O governo Vargas, principalmente durante o Estado Novo (1937-1945), pretendeu construir um Estado capaz de criar uma nova sociedade. Uma dimensão-chave desse projeto tinha no território seu foco principal. Não por acaso, foram criadas então instituições encarregadas de fornecer dados confiáveis para a ação do governo, como o Conselho Nacional de Geografia, o Conselho Nacional de Cartografia, o Conselho Nacional de Estatística e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), este de 1938.
LIPPI, L. A conquista do Oeste. Disponível em: http://cpdoc.fgv.br. Acesso em: 7 nov. 2014 (adaptado).
A criação dessas instituições pelo governo Vargas representava uma estratégia política de
A) levantar informações para a preservação da paisagem dos sertões.
B) controlar o crescimento exponencial da população brasileira.
C) obter conhecimento científico das diversidades
D) conter o fluxo migratório do campo para a cidade.
E) propor a criação de novas unidades da federação.

Matérias Necessárias para a Solução da Questão
- Interpretação de Texto
- História do Brasil (Era Vargas, Estado Novo, Marcha para o Oeste)
- Geografia Política (Relação entre Estado, Território e Conhecimento)
Tema/Objetivo Geral: Analisar a estratégia de produção de conhecimento geográfico e estatístico como ferramenta de poder e planejamento estatal durante o Estado Novo.
Nível da Questão: Médio.
- Por quê? A questão exige que o leitor infira a intenção por trás de uma ação governamental. Não basta saber que o IBGE foi criado; é preciso entender por que um governo centralizador e nacionalista como o de Vargas precisava de uma instituição como o IBGE.
Gabarito: C) obter conhecimento científico das diversidades.
- Resumo da Justificativa: O gabarito está correto porque o texto afirma que o projeto de Vargas tinha “no território seu foco principal” e que as instituições foram criadas para “fornecer dados confiáveis para a ação do governo”. A única forma de agir sobre um território imenso e diverso como o Brasil é, primeiro, conhecendo-o em detalhes, o que implica obter dados científicos sobre suas múltiplas realidades.
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
- Decodificação do Objetivo: A missão é clara: qual era a jogada política de Getúlio Vargas ao criar o IBGE e outras instituições semelhantes? O que ele ganhava com isso?
- Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine que você é um CEO (Vargas) que acaba de assumir uma empresa gigantesca e um pouco caótica (o Brasil). Seu objetivo é “criar uma nova sociedade”, ou seja, modernizar a empresa e fazê-la funcionar de forma integrada. Mas você percebe que não tem a menor ideia do que cada departamento (as regiões) faz, quantos funcionários (a população) existem em cada um, ou quais são os recursos disponíveis. O que você faz? Você cria um departamento de Inteligência de Mercado (o IBGE e os outros conselhos) para te dar “dados confiáveis”. O verdadeiro desafio aqui é entender por que o CEO precisa desses dados. Ele precisa deles para poder planejar, tomar decisões e governar a empresa de forma eficaz.
- Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Nosso plano será o seguinte:
- Identificar o Projeto: Qual era o objetivo maior do governo Vargas, segundo o texto?
- Analisar a Ferramenta: Qual foi o instrumento criado para ajudar a realizar esse projeto?
- Conectar Projeto e Ferramenta: Como a ferramenta (coleta de dados) servia ao projeto (criar uma nova sociedade com foco no território)?
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para este caso, a ferramenta ideal é um Fluxograma da Estratégia Varguista, que nos ajudará a visualizar a lógica do governo.
[O PROJETO POLÍTICO CENTRALIZADOR (ESTADO NOVO)]
- Objetivo Macro: “construir um Estado capaz de criar uma nova sociedade”.
- Foco Estratégico: “o território“. (Integrar, ocupar e modernizar o Brasil).
⬇️
[O PROBLEMA: GOVERNAR NO ESCURO]
- Dificuldade: Como governar um território continental, imenso e extremamente diverso (com diferentes climas, populações, economias) sem informações precisas sobre ele?
⬇️
[A SOLUÇÃO: CRIAR “OLHOS” PARA O ESTADO]
- A Ação: Criação de instituições como o IBGE, Conselho Nacional de Geografia, etc.
- A Função dessas Instituições: “fornecer dados confiáveis para a ação do governo“.
⬇️
[O OBJETIVO IMEDIATO (A RESPOSTA DA QUESTÃO)]
- O que esses “dados confiáveis” representam? Um mapa detalhado do país. Não apenas um mapa geográfico, mas um mapa humano, econômico e social. Representam o conhecimento científico sobre as múltiplas realidades do Brasil, ou seja, sobre suas diversidades.
Conclusão da Análise: Para governar, é preciso conhecer. Para governar um país diverso, é preciso conhecer cientificamente essa diversidade. A criação do IBGE foi o ato de construir os “olhos” e os “ouvidos” do Estado para que ele pudesse enxergar e entender o Brasil sobre o qual pretendia agir.
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
A lógica do texto é a de um estadista planejador. Vargas não queria governar com base no “achismo”. Seu projeto era grandioso e modernizante, e, para isso, ele precisava de informações.
A frase-chave é: “instituições encarregadas de fornecer dados confiáveis para a ação do governo“. Isso nos diz tudo. A criação do IBGE não foi um ato de amor à ciência pela ciência. Foi uma estratégia pragmática de poder.
“Conhecer para controlar” ou “Conhecer para governar” poderia ser o lema. E o que era preciso conhecer? O Brasil. Mas o Brasil não é uma coisa só. É o semiárido, a Amazônia, o Sul, as cidades, o campo. É uma coleção de realidades muito diferentes. Portanto, a tarefa dessas instituições era mapear, quantificar e entender cientificamente todas essas diversidades.
🚨 ARMADilha CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais sedutora aqui é a alternativa (D): “conter o fluxo migratório do campo para a cidade”. O êxodo rural foi um fenômeno importante na Era Vargas. Mas a armadilha é focar em uma das possíveis aplicações do conhecimento e confundi-la com o objetivo de obter o conhecimento em si. Para conter o fluxo migratório (ou para fazer qualquer outra política), o governo primeiro precisa de dados sobre esse fluxo. A criação do IBGE é sobre a etapa anterior: a de obter o conhecimento, que depois pode ser usado para vários fins.
- A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: O texto descreve uma estratégia de governo que via a produção de dados sistemáticos e científicos sobre o território como uma pré-condição para o exercício do poder e para a implementação de um projeto nacional.
- Expectativa: A alternativa correta deve, portanto, focar nesse objetivo de produção de conhecimento, levantamento de dados ou mapeamento científico da realidade nacional.
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
Vamos confrontar nossa Expectativa com os suspeitos.
A) levantar informações para a preservação da paisagem dos sertões.
- A “Narrativa do Erro”: O leitor associa “geografia” com “preservação” e pensa na “Marcha para o Oeste”.
- O “Diagnóstico do Erro”: Reducionismo. O objetivo era conhecer o território inteiro, não apenas os sertões. E o foco era a ação do governo (ocupação, desenvolvimento), não necessariamente a preservação.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
B) controlar o crescimento exponencial da população brasileira.
- A “Narrativa do Erro”: O leitor associa “estatística” com “controle de natalidade”.
- O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. O texto não menciona nenhuma preocupação com o controle do crescimento populacional. O objetivo era conhecer a população, não controlá-la demograficamente.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
C) obter conhecimento científico das diversidades.
- Análise de Correspondência: Encaixe perfeito. “Obter conhecimento científico” (fornecer dados confiáveis). “Das diversidades” (de um território imenso e variado, com foco em geografia e estatística). A frase resume a estratégia com precisão.
- Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
D) conter o fluxo migratório do campo para a cidade.
- A “Narrativa do Erro”: O leitor cai na “Armadilha Clássica”.
- O “Diagnóstico do Erro”: Confundir a Aplicação com o Objetivo. Conter a migração seria uma possível política a ser feita com base nos dados, mas o objetivo da criação das instituições era produzir esses dados.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
E) propor a criação de novas unidades da federação.
- A “Narrativa do Erro”: O leitor pensa na reorganização territorial do Estado Novo.
- O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. Embora Vargas tenha criado novos territórios, essa não era a função primária do IBGE ou dos outros conselhos.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa (C) é a correta, pois a estratégia de Vargas revela uma verdade fundamental do poder moderno: não se pode governar efetivamente aquilo que não se pode medir e mapear.
Resumo-flash (A Imagem Mental): Vargas queria construir um novo Brasil, mas antes precisava da planta baixa do terreno.
🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): A estratégia de Vargas de usar o conhecimento estatístico e geográfico como ferramenta de poder é um exemplo perfeito do que o filósofo Michel Foucault chamou de “Biopolítica”. A biopolítica é a forma de poder que se exerce sobre a vida da população como um todo: controlar taxas de natalidade, gerenciar a saúde pública, organizar o espaço urbano, etc. Para que a biopolítica funcione, o Estado precisa de dados, de estatísticas, de “conhecimento científico das diversidades”. A criação do IBGE não foi, portanto, apenas uma modernização administrativa; foi a criação de uma ferramenta essencial para o exercício do biopoder, permitindo ao Estado “ver” a população como um corpo a ser gerenciado e otimizado. Isso se conecta diretamente aos debates atuais sobre Big Data: hoje, empresas e governos coletam nossos dados não apenas para nos vender produtos, mas para gerenciar e prever o comportamento da população em larga escala.