Questão 80, caderno azul do ENEM 2018

Em algumas línguas de Moçambique não existe a palavra “pobre”. O indivíduo é pobre quando não
tem parentes. A pobreza é a solidão, a ruptura das relações familiares que, na sociedade rural, servem de
apoio à sobrevivência. Os consultores internacionais, especialistas em elaborar relatórios sobre a miséria,
talvez não tenham em conta o impacto dramático da destruição dos laços familiares e das relações de
entreajuda. Nações inteiras estão tornando-se “órfãs”, e a mendicidade parece ser a única via de uma
agonizante sobrevivência.

COUTO, M. E se Obama fosse africano? & outras intervenções.
Portugal: Caminho, 2009 (adaptado).

Em uma leitura que extrapola a esfera econômica, o autor associa o acirramento da pobreza à

A) afirmação das origens ancestrais.
B) fragilização das redes de sociabilidade.
C) padronização das políticas educacionais.
D) fragmentação das propriedades agrícolas.
E) globalização das tecnologias de comunicação.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão:

  • Sociologia (Redes de Sociabilidade e Capital Social).
  • Antropologia Cultural (Conceito de Família e Comunidade).
  • Interpretação de Texto Literário.

Tema/Objetivo Geral:
Compreender a redefinição cultural do conceito de pobreza, deslocando-o da esfera material (dinheiro) para a esfera relacional (laços humanos).

Nível da Questão:
Médio.
Por que? O texto é poético e metafórico. O aluno acostumado apenas com a definição econômica de pobreza (“PIB per capita”, “Renda”) pode ter dificuldade em traduzir “solidão” para o conceito sociológico de “fragilização das redes de sociabilidade”.

Gabarito:
Letra B.
A alternativa está correta pois traduz para a linguagem sociológica (“redes de sociabilidade”) exatamente o que Mia Couto descreve poeticamente: a pobreza é a falta de parentes, a falta de quem te ajude, a quebra dos laços de solidariedade.


🕵️‍♂️ Resolução Passo a Passo

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

  • Decodificação do Objetivo: A questão pede que você interprete a visão do autor sobre o que causa o aumento da miséria (“acirramento da pobreza”). O autor diz que ser pobre não é não ter dinheiro; ser pobre é não ter ninguém.
  • Simplificação Radical (A Analogia Central):
    • Imagine um Trapezista no Circo.
    • A Economia olha para a roupa dele ou para quanto ele ganha.
    • A Visão de Mia Couto olha para a Rede de Proteção embaixo dele.
    • Se o trapezista cair, o que importa? Se ele tem dinheiro no bolso ou se a rede (família/amigos) vai segurá-lo?
    • Para o texto, a pobreza é quando essa rede rasga. O trapezista cai no chão (na miséria) não porque está sem moedas, mas porque está sem rede.
  • Nosso Plano de Ataque:
    1. Identificar a definição de pobreza no texto (Solidão/Falta de parentes).
    2. Traduzir “família e parentes” para um conceito social mais amplo.
    3. Encontrar a alternativa que fala sobre a quebra ou fraqueza desses laços.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para entender esse choque cultural, vamos usar a Tabela das Duas Pobrezas.

Aspecto Visão Ocidental / Consultores Internacionais Visão Moçambicana / Mia Couto
Definição de Pobreza Falta de bens materiais, dinheiro, renda. (Econômica). Solidão, falta de parentes, isolamento. (Relacional).
Unidade Básica O Indivíduo (consumidor/produtor). O Clã / A Família (a rede de apoio).
Mecanismo de Sobrevivência Mercado de trabalho, Salário. Entreajuda, Laços Familiares, Solidariedade.
O Grande Drama Queda do PIB, desemprego. Destruição dos laços familiares (“Nações órfãs”).

Conceito Chave: Em Sociologia, chamamos essa rede de Capital Social. É a riqueza que você tem na forma de amigos, família e conexões que podem te ajudar na hora do aperto. O texto diz que a perda desse capital é a verdadeira miséria.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

  • O Diagnóstico do Texto: “O indivíduo é pobre quando não tem parentes”.
  • A Causa do Problema: O texto fala em “destruição dos laços familiares” e “ruptura das relações”.
  • A Tradução: Em Sociologia, laços familiares, vizinhança e parentesco formam as redes de sociabilidade.
  • A Conclusão: Se a pobreza aumenta quando esses laços se rompem, então o problema é a fragilização das redes de sociabilidade.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
Cuidado com a palavra “rural” no texto. Ela pode te levar a marcar a alternativa (D) sobre “propriedades agrícolas”. O texto cita a “sociedade rural” apenas como o cenário onde a família é importante, não dizendo que a causa da pobreza é o tamanho da terra. O foco é nas pessoas, não no chão.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: O texto define pobreza como solidão. Solidão é o oposto de sociabilidade. Logo, o aumento da pobreza é a quebra da sociabilidade.
  • Expectativa: Procuramos uma alternativa que fale sobre laços sociais, relações humanas, comunidade ou família.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

A) afirmação das origens ancestrais.

  • Análise: O texto fala sobre a destruição e ruptura das relações. “Afirmação” seria algo positivo, um resgate. Além disso, o problema não é esquecer o tataravô (ancestralidade distante), mas perder o apoio do irmão, do tio, do vizinho agora (relações atuais).
  • Diagnóstico do Erro: Contradição. O texto fala de perda, a alternativa fala de afirmação.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

B) fragilização das redes de sociabilidade.

  • Análise: Perfeito. É a tradução técnica e precisa da metáfora literária.
    • Ruptura das relações familiares = Fragilização.
    • Apoio à sobrevivência/Entreajuda = Redes de sociabilidade.
    • Quando essa rede fica frágil, a “pobreza” (solidão) se instala.
  • Conclusão: 🟢 Alternativa correta.

C) padronização das políticas educacionais.

  • Análise: O texto critica os “consultores internacionais” e seus relatórios sobre a miséria, mas o foco da crítica é a visão econômica limitada deles, não o sistema escolar ou pedagógico. Não há menção a escolas ou ensino.
  • Diagnóstico do Erro: Extrapolação / Fuga ao Tema. Insere um tema (educação) que não está no texto.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

D) fragmentação das propriedades agrícolas.

  • Análise: O texto menciona “sociedade rural”, o que atrai o olhar para a agricultura. Porém, o autor não diz que a pobreza vem da divisão da terra (minifúndios), mas sim da divisão das famílias. A terra pode até estar lá, mas sem a “entreajuda” (mão de obra familiar/comunitária), a sobrevivência é impossível.
  • Diagnóstico do Erro: Reducionismo Materialista. Foca no bem material (terra) quando o texto foca no bem imaterial (relações).
  • Conclusão: 🟡 PARCIALMENTE CORRETA / DISTRATOR FORTE. (Parece fazer sentido no contexto rural, mas erra a causa apontada pelo autor).

E) globalização das tecnologias de comunicação.

  • Análise: Embora a globalização muitas vezes afete culturas locais, o texto não fala de internet, celulares ou TV. Ele fala de uma crise humana de solidão e abandono (“nações órfãs”).
  • Diagnóstico do Erro: Anacronismo/Extrapolação. Traz um tema moderno que não é abordado no fragmento.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento:
Para Mia Couto, a verdadeira riqueza de uma nação não está no seu PIB, mas na solidez de suas redes de sociabilidade; portanto, a miséria absoluta é a orfandade social, a solidão de quem não tem com quem contar.

Resumo-flash (A Imagem Mental):
🕸️ A Teia da Vida: A sociedade é uma teia de aranha. Se você corta os fios (relações), a aranha (indivíduo) cai. Pobreza é teia rasgada.

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Conecte isso com a Filosofia Ubuntu!
A visão de Mia Couto ecoa a filosofia africana Ubuntu: “Eu sou porque nós somos”. Se o “nós” (a rede de sociabilidade) desaparece, o “eu” deixa de existir ou entra em colapso. Isso explica por que a solidão é vista como morte ou pobreza extrema nessas culturas.

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