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Questão 124, caderno azul do ENEM 2019 – DIA 2

Uma das técnicas de reciclagem química do polímero PET [poli(tereftalato de etileno)] gera o tereftalato de metila e o etanodiol, conforme o esquema de reação, e ocorre por meio de uma reação de transesterificação.

Questão 124 – ENEM 2019 -

O composto A, representado no esquema de reação, é o

A) metano.

B) metanol.

C) éter metílico.

D) ácido etanoico.

E) anidrido etanoico.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão:

  • Química Orgânica (Reações de Transesterificação e Funções Oxigenadas).
  • Química de Polímeros (Reciclagem e Degradação).

Tema/Objetivo Geral:

  • Análise de reações orgânicas aplicadas a processos industriais de reciclagem e identificação de reagentes nucleofílicos.

Nível da Questão: Médio.

  • A questão exige que o aluno faça um raciocínio reverso: analisar o produto (um éster metílico) para deduzir o reagente. Não basta saber o que é um éster, é preciso compreender o mecanismo de troca de grupos funcionais (transesterificação) para identificar que o grupo metila veio de um álcool específico.

Gabarito: B.

  • A reação de transesterificação consiste na quebra de um éster original (PET) pela ação de um álcool, formando um novo éster. Ao observar que o produto formado é o tereftalato de metila (possui o grupo (-OCH3​), conclui-se obrigatoriamente que o álcool reagente foi o metanol (CH3​OH).

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo:
A questão apresenta o processo químico de reciclagem do plástico PET e pede para identificarmos qual é o “ingrediente secreto” (Composto A) que deve ser misturado ao plástico derretido para quebrá-lo e transformá-lo nos produtos mostrados.

Simplificação Radical (A Analogia Central):
Imagine que o polímero PET é um trem de brinquedo onde os vagões estão conectados por ganchos vermelhos (a parte do etilenoglicol).
A reciclagem química aqui é um processo de troca: queremos soltar os vagões, mas para isso precisamos colocar ganchos azuis (metila) no lugar dos vermelhos.
O “Composto A” é a caixa de ganchos azuis. Na química, quem carrega esse gancho azul (CH3​) para atacar e substituir a conexão é um álcool específico. Precisamos descobrir o nome dele.

Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):

  • Analisar a estrutura química do produto final para identificar o “novo pedaço” que foi inserido na molécula.
  • Relembrar o mecanismo da Transesterificação (troca de álcoois em um éster).
  • Deduzir qual substância fornece o grupo metila (CH3​) observado no produto.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para resolver este enigma, precisamos dominar a anatomia da reação de Transesterificação. Vamos dissecá-la:

Ficha Técnica: Transesterificação (A Dança das Cadeiras dos Ésteres)

Componente Função Química Estrutura Genérica Papel na Reação
Reagente 1 Éster Original RCOOR O polímero que será quebrado (PET).
Reagente 2 Álcool Atacante R′′−OH O Mistério (A). Fornece o novo grupo (R′′).
Produto 1 Novo Éster RCOOR′′ O fragmento reciclado com o novo grupo.
Produto 2 Álcool Liberado R′−OH A parte antiga do éster que foi expulsa.

Visualização do Mecanismo:

Éster Velho(R′)+ Álcool Novo(R′′) → Éster Novo(R′′)+ Álcool Velho(R′)

Observe que o “sobrenome” do éster muda. Se o éster original era de etileno e o novo éster é de metila, significa que o álcool reagente doou um grupo metil.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos aplicar a teoria à imagem fornecida na questão:

1. Análise do Produto (A Pista Forense):
Olhe para o primeiro produto formado após a seta: o Tereftalato de metila.
Observe as extremidades da molécula: COOCH3​

.O grupo ligado ao oxigênio é um Metil (CH3​).

2. Análise do Reagente Oculto (A Dedução):
O PET original tinha uma cadeia de etileno (2 carbonos). O produto tem grupos metil (1 carbono).
De onde veio esse carbono extra ligado ao oxigênio? Veio do reagente 2n A.
A reação é uma Transesterificação. O nome já diz: trans (troca) + esterificação (formação de éster). Para formar um éster metílico, precisamos reagir o polímero com o álcool correspondente ao grupo metil.

3. O Veredito:
Qual é o álcool que possui apenas um carbono (grupo metil)?
É o Metanol (H3​COH).

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! Muitos alunos confundem Transesterificação com Hidrólise.

  • Se o reagente A fosse Água (H2​O), a reação seria uma hidrólise. O produto não seria um éster (tereftalato de metila), mas sim um Ácido Carboxílico (Ácido Tereftálico, com finais COOH).
  • Como o produto final termina em COOCH3​ (um éster, não um ácido), o reagente não pode ser água, nem ácido, tem que ser um álcool!

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: O processo converteu um poliéster em um diéster metílico. Isso exige um fornecedor de grupos metila que tenha uma hidroxila para atacar a carbonila.
  • Expectativa: Procuramos um álcool com 1 carbono. Nome: Metanol. Fórmula: CH3​OH.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Vamos analisar quimicamente cada alternativa para entender por que não funcionariam.

  • A) metano.
    • O Diagnóstico do Erro: Inércia Química.
    • Por que está incorreta: O metano (CH4​) é um alcano, uma parafina gasosa extremamente estável e pouco reativa. Ele não possui o grupo funcional Hidroxila (OH) necessário para atacar a carbonila do éster e realizar a troca. É como tentar cortar papel com uma colher de plástico.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • B) metanol.
    • Análise de Correspondência: Perfeita. O metanol (CH3​OH) possui o par de elétrons livres no oxigênio para atuar como nucleófilo, atacar o PET, romper a cadeia polimérica e deixar o grupo metila (-CH3​) no lugar, formando o Tereftalato de Dimetila.
    • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
  • C) éter metílico.
    • O Diagnóstico do Erro: Falta de Sítio Ativo.
    • Por que está incorreta: Éteres (CH3​−OCH3​) são compostos onde o oxigênio está “protegido” entre dois carbonos. Eles não têm o hidrogênio ácido necessário para a troca, nem a nucleofilicidade adequada para esse tipo de reação nessas condições. Éteres são frequentemente usados como solventes, não como reagentes de quebra de ésteres.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • D) ácido etanoico.
    • O Diagnóstico do Erro: Confusão de Mecanismo (Acidólise).
    • Por que está incorreta: Se usássemos ácido acético/etanoico, a reação seria uma Acidólise. O produto conteria grupos acetila ou formaria anidridos mistos/ácidos, mas não o éster metílico mostrado na imagem. Além disso, o ácido etanoico tem 2 carbonos, e o produto exige um grupo de 1 carbono (metil).
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • E) anidrido etanoico.
    • O Diagnóstico do Erro: Reação Errada (Acetilação).
    • Por que está incorreta: Anidridos são usados para formar ésteres a partir de álcoois (acetilação), e não para quebrar ésteres gerando outros ésteres metílicos simples. O uso de anidrido etanoico introduziria grupos de 2 carbonos na molécula, contradizendo o produto formado (metila).
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento:
Na reciclagem química do PET, o Metanol (B) atua como uma “tesoura molecular”: ele corta a longa cadeia do polímero e se liga às pontas cortadas, transformando o lixo plástico novamente em matéria-prima industrial pura (Tereftalato de Metila).

Resumo-flash (A Imagem Mental):
🔄 Transesterificação: Éster A + Álcool B → Éster B + Álcool A.
(Sai o Etilenoglicol, entra o Metanol).

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
A Química do Combustível: De Garrafas a Motores (Biodiesel)

Vamos conectar a reciclagem do PET com a Produção de Biodiesel. As duas indústrias, aparentemente opostas (Plásticos vs. Agroenergia), utilizam exatamente a mesma reação química: A Transesterificação.

Sobra um subproduto líquido e viscoso -> A Glicerina (Glicerol).

O Problema da Viscosidade: O óleo vegetal (soja, girassol) é um excelente combustível, mas é muito “grosso” (viscoso) porque suas moléculas são Triglicerídeos gigantes (três longas cadeias de ácidos graxos presas a uma molécula de glicerol). Se você colocar óleo direto no motor, ele entope os bicos injetores.

A Solução Química: Precisamos “quebrar” o óleo para torná-lo mais fino.

No PET: Quebramos o polímero usando Metanol. O subproduto é o Etanodiol (álcool).

No Biodiesel: Quebramos o Triglicerídeo (óleo) também usando Metanol (ou Etanol).

O Resultado Surpreendente:

O Metanol “corta” as cadeias de ácido graxo, separando-as do glicerol.

Formam-se Ésteres de Metila (moléculas menores e mais fluidas) -> Isso é o Biodiesel.

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