Em algumas línguas de Moçambique não existe a palavra “pobre”. O indivíduo é pobre quando não
tem parentes. A pobreza é a solidão, a ruptura das relações familiares que, na sociedade rural, servem de
apoio à sobrevivência. Os consultores internacionais, especialistas em elaborar relatórios sobre a miséria,
talvez não tenham em conta o impacto dramático da destruição dos laços familiares e das relações de
entreajuda. Nações inteiras estão tornando-se “órfãs”, e a mendicidade parece ser a única via de uma
agonizante sobrevivência.
COUTO, M. E se Obama fosse africano? & outras intervenções.
Portugal: Caminho, 2009 (adaptado).
Em uma leitura que extrapola a esfera econômica, o autor associa o acirramento da pobreza à
A) afirmação das origens ancestrais.
B) fragilização das redes de sociabilidade.
C) padronização das políticas educacionais.
D) fragmentação das propriedades agrícolas.
E) globalização das tecnologias de comunicação.

✍ Resolução Em Texto
Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
- Sociologia (Redes de Sociabilidade e Capital Social).
- Antropologia Cultural (Conceito de Família e Comunidade).
- Interpretação de Texto Literário.
Tema/Objetivo Geral:
Compreender a redefinição cultural do conceito de pobreza, deslocando-o da esfera material (dinheiro) para a esfera relacional (laços humanos).
Nível da Questão:
Médio.
Por que? O texto é poético e metafórico. O aluno acostumado apenas com a definição econômica de pobreza (“PIB per capita”, “Renda”) pode ter dificuldade em traduzir “solidão” para o conceito sociológico de “fragilização das redes de sociabilidade”.
Gabarito:
Letra B.
A alternativa está correta pois traduz para a linguagem sociológica (“redes de sociabilidade”) exatamente o que Mia Couto descreve poeticamente: a pobreza é a falta de parentes, a falta de quem te ajude, a quebra dos laços de solidariedade.
🕵️♂️ Resolução Passo a Passo
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
- Decodificação do Objetivo: A questão pede que você interprete a visão do autor sobre o que causa o aumento da miséria (“acirramento da pobreza”). O autor diz que ser pobre não é não ter dinheiro; ser pobre é não ter ninguém.
- Simplificação Radical (A Analogia Central):
- Imagine um Trapezista no Circo.
- A Economia olha para a roupa dele ou para quanto ele ganha.
- A Visão de Mia Couto olha para a Rede de Proteção embaixo dele.
- Se o trapezista cair, o que importa? Se ele tem dinheiro no bolso ou se a rede (família/amigos) vai segurá-lo?
- Para o texto, a pobreza é quando essa rede rasga. O trapezista cai no chão (na miséria) não porque está sem moedas, mas porque está sem rede.
- Nosso Plano de Ataque:
- Identificar a definição de pobreza no texto (Solidão/Falta de parentes).
- Traduzir “família e parentes” para um conceito social mais amplo.
- Encontrar a alternativa que fala sobre a quebra ou fraqueza desses laços.
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para entender esse choque cultural, vamos usar a Tabela das Duas Pobrezas.
| Aspecto | Visão Ocidental / Consultores Internacionais | Visão Moçambicana / Mia Couto |
| Definição de Pobreza | Falta de bens materiais, dinheiro, renda. (Econômica). | Solidão, falta de parentes, isolamento. (Relacional). |
| Unidade Básica | O Indivíduo (consumidor/produtor). | O Clã / A Família (a rede de apoio). |
| Mecanismo de Sobrevivência | Mercado de trabalho, Salário. | Entreajuda, Laços Familiares, Solidariedade. |
| O Grande Drama | Queda do PIB, desemprego. | Destruição dos laços familiares (“Nações órfãs”). |
Conceito Chave: Em Sociologia, chamamos essa rede de Capital Social. É a riqueza que você tem na forma de amigos, família e conexões que podem te ajudar na hora do aperto. O texto diz que a perda desse capital é a verdadeira miséria.
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
- O Diagnóstico do Texto: “O indivíduo é pobre quando não tem parentes”.
- A Causa do Problema: O texto fala em “destruição dos laços familiares” e “ruptura das relações”.
- A Tradução: Em Sociologia, laços familiares, vizinhança e parentesco formam as redes de sociabilidade.
- A Conclusão: Se a pobreza aumenta quando esses laços se rompem, então o problema é a fragilização das redes de sociabilidade.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
Cuidado com a palavra “rural” no texto. Ela pode te levar a marcar a alternativa (D) sobre “propriedades agrícolas”. O texto cita a “sociedade rural” apenas como o cenário onde a família é importante, não dizendo que a causa da pobreza é o tamanho da terra. O foco é nas pessoas, não no chão.
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: O texto define pobreza como solidão. Solidão é o oposto de sociabilidade. Logo, o aumento da pobreza é a quebra da sociabilidade.
- Expectativa: Procuramos uma alternativa que fale sobre laços sociais, relações humanas, comunidade ou família.
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
A) afirmação das origens ancestrais.
- Análise: O texto fala sobre a destruição e ruptura das relações. “Afirmação” seria algo positivo, um resgate. Além disso, o problema não é esquecer o tataravô (ancestralidade distante), mas perder o apoio do irmão, do tio, do vizinho agora (relações atuais).
- Diagnóstico do Erro: Contradição. O texto fala de perda, a alternativa fala de afirmação.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
B) fragilização das redes de sociabilidade.
- Análise: Perfeito. É a tradução técnica e precisa da metáfora literária.
- Ruptura das relações familiares = Fragilização.
- Apoio à sobrevivência/Entreajuda = Redes de sociabilidade.
- Quando essa rede fica frágil, a “pobreza” (solidão) se instala.
- Conclusão: 🟢 Alternativa correta.
C) padronização das políticas educacionais.
- Análise: O texto critica os “consultores internacionais” e seus relatórios sobre a miséria, mas o foco da crítica é a visão econômica limitada deles, não o sistema escolar ou pedagógico. Não há menção a escolas ou ensino.
- Diagnóstico do Erro: Extrapolação / Fuga ao Tema. Insere um tema (educação) que não está no texto.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
D) fragmentação das propriedades agrícolas.
- Análise: O texto menciona “sociedade rural”, o que atrai o olhar para a agricultura. Porém, o autor não diz que a pobreza vem da divisão da terra (minifúndios), mas sim da divisão das famílias. A terra pode até estar lá, mas sem a “entreajuda” (mão de obra familiar/comunitária), a sobrevivência é impossível.
- Diagnóstico do Erro: Reducionismo Materialista. Foca no bem material (terra) quando o texto foca no bem imaterial (relações).
- Conclusão: 🟡 PARCIALMENTE CORRETA / DISTRATOR FORTE. (Parece fazer sentido no contexto rural, mas erra a causa apontada pelo autor).
E) globalização das tecnologias de comunicação.
- Análise: Embora a globalização muitas vezes afete culturas locais, o texto não fala de internet, celulares ou TV. Ele fala de uma crise humana de solidão e abandono (“nações órfãs”).
- Diagnóstico do Erro: Anacronismo/Extrapolação. Traz um tema moderno que não é abordado no fragmento.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento:
Para Mia Couto, a verdadeira riqueza de uma nação não está no seu PIB, mas na solidez de suas redes de sociabilidade; portanto, a miséria absoluta é a orfandade social, a solidão de quem não tem com quem contar.
Resumo-flash (A Imagem Mental):
🕸️ A Teia da Vida: A sociedade é uma teia de aranha. Se você corta os fios (relações), a aranha (indivíduo) cai. Pobreza é teia rasgada.
🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Conecte isso com a Filosofia Ubuntu!
A visão de Mia Couto ecoa a filosofia africana Ubuntu: “Eu sou porque nós somos”. Se o “nós” (a rede de sociabilidade) desaparece, o “eu” deixa de existir ou entra em colapso. Isso explica por que a solidão é vista como morte ou pobreza extrema nessas culturas.