Os riscos apresentados pelos produtos dependem de suas propriedades e da reatividade quando em contato com outras substâncias. Para prevenir os riscos devido à natureza química dos produtos, devemos conhecer a lista de substâncias incompatíveis e de uso cotidiano em fábricas, hospitais e laboratórios, a fim de observar cuidados na estocagem, manipulação e descarte. O quadro elenca algumas dessas incompatibilidades, que podem levar à ocorrência de acidentes.

Considere que houve o descarte indevido de dois conjuntos de substâncias:
(1) ácido clorídrico concentrado com cianeto de potássio;
(2) ácido nítrico concentrado com sacarose.
Disponível em: www.fiocruz.br. Acesso em: 6 dez. 2017 (adaptado).
O descarte dos conjuntos (1) e (2) resultará, respectivamente, em
A) liberação de gás tóxico e reação oxidativa forte.
B) reação oxidativa forte e liberação de gás tóxico.
C) formação de sais tóxicos e reação oxidativa forte.
D) liberação de gás tóxico e liberação de gás oxidante.
E) formação de sais tóxicos e liberação de gás oxidante.

Resolução Em Texto
Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
Química Inorgânica (Reações de Dupla Troca e Volatilidade), Química Geral (Segurança Laboratorial e Propriedades dos Ácidos) e Reações de Oxirredução.
Tema/Objetivo Geral:
Previsão de riscos em reações químicas baseada na incompatibilidade de reagentes (Ácidos Fortes, Cianetos e Agentes Oxidantes).
Nível da Questão: Médio.
- (Exige que o aluno vá além do simples conceito de ácido-base e conheça propriedades específicas: a volatilidade tóxica do HCN e o poder oxidante do Ácido Nítrico).
Gabarito: Alternativa (A).
- O contato de ácidos fortes com cianetos gera gás cianídrico (tóxico). O contato de ácido nítrico com matéria orgânica gera uma reação violenta de oxidação (potencialmente explosiva).
PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
A questão apresenta uma tabela de “Incompatibilidades Químicas” – basicamente, uma lista de “coisas que você jamais deve misturar”. Ela pede que você assuma o papel de um técnico de segurança e preveja o que acontecerá em dois acidentes específicos de descarte.
Simplificando, imagine que…
Você é um perito criminal analisando duas cenas de crime químico.
- Cena 1: Alguém jogou ácido em um pote de veneno (cianeto).
- Cena 2: Alguém jogou um ácido corrosivo em cima de um pote de açúcar.
Sua missão é dizer qual foi a “arma” química disparada em cada cena: foi um gás sufocante? Foi uma explosão de fogo?
Nosso Plano de Ataque será o seguinte:
- Analisar quimicamente a Mistura 1 (Ácido + Cianeto) e identificar o produto gasoso.
- Analisar quimicamente a Mistura 2 (Ácido Nítrico + Matéria Orgânica) e identificar o tipo de reação energética.
- Buscar a alternativa que descreve os dois fenômenos na ordem correta.
PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para resolver isso, precisamos acessar o “Dossiê de Periculosidade” dessas substâncias. Vamos usar uma Ficha Técnica para entender o comportamento de cada reagente.
FICHA TÉCNICA: Os Reagentes do Perigo
1. O Grupo dos Cianetos (KCN)
- Natureza: Sais derivados do Ácido Cianídrico (HCN).
- A Regra de Ouro: O ácido cianídrico é um ácido fraco e volátil (vira gás fácil).
- Reação de Deslocamento: Quando um ácido forte (como o Clorídrico – HCl) encontra um sal de ácido fraco (Cianeto), o ácido forte “expulsa” o fraco da estrutura.
- Equação Mental: Sal de Cianeto + Ácido Forte -> Gás Cianídrico (HCN).
- Perigo: O HCN gasoso é letal em minutos (bloqueia a respiração celular).
2. O Ácido Nítrico Concentrado (HNO3)
- Personalidade: Ele tem “dupla personalidade”. É um ácido forte, mas também é um Agente Oxidante Poderoso.
- Comportamento com Orgânicos: Quando encontra matéria orgânica (como sacarose/açúcar), ele não quer apenas “corroer”; ele quer doar oxigênio violentamente.
- Resultado: Ele queima a matéria orgânica de dentro para fora. É uma combustão química sem fogo externo.
PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Vamos aplicar a teoria aos dois casos citados no enunciado.
Análise do Caso (1): Ácido Clorídrico + Cianeto de Potássio
- Reagentes: HCl (aq) + KCN (s).
- O Processo: Ocorre uma reação de dupla troca. O H do ácido se junta ao CN do sal. O K do sal se junta ao Cl do ácido.
- Produtos: KCl (Cloreto de Potássio, um sal inofensivo) + HCN (Ácido Cianídrico).
- Estado Físico: Como o meio é aquoso e ácido, e o HCN é muito volátil (ferve a 26°C), ele escapa imediatamente como gás.
- Conclusão do Caso 1: Liberação de Gás Tóxico.
Análise do Caso (2): Ácido Nítrico + Sacarose
- Reagentes: HNO3 (concentrado) + C12H22O11 (Açúcar).
- O Processo: O ácido nítrico ataca as ligações carbono-hidrogênio do açúcar, oxidando o carbono a CO2 e a água, enquanto o próprio ácido se reduz a óxidos de nitrogênio (fumaça laranja).
- Energia: Essa quebra libera uma quantidade absurda de calor instantaneamente.
- Conclusão do Caso 2: Reação Oxidativa Forte (pode haver fogo ou explosão).
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! No Caso 1, o aluno pode pensar: “Ah, formou KCl (Cloreto de Potássio), então a resposta é ‘formação de sal’”.
Embora quimicamente verdadeiro, em segurança do trabalho nós focamos no risco. O sal KCl é inofensivo (é usado em substituto de sal de cozinha). O risco que mata o operador é o gás HCN. A pergunta foca nas consequências perigosas (acidentes), não nos subprodutos inertes.
A Bússola (Síntese do Raciocínio):
- Síntese: Mistura 1 libera veneno gasoso. Mistura 2 gera uma queima química violenta.
- Expectativa: Devemos buscar: “Gás tóxico” E “Reação oxidativa/violenta”.
PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
A) liberação de gás tóxico e reação oxidativa forte.
Análise de Correspondência:
Perfeito. O gás tóxico é o HCN (proveniente do cianeto em meio ácido). A reação oxidativa forte é a combustão da sacarose pelo oxigênio do ácido nítrico.
Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
B) reação oxidativa forte e liberação de gás tóxico.
Diagnóstico do Erro: Inversão Sequencial.
Esta alternativa descreve os fenômenos corretos, mas na ordem errada (primeiro o caso 2, depois o caso 1). O enunciado pede “respectivamente”.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
C) formação de sais tóxicos e reação oxidativa forte.
Diagnóstico do Erro: Foco no Produto Errado.
No caso 1, o sal formado é o KCl, que não é tóxico agudo. O problema é o gás, não o sal. Além disso, “formação de sal” não descreve o risco iminente de morte por inalação.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
D) liberação de gás tóxico e liberação de gás oxidante.
Diagnóstico do Erro: Imprecisão Técnica.
A primeira parte está certa. Na segunda, embora a reação do ácido nítrico libere gases (NO2), o evento principal que caracteriza o acidente é a “reação oxidativa” violenta da matéria orgânica. Dizer apenas “liberação de gás oxidante” minimiza o fato de que a mistura pode explodir ou pegar fogo. Além disso, o NO2 não é classificado primariamente como “gás oxidante” no contexto de causar o acidente, ele é produto da redução do ácido.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
E) formação de sais tóxicos e liberação de gás oxidante.
Diagnóstico do Erro: Erro Duplo.
Erra o primeiro caso (o risco é o gás, não o sal) e erra a descrição do segundo caso (o risco é a reação exotérmica violenta).
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Reafirmação:
Ácidos fortes liberam gases tóxicos de cianetos. Ácido nítrico é um oxidante enérgico que incendeia matéria orgânica.
Resumo-flash:
“Ácido no Cianeto: Gás da morte. Nítrico no Açúcar: Bomba química.”
Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
O princípio da reação 1 (Acidificação de Cianeto) foi tragicamente usado nas câmaras de gás da Segunda Guerra Mundial (Zyklon B liberava HCN). Já o princípio da reação 2 (Oxidação de orgânicos por Nitratos/Nítrico) é a base da fabricação de explosivos como TNT e Pólvora Negra (que usa nitrato de potássio como oxidante e carvão como combustível). A química salva e mata, dependendo do uso.