— Famigerado? […]
— Famigerado é “inóxio”, é “célebre”, “notório”, “notável”…
— Vosmecê mal não veja em minha grossaria no não entender. Mais me diga: é desaforado? É caçoável? É de arrenegar? Farsância? Nome de ofensa?
— Vilta nenhuma, nenhum doesto. São expressões neutras, de outros usos…
— Pois… e o que é que é, em fala de pobre, linguagem de em dia de semana?
— Famigerado? Bem. É: “importante”, que merece louvor, respeito…
ROSA, G. Famigerado. In: Primeiras estórias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.
Nesse texto, a associação de vocábulos da língua portuguesa a determinados dias da semana remete ao
a) local de origem dos interlocutores.
b) estado emocional dos interlocutores.
c) grau de coloquialidade da comunicação.
d) nível de intimidade entre os interlocutores.
e) conhecimento compartilhado na comunicação.

✍ Resolução Em Texto
Matérias Necessárias para a Solução da Questão
- Variação Linguística (Diafásica: Registros Formal vs. Informal).
- Interpretação de Texto Literário (Guimarães Rosa).
- Figuras de Linguagem (Metáfora).
Tema/Objetivo Geral:
Compreender a metalinguagem no texto literário, ou seja, quando o texto fala sobre o próprio ato de falar. Identificar a distinção entre a Norma Culta (erudita) e a Linguagem Coloquial (popular) através de metáforas.
Nível da Questão:
Médio.
Justificativa: Embora a resposta pareça intuitiva, o texto de Guimarães Rosa sempre exige uma “tradução” mental. O candidato precisa abstrair que “dia de semana” não é tempo, mas um modo de ser (simples, utilitário).
Gabarito:
Letra C – grau de coloquialidade da comunicação.
Resumo: O personagem pede que o interlocutor abandone os termos difíceis (“inóxio”, “célebre”) e use a linguagem do dia a dia, simples e direta (“fala de pobre”), ou seja, uma linguagem coloquial.
Resolução Passo a Passo
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
A Missão:
A questão foca numa expressão específica: “fala de pobre, linguagem de em dia de semana”. Precisamos descobrir o que essa metáfora significa no contexto da comunicação. O que os dias da semana (segunda a sexta) têm de diferente do domingo (historicamente, o dia de missa, de festa, de roupa bonita)?
A Analogia Central (O Guarda-Roupa):
Pense na linguagem como roupas.
- Existem palavras que são como um Terno de Gala (Smoking): usadas em cerimônias, difíceis de vestir, elegantes, mas desconfortáveis. (Ex: “Inóxio”).
- Existem palavras que são como Calça Jeans e Camiseta: usadas no “dia de semana”, para trabalhar, confortáveis, simples e que todo mundo tem. (Ex: “Importante”).
A questão quer saber qual característica da roupa (linguagem) o personagem escolheu.
Nosso Plano de Ataque:
- Identificar o conflito: O jagunço não entende as palavras difíceis.
- Analisar o pedido: Ele pede para “traduzir”.
- Decifrar a metáfora “dia de semana” = simplicidade/coloquialidade.
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para Guimarães Rosa, a língua é viva. Vamos usar uma Tabela de Tradução do diálogo para entender os níveis de fala:
| O Narrador (Doutor) Diz | O Jagunço Entende | Classificação Linguística |
| “Inóxio, célebre, notório” | “Não entendo, isso é grego!” | Registro Formal / Erudito (Linguagem de “Domingo”). |
| “Farsância? Ofensa?” | “Você está me xingando?” | Dúvida gerada pelo ruído na comunicação. |
| “Importante, que merece louvor” | “Ah, agora entendi!” | Registro Informal / Coloquial (Linguagem de “Dia de Semana”). |
A ferramenta aqui é a Adequação Linguística: saber mudar o registro (do chique para o simples) para ser entendido.
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Vamos analisar a cena. Um jagunço (homem rude, do sertão) pergunta o que é “famigerado” porque tem medo de que seja um xingamento.
O interlocutor responde com um dicionário ambulante: “Inóxio… célebre…”.
O jagunço fica frustrado. Ele diz:
“Vosmecê mal não veja em minha grossaria no não entender… o que é que é, em fala de pobre, linguagem de em dia de semana?”
Ele associa “fala de pobre” e “dia de semana”.
- “Dia de semana” é o dia útil, o dia do trabalho braçal, o dia da simplicidade. Ninguém vai capinar um lote de terno.
- Logo, a “linguagem de dia de semana” é a linguagem usual, prática, sem enfeites.
O narrador então “troca a roupa” da palavra e diz: “É importante”. Pronto. A comunicação aconteceu.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! Não pense que “dia de semana” se refere a “cansaço” ou “rotina chata”. Refere-se à ausência de formalidade. O oposto de “dia de semana” aqui é o “Domingo” (metaforicamente, o dia solene). O aluno pode achar que se refere à intimidade (já que somos informais com íntimos), mas o foco é na clareza das palavras (coloquialidade).
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: O personagem pede para baixar o nível de sofisticação do vocabulário.
- Expectativa: Devemos buscar a alternativa que fale sobre “simplicidade”, “informalidade” ou “coloquialidade”.
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
a) local de origem dos interlocutores.
- Diagnóstico do Erro: Confusão de Variação (Diatópica vs. Diafásica).
- Análise: Embora Guimarães Rosa use o falar sertanejo (regionalismo), a expressão “dia de semana” não indica de onde eles vêm (Minas Gerais, Bahia, etc.), mas sim como eles devem falar naquele momento (simples vs. complicado).
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
b) estado emocional dos interlocutores.
- Diagnóstico do Erro: Fuga ao tema.
- Análise: O jagunço está tenso? Sim. Mas “linguagem de dia de semana” não significa “falar com raiva” ou “falar com medo”. Significa falar de modo compreensível.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
c) grau de coloquialidade da comunicação.
- Análise: Perfeito. Coloquialidade é o uso da língua em situações informais, cotidianas (“dia de semana”). É a “fala de pobre” (no sentido de desprovida de luxo vocabular) que o personagem pediu para entender a definição.
- Conclusão: 🟢 Alternativa correta.
d) nível de intimidade entre os interlocutores.
- Análise: 🟡 PARCIALMENTE CORRETA / O DISTRATOR FORTE.
- Por que atrai: Geralmente, usamos linguagem coloquial com quem temos intimidade.
- Por que falha: No texto, eles não têm necessariamente intimidade (o jagunço trata o doutor com respeito e distância, chamando de “Vosmecê”). O pedido pela linguagem simples não é para serem “amigos íntimos”, é uma necessidade técnica para haver compreensão. Ele quer entender o conceito, independentemente da amizade.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta (mas perigosa).
e) conhecimento compartilhado na comunicação.
- Análise: 🟡 DISTRATOR CONCEITUAL.
- Por que atrai: A falta de conhecimento compartilhado causou o problema.
- Por que falha: A pergunta é sobre o que a expressão “dia de semana” remete. Ela remete ao tipo de linguagem (o veículo) necessária para resolver a falta de conhecimento, e não ao conhecimento em si.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
A metáfora “linguagem de dia de semana” é uma aula brilhante de sociolinguística dada por um jagunço: a língua serve para comunicar, e se a “roupa de domingo” (norma culta rebuscada) atrapalha, devemos vestir o “jeans” (coloquialidade).
Resumo-flash: ⚡
“Roupa de domingo é para missa (Formal), roupa de segunda é para o serviço (Coloquial).”
🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Isso se conecta ao conceito de Preconceito Linguístico (marcos Bagno). Quando o personagem diz “fala de pobre”, ele internaliza que a linguagem simples vale “menos”, enquanto a linguagem difícil (“inóxio”) é de “rico/doutor”. O texto ironiza isso, pois a linguagem difícil foi inútil, enquanto a “fala de pobre” foi a que resolveu o problema.