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Questão 83, caderno azul do ENEM 2022 D1

Nascidas no Líbano, as duas irmãs não puderam ser registradas no país, porque lá é exigido que os nascidos sejam filhos de pais e mães libaneses. Seus pais, de nacionalidade síria, também não puderam registrá-las no país de origem. Na Síria, crianças só são registradas por pais oficialmente casados, o que não era o caso deles.

Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br. Acesso em: 7 nov. 2021.

Em situações como a apresentada no texto, as pessoas ao nascerem já se encontram na condição sociopolítica de

A) exiladas.

B) apátridas.

C) foragidas.

D) refugiadas.

E) clandestinas.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão:

  • Direito Internacional/Direitos Humanos: Conceitos de Nacionalidade, Cidadania e Apatridia.
  • Geopolítica: Conflitos no Oriente Médio (Refugiados Sírios).
  • Interpretação de Texto: Identificação de status jurídico.

Tema/Objetivo Geral:
Compreender o conceito de Apatridia (ausência de pátria/nacionalidade) como um drama humanitário causado por lacunas nas leis de nacionalidade (Jus Soli vs. Jus Sanguinis) e conflitos burocráticos.

Nível da Questão: Médio.

  • Justificativa: A questão exige precisão conceitual. O aluno precisa diferenciar termos que parecem sinônimos no senso comum (refugiado, exilado, apátrida). O texto dá a pista técnica: “não puderam ser registradas”. Se não tem registro, não tem nacionalidade. Quem não tem nacionalidade é apátrida.

Gabarito: B.

  • Resumo: As irmãs nasceram no Líbano, mas o Líbano não deu nacionalidade (não segue o Jus Soli puro). Os pais são sírios, mas a Síria não deu nacionalidade (burocracia do casamento). Resultado: elas não são nem libanesas, nem sírias. Elas não têm pátria jurídica. São apátridas.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Função Pedagógica: Classificar o “limbo” jurídico.

Decodificação do Objetivo: A questão conta uma história triste de burocracia: duas meninas nasceram, mas nenhum país quis dar um documento dizendo “você é nossa cidadã”. Qual é o nome técnico para uma pessoa que não pertence a nenhum país?

Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine um jogo de futebol.

Para jogar, você precisa de uma camisa.

O time A (Líbano) diz: “Não vou te dar camisa”.

O time B (Síria) diz: “Também não vou te dar camisa”.

Você está no campo, mas sem time.

No Direito Internacional, “sem time” = Apátrida.

Nosso Plano de Ataque será o seguinte:

  • Analisar o caso do Líbano: Negou registro.
  • Analisar o caso da Síria: Negou registro.
  • Conclusão: Elas têm 0 nacionalidades.
  • Associar “0 nacionalidade” ao termo “apátrida”.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para não confundir os termos, vamos usar o Dicionário do Migrante.

Termo Definição Simplificada Diferença para o Texto
Refugiado Fugiu do seu país por medo (guerra/perseguição). Geralmente tem uma nacionalidade, mas não pode voltar para lá. As meninas nem têm nacionalidade.
Exilado Foi expulso ou proibido de voltar (político). As meninas não foram expulsas, elas nasceram nessa situação.
Clandestino Entrou escondido/ilegal. O problema delas não é a entrada, é o registro de nascimento.
Apátrida Não tem nacionalidade. Nenhum país a reconhece. É exatamente o caso: nem Líbano, nem Síria as reconhecem.

Conceito Chave: Jus Soli vs. Jus Sanguinis

  • Jus Soli (Direito do Solo): Nasceu aqui, é nosso (ex: Brasil).
  • Jus Sanguinis (Direito de Sangue): É filho de nacional, é nosso (ex: Síria, Itália).
  • As meninas caíram num buraco entre essas duas leis: nasceram no solo errado (Líbano não aceita só o solo) com o sangue “burocraticamente errado” (Síria não aceita pais não casados).

3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos analisar o labirinto jurídico:

  • Líbano: “não puderam ser registradas… exigido que sejam filhos de libaneses”. (Porta fechada).
  • Síria: “não puderam registrá-las… crianças só são registradas por pais oficialmente casados”. (Porta fechada).
  • Resultado: Elas existem fisicamente, mas juridicamente são “fantasmas”. Não têm passaporte, identidade ou cidadania.

Conclusão:
Se elas não têm pátria (país que as reconheça), elas são A-pátridas (o prefixo “a” significa negação).

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
A alternativa (D) (“refugiadas”) é o distrator mais forte.

  • Por que seduz? Porque os pais são sírios e provavelmente fugiram da guerra para o Líbano.
  • Por que está errada? A questão pergunta sobre a condição ao nascerem decorrente da falta de registro. Um bebê pode nascer refugiado (se tiver nacionalidade síria), mas neste caso específico, o texto foca no vácuo legal de não ter registro em lugar nenhum. A falta de nacionalidade define a apatridia, não o refúgio (embora elas possam ser apátridas e viver em campo de refugiados). O termo técnico para “sem registro” é apátrida.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: O texto descreve um cenário de negação de nacionalidade por todos os lados possíveis.
  • Expectativa: A alternativa correta deve conter a palavra que significa “sem pátria” ou “sem nacionalidade”.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

  • A) exiladas.
    • Diagnóstico do Erro: Termo Político Inadequado.
    • Narrativa do Erro: Exílio é uma punição ou fuga política de alguém que já tem um país. Um recém-nascido não é exilado, pois não tem atuação política.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • B) apátridas.
    • Análise de Correspondência: Perfeito. O termo “apátrida” designa qualquer pessoa que não é considerada nacional por nenhum Estado sob a operação de sua lei. É a descrição exata da situação das irmãs: rejeitadas pelo Líbano e pela Síria.
    • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
  • C) foragidas.
    • Diagnóstico do Erro: Contexto Criminal.
    • Narrativa do Erro: Foragido é quem foge da polícia/justiça. As crianças são vítimas da burocracia, não criminosas procuradas.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • D) refugiadas.
    • Diagnóstico do Erro: Confusão de Status.
    • Narrativa do Erro: Refugiado é quem está fora de seu país de nacionalidade por medo. As meninas não têm país de nacionalidade. Embora vivam um drama humanitário similar, a condição jurídica específica da falta de registro é a apatridia. O texto foca na falta de registro, não na fuga da guerra.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • E) clandestinas.
    • Diagnóstico do Erro: Termo Migratório Incorreto.
    • Narrativa do Erro: Clandestino é quem entra ou vive em um país escondido das autoridades. As meninas nasceram lá; a existência delas é conhecida, mas a cidadania é negada. Apatridia é uma questão de direito, não de esconderijo.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento:
Ser cidadão é ter o “direito a ter direitos”: ao nascerem em um limbo jurídico onde nenhum Estado as reconhece como filhas, as irmãs se tornam apátridas (Alternativa B), fantasmas legais em um mundo dividido por fronteiras.

Resumo-flash (A Imagem Mental):
Sem certidão, não há nação. Apátrida é o cidadão de lugar nenhum.

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
A ONU tem uma meta de acabar com a apatridia até 2024 (Campanha #IBelong). No Brasil, a Lei de Migração (2017) facilitou a naturalização de apátridas, reconhecendo a gravidade desse problema que tira o acesso a escola, saúde e trabalho de milhões de pessoas.

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