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Questão 83, caderno azul do ENEM 2018

Não é verdade que estão ainda cheios de velhice espiritual aqueles que nos dizem: “Que fazia Deus antes de criar
o céu e a terra? Se estava ocioso e nada realizava”, dizem eles, “por que não ficou sempre assim no decurso dos
séculos, abstendo-se, como antes, de toda ação? Se existiu em Deus um novo movimento, uma vontade nova para dar o ser a criaturas que nunca antes criara, como pode haver verdadeira eternidade, se n’Ele aparece uma vontade que antes não existia?”

AGOSTINHO. Confissões. São Paulo: Abril Cultural, 1984.

A questão da eternidade, tal como abordada pelo autor, é um exemplo da reflexão filosófica sobre a(s)

A) essência da ética cristã.
B) natureza universal da tradição.
C) certezas inabaláveis da experiência.
D) abrangência da compreensão humana.
E) interpretações da realidade circundante.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão:

  • Filosofia Medieval (Patrística).
  • Metafísica (Conceitos de Tempo e Eternidade).
  • Teoria do Conhecimento (Epistemologia – Limites da Razão).

Tema/Objetivo Geral:
Analisar a natureza do tempo versus a eternidade e reconhecer os limites da razão humana ao tentar aplicar categorias temporais (passado/presente/futuro) a um ser atemporal (Deus).

Nível da Questão:
Difícil.
Por que? O texto é denso e abstrato. Exige que o aluno perceba que Agostinho não está respondendo à pergunta (“O que Deus fazia?”), mas sim invalidando a pergunta, mostrando que ela nasce de uma falha na nossa capacidade de compreender o infinito.

Gabarito:
Letra D.
A alternativa está correta pois o texto demonstra que a mente humana, limitada e presa ao fluxo do tempo, entra em colapso (paradoxo) quando tenta julgar a eternidade divina, revelando assim a “abrangência” (ou os limites) da nossa própria compreensão.


🕵️‍♂️ Resolução Passo a Passo

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

  • Decodificação do Objetivo: A questão apresenta um dilema lógico levantado por céticos: “Se Deus criou o mundo em um momento X, o que Ele estava fazendo antes? Ele estava ocioso (sem fazer nada)? Se Ele decidiu criar, Ele mudou de ideia? Se mudou, não é eterno/perfeito.” A banca quer saber: Esse tipo de “nó na cabeça” serve para ilustrar qual problema filosófico?
  • Simplificação Radical (A Analogia Central):
    • Imagine um personagem de videogame (nós) tentando entender o mundo fora do computador (a realidade do programador/Deus).
    • O personagem pergunta: “O que o Programador estava fazendo antes de ligar o computador e criar meu mundo?”
    • Essa pergunta não faz sentido, porque o “tempo” do jogo só começou quando o computador foi ligado. O personagem está tentando usar as regras do jogo (tempo interno) para medir quem criou o jogo (tempo externo/eternidade).
    • A questão quer que você perceba que o problema não é o Programador, é a cabeça limitada do personagem.
  • Nosso Plano de Ataque:
    1. Identificar o paradoxo no texto (Mudança de vontade vs. Eternidade).
    2. Entender por que essa pergunta é uma armadilha lógica.
    3. Concluir que o texto fala sobre a incapacidade humana de entender o divino.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para resolver Agostinho, precisamos diferenciar os “ambientes” onde as coisas acontecem. Vamos usar a Tabela das Dimensões.

Conceito O Mundo Humano (Finito) O Mundo Divino (Infinito/Eterno) O Conflito (Aporia)
A “Régua” O Tempo. Tudo tem um “antes”, um “agora” e um “depois”. Tudo muda. A Eternidade. Não existe passado nem futuro. Tudo é um eterno “AGORA”. Deus não muda. Quando o humano tenta medir Deus com a régua do tempo.
A Vontade Eu não queria sorvete, agora quero. (Houve mudança em mim). A vontade de Deus é eterna. Se Ele cria, não é uma “nova vontade”, o ato já existia na eternidade. “Se existiu vontade nova, como há eternidade?”
O Diagnóstico Nossa mente é “temporal”. Só entendemos coisas em sequência. A essência divina é “atemporal”. O choque revela a limitação da compreensão humana.

Conceito Chave: Na filosofia de Agostinho, Deus criou o Tempo junto com o Mundo. Não existia um “antes” da criação, porque o tempo não existia. Perguntar “o que Deus fazia antes” é como perguntar “o que tem ao norte do Polo Norte”. É um erro de categoria mental.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

  • A Provocação: Os interlocutores de Agostinho perguntam: “Se Deus é eterno (imutável), como Ele teve uma ‘vontade nova’ de criar o mundo?”.
  • O Raciocínio de Agostinho: Ele chama essas pessoas de “cheios de velhice espiritual”. Por quê? Porque elas estão presas a uma visão humana velha e limitada.
  • A Dedução: Agostinho mostra que aplicar o conceito de “tempo” (antes/depois) a Deus gera contradição. Se gera contradição, significa que nossa ferramenta de pensar (a razão humana temporal) não serve para medir Deus.
  • A Conclusão: O texto não está explicando a criação em si, mas sim usando a criação para mostrar até onde vai (ou não vai) a inteligência humana.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
Cuidado para não marcar a alternativa (A) essência da ética cristã. O texto fala de Deus, sim, mas não está discutindo comportamento moral (o que é certo ou errado, pecado ou virtude). Está discutindo metafísica (o que é o tempo, o que é o ser). Não confunda Deus com Ética o tempo todo.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: O paradoxo apresentado mostra que a mente humana falha ao tentar entender o infinito.
  • Expectativa: Procuramos uma alternativa que fale sobre os limites, o alcance ou a abrangência do conhecimento/razão humana.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

A) essência da ética cristã.

  • Análise: Ética trata de valores morais e conduta. O texto trata de ontologia (natureza do ser) e cronologia (tempo). A discussão é sobre a estrutura da realidade e da mente, não sobre como ser um bom cristão.
  • Diagnóstico do Erro: Desvio Temático. O aluno vê “Deus/Agostinho” e associa automaticamente a “moral cristã”.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

B) natureza universal da tradição.

  • Análise: O texto é um debate intelectual crítico, questionando argumentos lógicos. Não é um apelo à tradição (“sempre foi assim”) nem uma discussão sobre costumes universais. É um exercício de lógica pura.
  • Diagnóstico do Erro: Termo Genérico. A alternativa usa palavras bonitas que não se conectam ao problema do tempo.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

C) certezas inabaláveis da experiência.

  • Análise: A experiência humana é justamente o que atrapalha aqui. Nossa experiência nos diz que tudo tem um “antes”. Agostinho está dizendo que, para entender Deus, precisamos abandonar essa certeza da experiência e pensar além dela.
  • Diagnóstico do Erro: Oposição ao Texto. O texto questiona a validade da nossa experiência temporal quando aplicada ao divino.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

D) abrangência da compreensão humana.

  • Análise: Perfeito. “Abrangência” significa “alcance” ou “limite”. O texto mostra que a questão da eternidade é um teste de limite para a mente humana. Nós temos dificuldade em entender (compreender) como algo pode agir sem mudar, ou criar sem ter um “antes”. O texto é um espelho das nossas limitações cognitivas.
  • Conclusão: 🟢 Alternativa correta.

E) interpretações da realidade circundante.

  • Análise: A “realidade circundante” é o mundo físico, material, ao nosso redor. A questão trata do que veio antes dessa realidade (a Criação) e da natureza de Deus (que não é circundante, é transcendente).
  • Diagnóstico do Erro: Imprecisão. O debate é metafísico (além da física), não sobre o ambiente físico imediato.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento:
Santo Agostinho nos ensina que perguntar “o que Deus fazia antes do tempo” é um erro lógico, pois revela não a natureza de Deus, mas os limites da abrangência da compreensão humana, que tenta aprisionar o Eterno na régua do relógio.

Resumo-flash (A Imagem Mental):
⏳ A Régua Curta: Tentar medir a Eternidade com a mente humana é como tentar medir a temperatura do Sol com uma régua de plástico: a ferramenta (nossa compreensão) derrete antes de entender.

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Conecte isso com a Física Moderna (Big Bang)!
Quando perguntam a Stephen Hawking ou a físicos modernos “O que existia antes do Big Bang?”, a resposta é muito parecida com a de Agostinho: “A pergunta não faz sentido”. Se o tempo-espaço surgiu no Big Bang, não existe “antes” matemático. Séculos depois, a Física encontrou a Teologia na fronteira do tempo.

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