Leandro Aparecido Ferreira, o MC Fioti, compôs em 2017 a música Bum bum tam tam, que gerou, em nove meses, 480 milhões de visualizações no Youtube. É o funk brasileiro mais ouvido na história do site.
A partir de uma gravação da flauta que achou na internet, MC Fioti fez tudo sozinho: compôs, cantou e produziu em uma noite só, “Comecei a pesquisar alguns tipos de flauta, coisas antigas. E nisso eu achei a “flautinha do Sebantian Bach”, conta. A descoberta foi por acaso: Fioti não sabia quem era o música alemão e não sabe tocar o instrumento.
A “flauta envolvente” da música é um trecho da Partida em lá menor, escrita pelo alemão Johann Sebastian Bach por volta de 1723.
Disponível em: https//g1.globo.com. Acesso em: 8 jun. 2018. [adaptado]
A incorporação de um trecho da obra para flauta solo de Johann Sebastian Bach na música de MC Fioti demonstra a
A) influência permanente da cultura eurocêntrica nas produções musicais brasileiras.
B) homenagem aos referenciais estéticos que deram origem às produções da música popular.
C) necessidade de divulgar a música de concerto nos meios populares nas periferias das grandes cidades.
D) utilização desintencional de uma música excessivamente distante da realidade cultural dos jovens brasileiros.
E) inter-relação de elementos culturais vindos de realidades distintas na construção de uma nova proposta musical

✍ Resolução Em Texto
- Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
- Interpretação de Texto
- Estudos Culturais (Hibridismo Cultural, Intertextualidade)
- História da Música (Música Erudita vs. Funk)
- Tema/Objetivo Geral: Analisar um fenômeno da música popular para compreender o conceito de hibridismo cultural, que consiste na fusão de elementos de universos culturais distintos para criar uma nova expressão artística.
- Nível da Questão: Médio.
- A questão exige que o candidato vá além da superfície da história (“foi por acaso”) para entender o significado cultural do resultado final. As alternativas A, B e C são distratoras que atribuem uma intencionalidade (homenagem, divulgação, submissão) que o texto nega, enquanto a alternativa D interpreta o resultado de forma equivocada.
- Gabarito: E
- A alternativa está correta porque a música de MC Fioti une dois universos culturais completamente diferentes — a música de concerto barroca alemã (Bach) e o funk da periferia de São Paulo. Essa mistura ou “inter-relação de elementos culturais vindos de realidades distintas” é o que define a “nova proposta musical” e explica seu caráter inovador.
PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo: Em bom português, a missão é: “Um MC de funk pegou um trecho de uma música clássica de 300 anos atrás, sem nem saber direito o que era, e misturou com a batida do funk, criando um sucesso mundial. O que esse ato de ‘misturar tudo’ demonstra sobre a criação musical?”
Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine um chef de uma comunidade isolada na Amazônia que, por acaso, encontra uma garrafa de azeite de oliva extra virgem da Toscana. Ele nunca ouviu falar da Itália, mas experimenta o azeite e decide usá-lo para refogar um peixe local com tucupi. O resultado é um prato novo e delicioso. O que esse prato demonstra? Ele não é uma “homenagem” à culinária italiana, nem uma tentativa de “divulgar” o azeite. É a inter-relação de elementos de realidades distintas (Amazônia + Toscana) para criar algo novo. A música do MC Fioti é esse prato.
Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):
- Identificar os “Ingredientes”: Quais são os dois mundos musicais que foram misturados?
- Analisar a Intenção do “Chef”: A mistura foi intencional e reverente, ou casual e funcional?
- Descrever o “Prato Final”: O que essa mistura produziu?
- Realizar a Autópsia: Vamos analisar cada alternativa para ver qual delas melhor descreve essa fusão.
PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para este caso, a melhor ferramenta é uma Tabela de Análise de Mundos Culturais. Ela vai nos ajudar a visualizar o contraste e a fusão entre os dois universos.
| Análise da Fusão | Elemento 1: A “Flautinha” | Elemento 2: O Funk |
| Origem | Alemanha, 1723. Obra de J. S. Bach. | Brasil (Periferias), século XXI. Obra de MC Fioti. |
| Realidade Cultural | Música de concerto, erudita, instrumental, barroca. Associada a teatros, orquestras e a um público de elite. | Música popular, de festa, com batida eletrônica e vocal. Associada a bailes, à juventude e à cultura periférica. |
| Intenção da Mistura (Segundo o Texto) | “Descoberta por acaso“. Fioti “não sabia quem era o músico alemão”. | O objetivo era encontrar um som (“flauta”) que funcionasse na batida do funk. A apropriação foi funcional, não reverencial. |
| O Resultado (A Nova Proposta) | Um mega hit global. A melodia barroca é ressignificada, tornando-se o gancho de uma música dançante. | Uma fusão que quebra as barreiras entre o erudito e o popular, o antigo e o novo, o global e o local. |
Conclusão Forense: A tabela mostra que o fenômeno não é de subordinação (o funk se curvando a Bach) nem de homenagem. É um ato de apropriação criativa que gera uma inter-relação entre dois mundos que, em tese, jamais se encontrariam, resultando em algo completamente novo.
PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Nossa tabela já revelou a natureza do fenômeno. A chave está na casualidade da descoberta, que descarta as intenções mais “nobres”.
- O texto diz que Fioti “não sabia quem era o músico alemão”. Isso elimina qualquer possibilidade de ser uma homenagem consciente (B) ou um projeto de divulgação da música clássica (C).
- A busca era por “alguns tipos de flauta, coisas antigas”, mostrando uma exploração livre, sem preconceitos de “alta” ou “baixa” cultura.
- O resultado é um fenômeno de hibridismo cultural: a melodia de Bach não “eleva” o funk, nem o funk “rebaixa” Bach. Os dois se fundem para criar uma terceira coisa, uma “nova proposta musical”.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais sedutora é a alternativa (A), “influência permanente da cultura eurocêntrica”. O candidato pode pensar que o uso de Bach prova que a cultura europeia ainda domina. O erro é não perceber que, no texto, a relação não é de domínio, mas de apropriação e subversão. O funk não está imitando a música barroca; ele está “sampleando”, recortando e colando um pedaço dela em seu próprio universo, com suas próprias regras. O protagonista é o funk, não Bach.
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: A investigação mostra a fusão de dois elementos de origens culturais e sociais radicalmente diferentes, não por reverência ou submissão, mas como um ato de criação que gera um produto novo e híbrido.
- Expectativa: A alternativa correta deve descrever essa mistura, essa inter-relação entre realidades distintas.
PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
Vamos agora interrogar cada um dos suspeitos.
- A) influência permanente da cultura eurocêntrica nas produções musicais brasileiras.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato cai na “Armadilha Clássica”, interpretando o uso de Bach como um sinal de dominação cultural.
- O “Diagnóstico do Erro”: Foco Incorreto. O texto descreve uma apropriação pontual e criativa, não uma “influência permanente” ou uma submissão. O funk está no controle, usando Bach como matéria-prima.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- B) homenagem aos referenciais estéticos que deram origem às produções da música popular.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato atribui uma intenção nobre e consciente ao artista.
- O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. O texto é explícito ao dizer que Fioti “não sabia quem era o músico alemão”, o que invalida a ideia de uma “homenagem”.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- C) necessidade de divulgar a música de concerto nos meios populares nas periferias das grandes cidades.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato atribui uma intenção pedagógica ao artista.
- O “Diagnóstico do Erro”: Falsa Premissa. O texto não sugere nenhuma intenção de “divulgar” ou “educar”. A busca foi por um som que funcionasse na música, um objetivo puramente estético e funcional dentro do universo do funk.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- D) utilização desintencional de uma música excessivamente distante da realidade cultural dos jovens brasileiros.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato foca no “desintencional” e “distante”, mas erra a conclusão.
- O “Diagnóstico do Erro”: Interpretação Invertida. O sucesso massivo da música (480 milhões de visualizações) prova que a melodia, uma vez inserida no contexto do funk, não foi percebida como “excessivamente distante”. Pelo contrário, ela foi totalmente integrada e se tornou parte da realidade cultural dos jovens.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- E) inter-relação de elementos culturais vindos de realidades distintas na construção de uma nova proposta musical.
- Análise de Correspondência: Esta alternativa é o retrato falado da nossa Bússola. Ela descreve perfeitamente o fenômeno: a “inter-relação” (a mistura) de “elementos culturais” (a melodia de Bach, a batida do funk) vindos de “realidades distintas” (Alemanha barroca e Brasil contemporâneo) para criar algo novo (uma “nova proposta musical”).
- Conclusão: 🟢 Alternativa correta.
PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa E é a correta. “Bum bum tam tam” é um exemplo espetacular de como, na era digital, as fronteiras entre “alta” e “baixa” cultura se tornaram porosas, permitindo fusões criativas que redefinem o que é a música popular.
Resumo-flash (A Imagem Mental): O MC Fioti não foi a um concerto; ele foi “pescar” na internet e fisgou um Bach.
Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo princípio de apropriação e ressignificação de elementos de “realidades distintas” é a base da Arquitetura Pós-Modernista. Arquitetos pós-modernos, em reação à rigidez do modernismo, começaram a “samplear” elementos de estilos históricos (como colunas gregas, arcos romanos) e a inseri-los em seus edifícios de formas inesperadas, muitas vezes irônicas. Assim como MC Fioti pega a flauta de Bach e a coloca em um novo contexto, um arquiteto como Robert Venturi pega um frontão clássico e o cola em um edifício moderno. Em ambos os casos, é uma inter-relação de elementos de realidades distintas para criar uma nova proposta estética.