Questão 64, caderno azul do ENEM 2018

Outra importante manifestação das crenças e tradições africanas na Colônia eram os objetos
conhecidos como “bolsas de mandinga”. A insegurança tanto física como espiritual gerava uma necessidade
generalizada de proteção: das catástrofes da natureza, das doenças, da má sorte, da violência dos núcleos
urbanos, dos roubos, das brigas, dos malefícios de feiticeiros etc. Também para trazer sorte, dinheiro e até
atrair mulheres, o costume era corrente nas primeiras décadas do século XVIII, envolvendo não apenas
escravos, mas também homens brancos.

CALAINHO, D. B. Feitiços e feiticeiros. In: FIGUEIREDO, L. História do Brasil para ocupados.
Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2013 (adaptado).

A prática histórico-cultural de matriz africana descrita no texto representava um(a)

A) expressão do valor das festividades da população pobre.
B) ferramenta para submeter os cativos ao trabalho forçado.
C) estratégia de subversão do poder da monarquia portuguesa.
D) elemento de conversão dos escravos ao catolicismo romano.
E) instrumento para minimizar o sentimento de desamparo social.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • História do Brasil Colônia (Cotidiano e Mentalidades).
  • Cultura Afro-brasileira (Sincretismo e Resistência Cultural).
  • Sociedade Colonial (Hierarquia e Insegurança).

Tema/Objetivo Geral:
Compreender a função social e psicológica das práticas mágico-religiosas (como as bolsas de mandinga) em um contexto de extrema violência, precariedade e insegurança na sociedade colonial.

Nível da Questão:
Médio.
Justificativa: O aluno precisa ir além do estereótipo de “feitiçaria” e entender a função sociológica do objeto. Exige interpretação para ligar “necessidade de proteção” (texto) com “minimizar desamparo” (alternativa).

Gabarito:
Letra E – instrumento para minimizar o sentimento de desamparo social.
Resumo: O texto descreve um cenário de medo (doenças, violência, roubos). A “bolsa de mandinga” surge como uma tecnologia espiritual de defesa para quem se sentia desprotegido pelo Estado ou pela sorte.


Resolução Passo a Passo

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

A Missão:
O enunciado pergunta o que a prática das “bolsas de mandinga” representava no contexto descrito. Não queremos saber do que era feita a bolsa, mas sim para que ela servia na vida daquelas pessoas. Qual problema ela resolvia?

A Analogia Central (O Colete à Prova de Balas Espiritual):
Imagine que você vive em uma cidade sem polícia, sem hospital e cheia de perigos. Você se sente nu e vulnerável.
A “bolsa de mandinga” funcionava como um colete à prova de balas invisível. Ela dava ao portador a sensação de que, se uma faca fosse atirada, ela desviaria; se uma doença chegasse, ela não pegaria.
A questão quer o nome técnico para esse “alívio do medo”.

Nosso Plano de Ataque:

  1. Listar os perigos citados no texto (violência, doença, má sorte).
  2. Identificar o sentimento gerado por esses perigos (Insegurança/Desamparo).
  3. Concluir que a bolsa servia para combater esse sentimento.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Vamos usar o Dossiê da Insegurança Colonial para entender a sociedade da época:

  • O Ambiente: Cidades coloniais eram violentas, a medicina era precária (doenças matavam rápido), a escravidão era brutal e a justiça era falha.
  • O Sentimento: Desamparo. O indivíduo se sentia sozinho contra o mundo.
  • A Solução Mágica: As Bolsas de Mandinga. Eram patuás (saquinhos) contendo orações, ervas, pedras ou ossos, misturando tradições africanas (Mandingas eram povos islamizados da África) com catolicismo popular e crenças indígenas.

Conceito-Chave: Proteção Simbólica.
Quando a proteção real (física/estatal) não existe, o ser humano busca a proteção simbólica (mágica/religiosa) para conseguir suportar a realidade.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos rastrear o texto.

O autor começa citando a causa: “A insegurança tanto física como espiritual gerava uma necessidade generalizada de proteção“.
Note a lista de medos: catástrofes, doenças, violência, roubos.
Isso descreve uma sociedade onde ninguém está seguro.

O autor cita a solução: “bolsas de mandinga”.
E quem usava? “não apenas escravos, mas também homens brancos”.
Isso é crucial! Se até o homem branco (que estava no topo da pirâmide social) usava, significa que a insegurança era tão grande que atravessava classes sociais.

Se o problema é a “insegurança” e a “necessidade de proteção”, a bolsa serve para acalmar essa angústia. Ela serve para dar esperança e segurança psicológica.
Em termos sociológicos: ela serve para minimizar o sentimento de desamparo social.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO com a “Resistência Política” (Alternativa C)!
Muitos alunos pensam: “Ah, cultura africana é sempre resistência/subversão contra Portugal”.
Atenção: Embora manter a cultura africana seja uma forma de resistência cultural, o foco do texto não é uma revolta política para derrubar a monarquia. O foco do texto é a proteção individual contra o azar e a violência cotidiana. O usuário da bolsa queria sobreviver, não necessariamente fazer uma revolução naquele momento. Atenha-se à função descrita no texto (proteção).

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: Em um mundo perigoso e incerto, o objeto mágico funciona como um escudo psicológico para quem se sente desprotegido.
  • Expectativa: Devemos buscar alternativas que falem sobre “proteção”, “segurança”, “amparo” ou “alívio”.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

a) expressão do valor das festividades da população pobre.

  • Diagnóstico do Erro: Fuga ao Tema.
  • Análise: O texto não fala de festas, batuques, congadas ou carnaval. Fala de um objeto de uso pessoal (amuleto) usado para proteção no dia a dia, inclusive por brancos, não restrito a momentos festivos.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

b) ferramenta para submeter os cativos ao trabalho forçado.

  • Diagnóstico do Erro: Inversão de Sentido.
  • Análise: A bolsa de mandinga era usada pelos cativos (e brancos) para se protegerem, muitas vezes inclusive para “fechar o corpo” contra os castigos dos senhores. Não era uma ferramenta dos senhores para obrigá-los a trabalhar (como o chicote ou a corrente).
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

c) estratégia de subversão do poder da monarquia portuguesa.

  • Diagnóstico do Erro: Extrapolação Política.
  • Análise: Como explicado na armadilha, o objetivo descrito no texto é a proteção pessoal (contra doenças, roubos), e não um plano político organizado para derrubar o Rei ou a estrutura colonial. É uma resistência cultural, mas a alternativa fala em subversão do poder da monarquia, o que é exagerado para o contexto de um amuleto de sorte.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

d) elemento de conversão dos escravos ao catolicismo romano.

  • Diagnóstico do Erro: Contradição Histórica.
  • Análise: As bolsas de mandinga eram vistas pela Igreja Católica oficial como feitiçaria e superstição. A Inquisição perseguia quem usava. Portanto, não eram ferramentas de conversão da Igreja, mas sim práticas sincréticas combatidas por ela.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

e) instrumento para minimizar o sentimento de desamparo social.

  • Análise: Perfeito.
    • Desamparo social: Corresponde à “insegurança”, “violência”, “doenças” e falta de proteção citadas no texto.
    • Minimizar: A bolsa servia para trazer “proteção”, “sorte” e acalmar o medo.
    • O amuleto preenche o vazio deixado pela falta de segurança real.
  • Conclusão: 🟢 Alternativa correta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Quando o Estado falha em garantir a segurança e a medicina falha em garantir a saúde, o ser humano recorre ao sagrado para não enlouquecer de medo.

Resumo-flash: ⚡
“Quando a vida é dura e a lei é fraca, o patuá no peito é a única guarda.”

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Essa lógica continua viva. Pense nas pessoas que hoje usam fitinhas do Bonfim, cristais, ou adesivos de “Deus me proteja” no carro. A função psicológica é a mesma das bolsas de mandinga do século XVIII: criar uma camada de proteção espiritual em um mundo onde nos sentimos vulneráveis a acidentes e violência.

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