“Devo estar chegando perto do centro da Terra. Deixe ver: deve ter sido mais de seis mil quilômetros, por aí…” (como se vê, Alice tinha aprendido uma porção de coisas desse tipo na escola, e embora essa não fosse uma oportunidade lá muito boa de demonstrar conhecimentos, já que não havia ninguém por perto para escutá-la, em todo caso era bom praticar um pouco) “… sim, deve ser mais ou menos essa a distância… mas então qual seria a latitude ou longitude em que estou?” (Alice não tinha a menor ideia do que fosse latitude ou longitude, mas achou que eram palavras muito imponentes).
CARROLL, L. Aventuras de Alice: no País das Maravilhas, Através do espelho e outros textos.
São Paulo: Summus, 1980.
O texto descreve uma confusão da personagem em relação:
A) ao tipo de projeção cartográfica.
B) aos contornos dos fusos horários.
C) à localização do norte magnético.
D) aos referenciais de posição relativa.
E) às distorções das formas continentais.

✍ Resolução Em Texto
- Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
- Geografia Geral (Coordenadas Geográficas: Latitude e Longitude)
- Interpretação de Texto Literário
- Tema/Objetivo Geral: Analisar um trecho literário para identificar a confusão de uma personagem em relação ao uso e à aplicação de conceitos geográficos fundamentais (latitude e longitude).
- Nível da Questão: Fácil.
- A questão se resolve pela compreensão básica do que são latitude e longitude. Sabendo que essas coordenadas servem para localizar pontos na superfície da Terra, o erro de Alice ao tentar aplicá-las ao centro do planeta se torna evidente.
- Gabarito: D
- A alternativa está correta porque a confusão de Alice reside em seu desconhecimento sobre o funcionamento dos referenciais de posição (latitude e longitude). Ela os trata como medidas absolutas de espaço, quando, na verdade, são coordenadas que só fazem sentido para localizar pontos relativos à grade imaginária da superfície terrestre (Equador e Greenwich).
PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo: Em bom português, a missão é: “Alice está caindo num buraco e tenta usar palavras chiques da aula de geografia, como ‘latitude’ e ‘longitude’, para descrever sua posição. O texto nos diz que ela não faz a menor ideia do que essas palavras significam. A confusão dela é sobre qual conceito geográfico exatamente?”
Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine que alguém aprendeu as palavras “endereço” e “número do apartamento”, mas não entendeu como elas funcionam. Ao mergulhar no fundo de uma piscina, a pessoa se pergunta: “Qual será o endereço e o número do apartamento aqui no fundo?”. A confusão dela é óbvia: endereço e número de apartamento são referenciais de posição que só funcionam na superfície, para localizar casas em uma cidade, e não pontos dentro de uma piscina. Alice está cometendo o mesmo erro, mas com o planeta Terra em vez da piscina.
Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):
- Analisar a Ação de Alice: Onde Alice está e o que ela está tentando fazer?
- Identificar as Ferramentas Usadas: Quais são os conceitos geográficos que ela tenta aplicar?
- Diagnosticar o Erro: Por que a aplicação dessas ferramentas na situação dela está errada?
- Realizar a Autópsia: Vamos analisar cada alternativa para ver qual delas melhor descreve a natureza do erro de Alice.
PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para este caso, a melhor ferramenta é uma Tabela Comparativa: O Conhecimento de Alice vs. A Realidade Geográfica. Ela vai nos ajudar a diagnosticar o “crime conceitual” cometido pela personagem.
| Conceito Geográfico | A Interpretação de Alice (O “Crime”) | A Definição Correta (A “Lei”) |
| Distância ao Centro da Terra | Ela estima uma distância (“mais de seis mil quilômetros”) e acha que isso é relevante para a sua localização geográfica. | É uma medida de profundidade, usada em Geologia. Não tem relação com o sistema de coordenadas geográficas. |
| Latitude | Ela se pergunta qual seria sua latitude perto do centro da Terra. Ela acha que é uma palavra “imponente” para localização em qualquer lugar. | É um referencial de posição que mede a distância (em graus) de um ponto ao Norte ou ao Sul da Linha do Equador, na SUPERFÍCIE do planeta. |
| Longitude | Ela se pergunta qual seria sua longitude perto do centro da Terra. Também a vê como uma palavra “imponente” para qualquer tipo de localização. | É um referencial de posição que mede a distância (em graus) de um ponto a Leste ou a Oeste do Meridiano de Greenwich, na SUPERFÍCIE do planeta. |
Conclusão Forense: A tabela mostra que a confusão de Alice não é sobre um detalhe, mas sobre a natureza fundamental dos conceitos. Ela trata “latitude” e “longitude” como se fossem medidas de espaço tridimensional, aplicáveis em qualquer lugar, quando, na verdade, eles são um sistema de referenciais de posição projetado exclusivamente para a superfície bidimensional do globo.
PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Nossa tabela já diagnosticou o erro. O texto mostra a confusão de Alice de forma explícita:
- Primeiro, ela tenta aplicar um conhecimento escolar (“deve ter sido mais de seis mil quilômetros”), mostrando que ela tem informações, mas não sabe como usá-las.
- Depois, ela joga as palavras “latitude” e “longitude”, mas o narrador nos conta o segredo: “Alice não tinha a menor ideia do que fosse latitude ou longitude, mas achou que eram palavras muito imponentes”.
A confusão dela não é sobre um detalhe, mas sobre a natureza fundamental do sistema de coordenadas geográficas. Ela não entende o que são e para que servem os referenciais de posição.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha aqui é se distrair com outros conceitos geográficos listados nas alternativas, como “projeção cartográfica” (A) ou “fusos horários” (B). Embora sejam todos termos de geografia, o texto é muito específico ao mencionar apenas “latitude” e “longitude”. O erro é não se ater às pistas exatas fornecidas no depoimento de Alice.
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: A investigação mostra que Alice usa de forma incorreta os conceitos de latitude e longitude, que são as ferramentas para definir a posição na superfície da Terra.
- Expectativa: A alternativa correta deve se referir a esses conceitos como referenciais de posição.
PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
Vamos agora interrogar cada um dos suspeitos.
- A) ao tipo de projeção cartográfica.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato associa “geografia” com “mapas”.
- O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. Projeções cartográficas (como Mercator ou Peters) são métodos para desenhar o mapa-múndi em uma superfície plana. O texto não fala sobre mapas.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- B) aos contornos dos fusos horários.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato associa “longitude” com “fuso horário”.
- O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. Embora a longitude seja a base para os fusos horários, o conceito de fuso horário em si (a divisão do tempo) não é mencionado nem relevant no questionamento de Alice.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- C) à localização do norte magnético.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato pensa em outra forma de orientação na Terra.
- O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. O norte magnético se refere à orientação por bússola, baseada no campo magnético da Terra. O texto não faz nenhuma alusão a isso.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- D) aos referenciais de posição relativa.
- Análise de Correspondência: Esta alternativa é o retrato falado da nossa Bússola. “Referenciais de posição” é o termo técnico que engloba a latitude e a longitude. A confusão de Alice é exatamente sobre como usar esses referenciais.
- Conclusão: 🟢 Alternativa correta.
- E) às distorções das formas continentais.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato volta a pensar em mapas.
- O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. Assim como a alternativa A, isso se refere a um problema de cartografia (mapas), e não ao sistema de coordenadas em si.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa D é a correta. Este caso ilustra, com o humor de Lewis Carroll, um fenômeno comum na aprendizagem: a capacidade de memorizar termos técnicos sem, de fato, compreender seu significado ou contexto de aplicação.
Resumo-flash (A Imagem Mental): Alice decorou o nome das ferramentas, mas tentou usar um GPS para navegar dentro de um submarino.
Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo princípio de usar referenciais de posição relativa para definir uma localização é fundamental na Química, para descrever a posição de substituintes em moléculas. Em um anel benzênico, por exemplo, não basta dizer que há um “cloro”. É preciso dizer onde ele está em relação a outro grupo. Para isso, usamos os referenciais orto, meta e para. Essas palavras, assim como “latitude e longitude”, não têm um significado absoluto; elas são referenciais de posição relativa que só fazem sentido dentro da “grade” da molécula. A lógica para localizar um átomo em uma molécula é a mesma para localizar uma cidade em um planeta.