Uma pesquisa realizada por Carolina Levis, especialista em ecologia do Instituto Nacional de
Pesquisas da Amazônia, e publicada na revista Science, demonstra que as espécies vegetais domesticadas pelas
civilizações pré-colombianas são as mais dominantes. “A domesticação de plantas na floresta começou há mais
de 8 000 anos. Primeiro eram selecionadas as plantas com características que poderiam ser úteis ao homem e
em um segundo momento era feita a propagação dessas espécies. Começaram a cultivá-las em pátios e jardins,
por meio de um processo quase intuitivo de seleção”.
OLIVEIRA, J. Indígenas foram os primeiros a alterar o ecossistema da Amazônia.
Disponível em: https://brasil.elpais.com. Acesso em: 11 dez. 2017 (adaptado).
O texto apresenta um novo olhar sobre a configuração da Floresta Amazônica por romper com a ideia de
A) primazia de saberes locais.
B) ausência de ação antrópica.
C) insuficiência de recursos naturais.
D) necessidade de manejo ambiental.
E) predominância de práticas agropecuárias.

✍ Resolução Em Texto
Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
- Ecologia (Biomas e Biodiversidade).
- História/Antropologia (Povos Pré-Colombianos).
- Geografia Ambiental (Ação Antrópica e Manejo Sustentável).
Tema/Objetivo Geral:
Desconstruir o mito da “Natureza Intocada” (o mito do “Bom Selvagem” passivo) e compreender que a Amazônia é, em grande parte, um patrimônio cultural construído pelo manejo humano milenar.
Nível da Questão:
Médio.
Por que? O aluno precisa quebrar um paradigma escolar antigo (de que índio apenas “coleta” e não “modifica” a natureza) e associar o termo técnico “ação antrópica” à intervenção indígena histórica.
Gabarito:
Letra B.
A alternativa está correta pois o estudo citado prova que houve interferência humana (plantio, seleção, manejo) na floresta, derrubando a tese antiga de que a Amazônia era um “vazio demográfico” ou um santuário ecológico virgem e livre da ação humana (ausência de ação antrópica).
🕵️♂️ Resolução Passo a Passo
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
- Decodificação do Objetivo: O texto traz uma novidade científica: a floresta que vemos hoje foi “plantada” ou “moldada” pelos indígenas há milhares de anos. A questão pergunta: Qual ideia antiga e errada essa nova descoberta joga no lixo?
- Simplificação Radical (A Analogia Central):
- Visão Antiga (O Mito): A Amazônia é um jardim selvagem que cresceu sozinho, sem jardineiro. O ser humano era apenas um visitante que não tocava em nada.
- Visão Nova (O Texto): A Amazônia é um pomar gigante. O “jardineiro” (indígena) selecionou as melhores frutas, adubou a terra e espalhou as sementes que queria.
- A questão quer saber: Qual era o mito do jardim sem jardineiro? (A ideia de que não houve mão humana ali).
- Nosso Plano de Ataque:
- Entender o conceito de “Ação Antrópica” (Ação do Homem).
- Identificar o que o texto afirma (que houve muita ação humana).
- Encontrar a alternativa que descreve o oposto do texto (a ideia que está sendo contestada).
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para entender essa mudança de paradigma científico, vamos usar a Tabela da Floresta Cultural.
| Paradigma | Visão Tradicional (Séc. XIX/XX) | Visão Científica Atual (Antropologia/Ecologia Histórica) |
| Conceito Chave | Floresta Virgem / Intocada. | Floresta Antropogênica / Cultural. |
| Papel do Indígena | Passivo. Apenas coletor e caçador, vivendo “em harmonia” sem deixar rastros. | Ativo (Engenheiro Ambiental). Domesticou plantas, criou solos férteis (Terra Preta) e selecionou espécies. |
| Biodiversidade | Resultado apenas da evolução natural e seleção natural. | Resultado da coevolução com a Ação Antrópica (Manejo humano). |
| O que o texto contesta? | A ideia de Ausência de Ação Antrópica. | A ideia de que a natureza é separada da cultura. |
Conceito Chave: Ação Antrópica não significa apenas destruição (poluição, desmatamento). Significa qualquer intervenção humana na natureza. Plantar uma castanheira para ter comida no futuro é uma ação antrópica positiva.
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
- O Texto: Fala sobre “domesticação”, “seleção intuitiva” e “alterar o ecossistema”.
- O Raciocínio Lógico: Se o texto diz que os indígenas alteraram o ecossistema há 8.000 anos, então é falso dizer que a Amazônia era intocada.
- A Dedução: O estudo está brigando contra a tese da “floresta virgem”. Em linguagem técnica, “floresta virgem” significa um lugar com ausência de ação antrópica.
- A Conclusão: O estudo contesta (vai contra) a ideia da ausência de ação humana. Logo, ele prova a presença dela.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
Muitos alunos associam “ação antrópica” apenas a coisas ruins (fábricas, carros, desmatamento). Por isso, ficam com medo de marcar que indígenas fizeram “ação antrópica”. Lembre-se: em Geografia e Ecologia, Anthropos = Homem. Construir uma oca ou plantar açaí é ação antrópica tanto quanto construir um prédio.
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: O texto afirma a presença humana modificadora. A questão pede o que o texto contesta. O texto contesta a ausência dessa presença.
- Expectativa: Procuramos uma alternativa que fale sobre a falta de interferência humana ou a intocabilidade da natureza.
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
A) primazia de saberes locais.
- Análise: O texto na verdade confirma e valoriza os saberes locais (o conhecimento indígena de selecionar plantas). Ele não contesta (nega) essa primazia. Se o texto mostrasse que os indígenas não sabiam o que estavam fazendo, aí sim.
- Diagnóstico do Erro: Interpretação Invertida. O texto valida os saberes locais, não os refuta.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
B) ausência de ação antrópica.
- Análise: Bingo. A visão clássica era de que a Amazônia pré-colombiana tinha “ausência de ação antrópica” (era virgem). O estudo mostra que houve domesticação e manejo. Logo, o estudo contesta a ideia de ausência.
- Conclusão: 🟢 Alternativa correta.
C) insuficiência de recursos naturais.
- Análise: O texto foca na modificação e seleção dos recursos (plantas), não na falta deles. A Amazônia é conhecida pela abundância, e o manejo indígena visava justamente aumentar essa abundância de espécies úteis (hiperdominância).
- Diagnóstico do Erro: Fuga ao Tema. O problema não era escassez, mas manejo.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
D) necessidade de manejo ambiental.
- Análise: O texto demonstra que houve manejo no passado. Ele não contesta a necessidade de manejo; pelo contrário, ele sugere que o manejo foi o que criou a floresta rica que temos hoje.
- Diagnóstico do Erro: Contradição. O texto apoia a ideia de manejo histórico.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
E) predominância de práticas agropecuárias.
- Análise: “Agropecuária” implica criação de gado e agricultura extensiva (modelos europeus/modernos). Os indígenas praticavam agrofloresta, horticultura e manejo, mas não “agropecuária” no sentido econômico moderno, muito menos isso era “predominante” a ponto de substituir a floresta.
- Diagnóstico do Erro: Anacronismo e Incoerência Terminológica. Termo inadequado para descrever o manejo indígena pré-colombiano.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento:
A Amazônia não é apenas um monumento natural, mas um monumento biocultural; o estudo confirma que a “natureza intocada” é um mito, pois a biodiversidade atual é herança direta da ação antrópica (manejo) dos povos ancestrais.
Resumo-flash (A Imagem Mental):
🌳 O Jardim Ancestral: A floresta não nasceu pronta; ela foi esculpida. Cada castanheira é um “monumento” plantado por um avô indígena de 8 mil anos atrás.
🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Conecte isso com a Terra Preta de Índio (TPI)!
Esses solos escuros e ultra férteis encontrados na Amazônia são a prova material do texto. Eles não são naturais; são restos de carvão, cerâmica e matéria orgânica acumulados por aldeias indígenas antigas. A Terra Preta é a “assinatura química” da ação antrópica que o texto descreve.