Questão 31, caderno azul ENEM 2018

A história do futebol é uma triste viagem do prazer ao dever. […] O jogo se transformou em espetáculo, com poucos protagonistas e muitos espectadores, futebol para olhar, e o espetáculo se transformou num dos negócios mais lucrativos do mundo, que não é organizado para ser jogado, mas para impedir que se jogue. A tecnocracia do esporte profissional foi impondo um futebol de pura velocidade e muita força, que renuncia à alegria, atrofia a fantasia e proíbe a ousadia. Por sorte ainda aparece nos campos, […] algum atrevido que sai do roteiro e comete o disparate de driblar o time adversário inteirinho, além do juiz e do público das arquibancadas, pelo puro prazer do corpo que se lança na proibida aventura da liberdade.

GALEANO, E. Futebol ao sol e e sombra. Porto Alogro L8Phl Pockels. 1995 (adaptado)

O texto indica que as mudanças nas práticas corporais, especificamente no futebol,

A) fomentaram uma tecnocracia, promovendo uma vivência mais lúdica e irreverente.
B) promoveram o surgimento de atletas mais habilidosos, para que fossem inovadores. 
C) incentivaram a associação dessa manifestação à fruição, favorecendo o improviso.
D) tornaram a modalidade em um produto a ser consumido, negando sua dimensão criativa.
E) contribuíram para esse esporte ter mais jogadores, bem como acompanhado de torcedores.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • Interpretação de Texto (Crônica Esportiva/Sociológica).
  • Sociologia do Esporte (Mercantilização e Espetacularização).
  • Linguagens e Códigos (Léxico crítico).

Tema/Objetivo Geral:
Analisar a crítica de Eduardo Galeano sobre a evolução do futebol de uma “arte lúdica” para um “produto industrial”. O objetivo é identificar a consequência negativa dessa transformação apontada pelo autor.

Nível da Questão:
Médio.
Justificativa: O texto de Galeano é literário e metafórico. O aluno precisa “traduzir” as metáforas (“triste viagem”, “atrofia a fantasia”) para conceitos sociológicos concretos (“mercantilização”, “perda de criatividade”). As alternativas A, B e C são distratores que invertem o sentido do texto, exigindo atenção.

Gabarito:
Letra D – tornaram a modalidade em um produto a ser consumido, negando sua dimensão criativa.
Resumo: O autor afirma que o futebol virou “espetáculo” e “negócio lucrativo” (produto), onde a tecnocracia “renuncia à alegria” e “atrofia a fantasia” (nega a criatividade), sobrando apenas força e velocidade.


Resolução Passo a Passo

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

A Missão:
A questão pergunta sobre as “mudanças nas práticas corporais” (ou seja, no jeito de jogar futebol) segundo o texto. O que aconteceu com o futebol ao longo do tempo? Ele melhorou ou piorou? Ficou mais livre ou mais preso?

A Analogia Central (A Fábrica de Robôs):
Imagine que o futebol era uma dança de rua, livre e alegre. O texto diz que ele virou uma fábrica. Os jogadores agora são operários (robôs) que seguem ordens estritas de velocidade e força, proibidos de dançar. O “atrevido” que dribla é o único humano que sobrou no meio dos robôs.
A questão quer a descrição dessa transformação de “dança” para “fábrica”.

Nosso Plano de Ataque:

  1. Identificar os adjetivos usados para descrever o futebol moderno (“negócio”, “tecnocracia”, “velocidade”).
  2. Identificar o que foi perdido (“alegria”, “fantasia”, “ousadia”).
  3. Encontrar a alternativa que resume essa troca: Lucro em troca da Arte.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Vamos usar o Tradutor de Crítica Social para decodificar Galeano:

Termo do Texto Significado Real
“Triste viagem do prazer ao dever” O jogo deixou de ser diversão (lúdico) e virou obrigação profissional.
“Negócio mais lucrativo” Mercantilização (virou produto de consumo).
“Tecnocracia” Gestão focada apenas na eficiência técnica/estatística.
“Renuncia à alegria, atrofia a fantasia” Perda da dimensão criativa e artística.

Ferramenta Conceitual: Espetacularização.
Galeano critica o fato de o esporte ter virado um show para ser olhado (consumido passivamente) e não jogado (vivido ativamente).


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos dissecar o texto.
Ele começa dizendo que a história é uma “triste viagem”. Logo, a mudança foi negativa.
Ele diz que o jogo virou “espetáculo” e “negócio”. Isso significa que ele virou um produto.
Ele diz que a tecnocracia impõe “velocidade e força” e “proíbe a ousadia”. Isso significa que a criatividade foi eliminada.

Portanto, a equação do texto é:
Futebol Moderno = Produto Comercial – Criatividade.

O único momento positivo do texto é quando ele fala do “atrevido” que “sai do roteiro”. Mas note: ele diz “por sorte ainda aparece”. Ou seja, o atrevido é a exceção, não a regra. A regra é a proibição da liberdade.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO com a inversão de sentido!
Muitos alunos leem “fomentaram uma tecnocracia” na alternativa A e pensam “Ah, o texto fala de tecnocracia, deve ser essa”. NÃO! Leia o resto da frase. A alternativa A diz que a tecnocracia promoveu o “lúdico”. O texto diz o oposto: que ela “renuncia à alegria”. A armadilha é usar palavras do texto para afirmar o contrário do texto.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: O futebol virou um produto de mercado que sufoca a arte e o drible em favor da eficiência física e do lucro.
  • Expectativa: Devemos buscar alternativas negativas, que falem de “perda”, “negação” ou “produto”.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

a) fomentaram uma tecnocracia, promovendo uma vivência mais lúdica e irreverente.

  • Diagnóstico do Erro: Contradição Interna.
  • Análise: O texto diz que a tecnocracia renuncia à alegria e proíbe a ousadia. Logo, ela mata o lúdico e a irreverência, não os promove.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

b) promoveram o surgimento de atletas mais habilidosos, para que fossem inovadores.

  • Diagnóstico do Erro: Falsidade Ideológica.
  • Análise: O texto diz que o sistema impõe “velocidade e força” e “atrofia a fantasia”. Isso cria atletas menos inovadores (robôs), não mais habilidosos. O inovador é o “atrevido” que surge apesar do sistema, não por causa dele.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

c) incentivaram a associação dessa manifestação à fruição, favorecendo o improviso.

  • Diagnóstico do Erro: Contradição Direta.
  • Análise: “Fruição” significa prazer desinteressado. O texto diz que o futebol foi “do prazer ao dever”. O sistema proíbe o improviso (“sai do roteiro” é um disparate).
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

d) tornaram a modalidade em um produto a ser consumido, negando sua dimensão criativa.

  • Análise: Perfeito.
    • “Produto a ser consumido”: O texto fala em “espetáculo”, “negócio lucrativo”, “futebol para olhar”.
    • “Negando sua dimensão criativa”: O texto fala em “renuncia à alegria”, “atrofia a fantasia”, “proíbe a ousadia”.
    • Resume perfeitamente a tese de Galeano.
  • Conclusão: 🟢 Alternativa correta.

e) contribuíram para esse esporte ter mais jogadores, bem como acompanhado de torcedores.

  • Diagnóstico do Erro: Erro de Interpretação (Fuga ao Tema).
  • Análise: O texto diz “poucos protagonistas e muitos espectadores”. Isso sugere que o futebol se elitizou (menos gente joga, mais gente só olha), contradizendo a ideia de “ter mais jogadores”. Além disso, o foco da crítica é qualitativo (perda da arte), não quantitativo.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Para Galeano, o futebol moderno trocou a magia pela máquina. O drible virou um “erro no sistema” em vez de ser a alma do jogo.

Resumo-flash: ⚡
“Venderam o drible, compraram a força: o futebol virou escritório.”

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Conecte isso com a Indústria Cultural de Adorno e Horkheimer. Eles diziam que o capitalismo transforma a arte em mercadoria padronizada para consumo fácil. O futebol descrito por Galeano sofreu exatamente esse processo: foi padronizado (tecnocracia) para ser vendido como entretenimento de massa, perdendo sua “aura” original de liberdade.

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