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Questão 10 caderno azul ENEM 2020

O ouro do século 21

Cério, gadolínio, lutécio, promécio e érbio; sumário, térbio e disprósio; hólmio, túlio e itérbio. Essa lista de nomes esquisitos e pouco conhecidos pode parecer a escalação de um time de futebol, que ainda teria no banco de reservas lantânio, neodímio, praseodímio, európio, escândio e ítrio. Mas esses 17 metais, chamados de terras-raras, fazem parte da vida de quase todos os humanos do planeta. Chamados por muitos de “ouro do século 21”, “elementos do futuro” ou “vitaminas da indústria”, eles estão nos materiais usados na fabricação de lâmpadas, telas de computadores, tablets e celulares, motores de carros elétricos, baterias e até turbinas eólicas. Apesar de tantas aplicações, o Brasil, dono da segunda maior reserva do mundo desses metais, parou de extraí-los e usá-los em 2002. Agora, volta a pensar em retomar sua exploração.

SILVEIRA, E. Disponível em: www.revistaplaneta.com.br.
Acesso em: 6 dez. 2017 (adaptado).

As aspas sinalizam expressões metafóricas empregadas intencionalmente pelo autor do texto para

A) imprimir um tom irônico à reportagem.
B) incorporar citações de especialistas à reportagem.
C) atribuir maior valor aos metais, objeto da reportagem.
D) esclarecer termos científicos empregados na reportagem.
E) marcar a apropriação de termos de outra ciência pela reportagem.

✍ Resolução Em Texto

  • Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
    • Interpretação de Texto
    • Sinais de Pontuação (Uso Estilístico das Aspas)
    • Figuras de Linguagem (Metáfora)
  • Tema/Objetivo Geral: Analisar o uso estilístico das aspas em um texto jornalístico para identificar sua função retórica, que, neste caso, é a de destacar metáforas que enaltecem o objeto da reportagem.
  • Nível da Questão: Fácil.
    • A questão se resolve pela identificação da natureza das expressões entre aspas. Como “ouro do século 21” e “vitaminas da indústria” são claramente metáforas que agregam valor e importância aos metais, a função das aspas torna-se evidente.
  • Gabarito: C
    • A alternativa está correta porque as aspas destacam expressões (“ouro do século 21”, “vitaminas da indústria”) que não são nomes técnicos, mas sim metáforas criadas para comparar os metais terras-raras a coisas extremamente valiosas e essenciais, com a intenção clara de engrandecer e atribuir maior valor a eles.

PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo: Em bom português, a missão é: “O autor do texto colocou três apelidos para os metais terras-raras entre aspas: ‘ouro do século 21’, ‘elementos do futuro’ e ‘vitaminas da indústria’. Por que ele usou essas aspas? Qual era a intenção dele ao destacar justamente essas expressões?”

Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine que você está escrevendo um artigo sobre um jogador de futebol muito talentoso chamado João. Em vez de apenas dizer que ele é bom, você escreve: João, o “Pelé da nova geração”, marcou mais um gol. Por que você colocou “Pelé da nova geração” entre aspas? Para mostrar que não é o nome real dele, mas um apelido metafórico que serve para enaltecer o jogador, comparando-o a algo universalmente reconhecido como excelente. O autor do texto está fazendo exatamente a mesma coisa com os metais.

Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):

  • Isolar as Evidências: Vamos listar as expressões que foram colocadas entre aspas.
  • Analisar a Natureza das Evidências: O que essas expressões são? São nomes científicos? São falas de alguém? São apelidos?
  • Determinar a Intenção do Autor: Qual é o efeito que esses “apelidos” causam no leitor? Eles diminuem, explicam ou engrandecem os metais?
  • Realizar a Autópsia: Vamos analisar cada alternativa para ver qual delas melhor descreve essa intenção.

PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para este caso, a melhor ferramenta é um Dossiê sobre os Usos das Aspas. Elas são um sinal de pontuação com múltiplos “disfarces”.

DOSSIÊ: OS DISFARCES DAS ASPAS

  • Disfarce 1: Citação Direta
    • Função: Isolar a fala exata de outra pessoa. Ex: O cientista afirmou: “Este é um grande avanço”.
  • Disfarce 2: Ironia ou Destaque de Termo Impróprio
    • Função: Indicar que a palavra está sendo usada com sentido contrário ou que o autor não concorda com ela. Ex: Ele se diz um “amigo”, mas vive me prejudicando.
  • Disfarce 3: Neologismo ou Gíria
    • Função: Apresentar uma palavra nova, estrangeira ou informal. Ex: Os jovens de hoje vivem a “shippar” casais.
  • Disfarce 4: Metáfora ou Apelido (Nosso Suspeito Principal)
    • Função: Destacar uma expressão que está sendo usada em seu sentido figurado, não literal, geralmente para criar um efeito de estilo. Ex: Brasília é a “capital da esperança”.

Investigação do Caso: As expressões “ouro do século 21” e “vitaminas da indústria” são falas de alguém? Não. São nomes técnicos? Não. São irônicas? Não, o tom do texto é sério. Elas se encaixam perfeitamente no Disfarce 4: são apelidos metafóricos.


PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Nosso dossiê já identificou o “disfarce”. As aspas estão sendo usadas para destacar metáforas. Agora, vamos analisar a intenção por trás dessas metáforas.

  • Metáfora 1: “ouro do século 21”
    • O que “ouro” significa? Riqueza, preciosidade, alto valor econômico.
    • Intenção: Sugerir que os metais terras-raras são extremamente valiosos e estratégicos.
  • Metáfora 2: “vitaminas da indústria”
    • O que “vitaminas” significam? Substâncias essenciais, necessárias em pequenas quantidades, mas vitais para o funcionamento de um sistema (o corpo, a indústria).
    • Intenção: Sugerir que esses metais, mesmo usados em pouca quantidade, são indispensáveis para a tecnologia moderna.

Conclusão da Investigação: As duas metáforas, destacadas pelas aspas, trabalham juntas para construir uma imagem de que os metais terras-raras são extremamente valiosos e essenciais. A função das aspas é, portanto, chamar a atenção para essas expressões que atribuem maior valor ao objeto da reportagem.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨

CUIDADO! A armadilha mais sedutora é a alternativa (B), “incorporar citações de especialistas”. Este é o uso mais comum das aspas em textos jornalísticos, e um candidato apressado pode escolhê-la por reflexo. O erro é não analisar o conteúdo das expressões. “Ouro do século 21” não soa como a fala técnica de um especialista, mas sim como um slogan, uma expressão de efeito criada para o público leigo.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: A investigação mostra que as aspas destacam metáforas (“ouro”, “vitaminas”) cuja função é enaltecer e valorizar os metais terras-raras.
  • Expectativa: A alternativa correta deve descrever essa função de atribuição de valor.

PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Vamos agora interrogar cada um dos suspeitos.

  • A) imprimir um tom irônico à reportagem.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato associa aspas com ironia, um de seus usos possíveis.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Erro de Interpretação (Tom). O contexto da reportagem é sério e informativo. As metáforas são usadas para engrandecer, não para zombar. Não há nenhum indício de ironia.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
  • B) incorporar citações de especialistas à reportagem.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato cai na “Armadilha Clássica”, aplicando a regra mais comum de uso das aspas sem analisar o conteúdo.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Confundir Tipos de Conteúdo. As expressões são apelidos metafóricos, e não trechos de declarações atribuídas a uma fonte específica.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
  • C) atribuir maior valor aos metais, objeto da reportagem.
    • Análise de Correspondência: Esta alternativa é o retrato falado da nossa Bússola. Ela descreve perfeitamente o efeito retórico das metáforas escolhidas: comparar os metais ao ouro e às vitaminas serve exatamente para “atribuir maior valor” a eles na mente do leitor.
    • Conclusão: 🟢 Alternativa correta.
  • D) esclarecer termos científicos empregados na reportagem.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato pode pensar que os apelidos servem para “traduzir” os nomes esquisitos dos metais.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Confundir Função (Esclarecer vs. Valorizar). As metáforas não “esclarecem” o que é o Cério ou o Lutécio. Elas não são definições. Sua função não é didática, mas sim valorativa.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
  • E) marcar a apropriação de termos de outra ciência pela reportagem.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato foca na palavra “vitaminas” e a associa com a Biologia/Medicina.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Interpretação Literal de uma Metáfora. A palavra “vitaminas” não está sendo “apropriada” da ciência da nutrição; está sendo usada metaforicamente. O autor não está dizendo que a indústria “ingere” os metais, mas que depende deles para funcionar, assim como um corpo depende de vitaminas.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa C é a correta. Este caso ilustra como os sinais de pontuação, especialmente as aspas, não são meras regras gramaticais, mas ferramentas retóricas poderosas que um autor usa para guiar a interpretação e a valoração do leitor.

Resumo-flash (A Imagem Mental): As aspas, aqui, não são uma cerca para isolar uma fala, mas um holofote para iluminar uma ideia.

Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo princípio de usar metáforas para atribuir valor e explicar conceitos complexos é fundamental no campo do Marketing e Branding. Uma empresa de segurança digital não vende “algoritmos de criptografia SHA-256”. Ela vende uma “fortaleza digital” ou um “escudo protetor”. Um banco não vende “produtos de investimento com juros compostos”. Ele vende as “chaves para o seu futuro”. A publicidade constantemente usa metáforas (“O Tigre do seu Tanque”, da Esso) para traduzir características técnicas em valores emocionais e percebidos, exatamente como o jornalista fez ao chamar os terras-raras de “ouro” e “vitaminas”.

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