com os conceitos estabelecidos, prossigamos para a interpretação do texto.”
Passo 3: Tradução e Interpretação do Texto
📌 Análise do Contexto:
O texto de Machado de Assis enfatiza a imagem de Tiradentes como o principal mártir da Inconfidência, “o que chorou de alegria” ao saber que os outros companheiros não seriam executados, criando uma aura de sacrifício semelhante à de uma figura religiosa.
📌 Identificação de Frases-Chave:
- “O que se ofereceu a carregar com os pecadores de Israel”
- “Esse tem de receber o prêmio na proporção do martírio”
📌 Relação com os Conteúdos:
Essas expressões reforçam a ideia de Tiradentes como redentor (similar a Cristo), associando um componente religioso (“pecadores de Israel”) ao surgimento de uma nova identidade cívica no contexto republicano.
➡ “Agora que o texto foi interpretado, vamos desenvolver o raciocínio para a resolução completa.”
Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio
📌 Resolução Completa (passo a passo):
- Contexto histórico: Em 1892, a Primeira República recém-instalada buscava símbolos para legitimar o novo regime.
- Tiradentes como mártir: Machado de Assis aponta que Tiradentes “pagou por todos”, criando uma imagem de sacrifício redentor.
- Simbologia religiosa e cívica: Ao mesmo tempo em que Tiradentes assume o papel de “salvador” (redenção cristã), consolida-se como herói nacional (cultura cívica).
- Finalidade política: Esse processo uniu referências religiosas e o ideal republicano para fortalecer a identidade do novo regime.
📌 Explicação da Lógica:
A propaganda republicana “cristianizou” a imagem de Tiradentes, transformando-o em herói cívico e mártir redentor, e esse símbolo atendeu à necessidade de consolidar valores republicanos.
➡ “Com o raciocínio desenvolvido, vamos analisar as alternativas apresentadas.”
Passo 5: Análise das Alternativas e Resolução
📌 Reescrita das Alternativas:
A) Redenção cristã e cultura cívica.
B) Veneração aos santos e radicalismo militar.
C) Apologia aos protestantes e culto ufanista.
D) Tradição messiânica e tendência regionalista.
E) Representação eclesiástica e dogmatismo ideológico.
🔹 Justificativa da Alternativa Correta:
✅ (A) Redenção cristã e cultura cívica
Tiradentes é retratado como mártir que “carregou os pecadores”, evidenciando a analogia com a figura de Cristo (redenção cristã) e servindo de base para o patriotismo republicano (cultura cívica).
🔹 Análise das Alternativas Incorretas:
- (B) ❌ Não há menção a veneração de santos nem a radicalismo militar na narrativa.
- (C) ❌ Não há apologia protestante, nem foco em culto ufanista.
- (D) ❌ A tradição messiânica não é o foco; o texto fala em sacrifício e martírio, não em movimento regionalista.
- (E) ❌ Não se discute representação eclesiástica nem dogmatismo ideológico.
➡ “Finalmente, vamos concluir a resolução com um resumo e a justificativa final.”
Passo 6: Conclusão e Justificativa Final
📌 Resumo do Raciocínio:
Tiradentes foi elevado à condição de mártir, com analogias cristãs, e tornou-se um ícone cívico para legitimar a jovem República. Essa “redenção cristã” fundiu-se à “cultura cívica,” garantindo um símbolo forte para o novo regime.
📌 Reafirmação da Alternativa Correta:
A resposta correta é (A) Redenção cristã e cultura cívica, pois a imagem de Tiradentes uniu o simbolismo religioso ao patriotismo republicano.
🔍 Resumo Final:
No período de transição do Império para a República, a figura de Tiradentes foi reinterpretada por intelectuais como Machado de Assis, recebendo traços de um mártir cristão e, ao mesmo tempo, representando o herói cívico republicano. Dessa forma, associou-se a “redenção cristã” à “cultura cívica,” legitimando o novo regime.