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Questão 89, caderno azul do ENEM 2022 D1

Quando os espanhóis chegaram à América, estava em seu apogeu o império teocrático dos Incas, que estendia seu poder sobre o que hoje chamamos Peru, Bolívia e Equador, abarcava parte da Colômbia e do Chile e alcançava até o norte argentino e a selva brasileira; a confederação dos Astecas tinha conquistado um alto nível de eficiência no vale do México, e no Yucatán, na América Central, a esplêndida civilização dos Maias persistia nos povos herdeiros, organizados para o trabalho e para a guerra. Os Maias tinham sido grandes astrônomos, mediram o tempo e o espaço com assombrosa precisão, e tinham descoberto o valor do número zero antes de qualquer povo da história. No museu de Lima, podem ser vistos centenas de crânios que receberam placas de ouro e prata por parte dos cirurgiões Incas.

GALEANO, E. As veias abertas da América Latina. Porto Alegre: L&PM, 2012.

As sociedades mencionadas deixaram como legado uma diversidade de

A) bens religiosos inspirados na matriz cristã.

B) materiais bélicos pilhados em batalhas coloniais.

C) heranças culturais constituídas em saberes próprios.

D) costumes laborais moldados em estilos estrangeiros.

E) práticas medicinais alicerçadas no conhecimento científico.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão:

  • História da América Pré-Colombiana: Incas, Maias e Astecas.
  • Interpretação de Texto: Identificação de características e legado.
  • Antropologia Cultural: Conhecimento autônomo e etnocentrismo.

Tema/Objetivo Geral:
Reconhecer que os povos pré-colombianos (Incas, Maias, Astecas) possuíam civilizações complexas com desenvolvimento científico, astronômico e social próprio, independente da influência europeia, e que esse conhecimento constitui um legado cultural autêntico.

Nível da Questão: Médio.

  • Justificativa: O texto de Eduardo Galeano (autor conhecido pela crítica anticolonial) exalta a complexidade e a sofisticação das civilizações pré-colombianas antes da chegada dos espanhóis. O aluno precisa conectar as descrições de “grandes astrônomos”, “precisão”, “número zero” e “cirurgiões” à ideia de um saber autônomo (saberes próprios), evitando cair em alternativas que sugerem influência europeia (matriz cristã, estrangeiros).

Gabarito: C.

  • Resumo: O texto lista conquistas intelectuais impressionantes: o número zero (Maias), a cirurgia craniana (Incas) e a astronomia precisa. Essas inovações não foram copiadas da Europa; foram criadas aqui. Portanto, o legado dessas sociedades é uma herança cultural baseada em saberes próprios.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Função Pedagógica: Valorizar a autonomia intelectual dos povos nativos.

Decodificação do Objetivo: A questão pergunta: “O que esses povos deixaram para a história, segundo o texto?”. Eles deixaram apenas objetos roubados? Coisas copiadas da Europa? Ou deixaram uma ciência e cultura que eles mesmos inventaram?

Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine que você inventou um robô sozinho na sua garagem.

Alguém chega e diz: “Você copiou do vizinho?”. Não.

Alguém diz: “Você achou no lixo?”. Não.

Você diz: “Isso é um saber próprio. Eu criei”.

Galeano está dizendo isso sobre os indígenas: eles criaram a matemática e a medicina deles sozinhos.

Nosso Plano de Ataque será o seguinte:

  • Listar os feitos citados: Astronomia, Matemática (Zero), Medicina (Cirurgia).
  • Verificar a origem: “Antes de qualquer povo”, “cirurgiões Incas”.
  • Concluir que são saberes autênticos e originais (próprios).

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para entender a grandeza dessas civilizações, vamos usar o Quadro de Honra Pré-Colombiano.

Civilização Conquista Citada no Texto Área do Conhecimento
Maias 📐 “Descoberto o número zero”, “grandes astrônomos”. Matemática / Astronomia.
Incas 🧠 “Cirurgiões”, “placas de ouro em crânios”. Medicina / Metalurgia.
Astecas 🏙️ “Alto nível de eficiência”. Organização Social / Engenharia.

Conceito Chave: Saber Autóctone
Autóctone significa “da terra”, nativo. O texto combate a ideia de que a América era selvagem antes da Europa. Ele prova que havia ciência avançada (saber próprio) aqui.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos analisar as alternativas com a lupa da autonomia:

  • O texto diz que eles descobriram o zero “antes de qualquer povo da história”.
    • Isso elimina qualquer influência estrangeira (D) ou cristã (A). Se foi antes, foi invenção deles.
  • O texto diz que eles faziam cirurgias.
    • Isso é ciência? Sim. Mas cuidado com a alternativa (E). A “ciência” como método moderno (cartesiano) é europeia. O texto fala de práticas medicinais, mas o legado geral (astronomia, matemática, organização) é melhor descrito como “saberes próprios” (C) do que como “conhecimento científico” (E), termo que pode ser anacrônico ou restritivo. A alternativa (C) é mais ampla e culturalmente precisa.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
A alternativa (A) (“bens religiosos inspirados na matriz cristã”) é um absurdo histórico.

  • Por que alguém marcaria? Por distração ou desconhecimento total de história.
  • Por que está errada? O texto fala do período “quando os espanhóis chegaram”. O cristianismo chegou com eles. As civilizações (Incas, Maias) se desenvolveram antes do contato. Seus bens religiosos eram politeístas e não tinham nada a ver com Cristo. Marcar essa é ignorar a cronologia.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: O texto lista inovações intelectuais e técnicas criadas pelos povos nativos.
  • Expectativa: A alternativa correta deve falar sobre cultura, autonomia, invenção original ou saberes locais.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

  • A) bens religiosos inspirados na matriz cristã.
    • Diagnóstico do Erro: Anacronismo (Erro de Tempo).
    • Narrativa do Erro: O cristianismo chegou à América em 1492. As civilizações citadas floresceram séculos antes. Seus bens religiosos eram autóctones, não cristãos.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • B) materiais bélicos pilhados em batalhas coloniais.
    • Diagnóstico do Erro: Invenção de Fato.
    • Narrativa do Erro: O texto não fala de armas roubadas (pilhadas). Fala de conquistas intelectuais (zero, astronomia). E “pilhagem colonial” sugere que eles roubaram dos europeus, quando o fluxo histórico foi o contrário (europeus pilharam o ouro inca).
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • C) heranças culturais constituídas em saberes próprios.
    • Análise de Correspondência: Perfeito.
      • “Heranças culturais”: O legado deixado (conhecimento, técnica).
      • “Saberes próprios”: Matemática maia, cirurgia inca, astronomia. Tudo desenvolvido por eles mesmos, sem ajuda externa.
    • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
  • D) costumes laborais moldados em estilos estrangeiros.
    • Diagnóstico do Erro: Negação da Autonomia.
    • Narrativa do Erro: Dizer que foi “moldado em estilo estrangeiro” é dizer que eles copiaram. O texto diz o oposto: eles descobriram o zero antes de qualquer outro povo. A originalidade é o ponto central.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • E) práticas medicinais alicerçadas no conhecimento científico.
    • Diagnóstico do Erro: Restrição e Terminologia.
    • Narrativa do Erro: O texto fala de cirurgias (medicina), mas também de astronomia e matemática. A alternativa restringe o legado apenas a “práticas medicinais”. Além disso, o termo “conhecimento científico” é frequentemente associado à ciência moderna ocidental. “Saberes próprios” (C) é um termo mais respeitoso e abrangente para a epistemologia indígena.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento:
A América não foi “descoberta”, ela já tinha se descoberto: ao exaltar o zero maia e a cirurgia inca, Galeano prova que o continente possuía uma rica diversidade de heranças culturais constituídas em saberes próprios (Alternativa C), desmentindo a visão colonial de que civilização só existia na Europa.

Resumo-flash (A Imagem Mental):
O Maia olhou pro céu e calculou o eclipse sem telescópio da NASA. Isso é Saber Próprio.

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
A matemática maia usava um sistema vigesimal (base 20) muito avançado. O conceito de Zero é uma das maiores abstrações da mente humana. Enquanto os romanos não tinham zero (tente calcular com algarismos romanos!), os maias já o usavam para marcar datas e fazer contas complexas. Isso é prova de alta sofisticação intelectual.

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