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Questão 36, caderno azul do ENEM 2021 – DIA 1

TEXTO I

Questão 036 - Enem 2021 -

TEXTO II

As máscaras não foram feitas para serem usadas; elas se concentram apenas nas possibilidades antropomórficas dos recipientes plásticos descartados e, ao mesmo tempo, chamam a atenção para a quantidade de lixo que se acumula em quase todas as cidades ou aldeias africanas.

FARTHING, S. Tudo sobre arte. Rio de Janeiro: Sextante; 2011 (adaptado)

Romualdo Hazoumé costuma dizer que sua obra apenas manda de volta ao oeste o refugo de uma sociedade de consumo cada vez mais invasiva. A obra desse artista africano que vive no Benin denota o (a)

A) empobrecimento do valor artístico pela combinação de diferentes matérias-primas.

B) reposicionamento estético de objetos por meio da mudança de função.

C) convite aos espectadores para interagir e completar obras inacabadas.

D) militância com temas da ecologia que marcam o continente africano.

E) realidade precária de suas condições de produção artística.

Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • Interpretação de Texto e Imagem
  • Arte Contemporânea (Conceitos de Ready-made, Ressignificação, Arte Povera)
  • Crítica Social na Arte

Tema/Objetivo Geral: Analisar como a arte contemporânea utiliza objetos descartados para criar novas formas estéticas e críticas sociais.

Nível da Questão: Médio.

  • Por quê? A questão exige a compreensão de um conceito central da arte contemporânea: a ressignificação de objetos. A alternativa (D) é uma distratora muito forte, pois a obra tem, de fato, uma dimensão ecológica. O desafio é perceber que a crítica ecológica é uma consequência do gesto artístico principal, que é a transformação estética do objeto.

Gabarito: B) reposicionamento estético de objetos por meio da mudança de função.

  • Resumo da Justificativa: O gabarito está correto porque a essência da obra de Hazoumé, conforme descrito, é pegar um objeto com uma função utilitária (recipiente de plástico) e transformá-lo em um objeto com uma função puramente estética e simbólica (uma máscara antropomórfica), mudando completamente seu lugar e valor no mundo.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

  • Decodificação do Objetivo: A questão nos pede para identificar o gesto artístico fundamental, a “mágica” que define a obra de Hazoumé. O que ele faz com o lixo para transformá-lo em arte?
  • Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine que o artista é um Mago. Ele encontra uma garrafa de plástico velha e abandonada, um objeto sem valor e com uma única função passada: carregar líquidos. O Mago recita um encantamento e, de repente, a garrafa ganha um rosto, uma personalidade, uma “alma” (as “possibilidades antropomórficas”). Ela deixa de ser uma coisa para carregar algo e se torna um ser para ser olhado. O verdadeiro desafio aqui é entender que a principal magia não foi ter feito uma crítica ao lixo, mas ter dado uma nova identidade e um novo propósito a um objeto morto.
  • Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Nosso plano será o seguinte:
    1. Identificar a Matéria-Prima: Qual é o objeto original com que o artista trabalha? Qual é a sua função?
    2. Analisar a Transformação: O que o artista faz com esse objeto? Em que ele o transforma?
    3. Definir o Gesto Artístico: Vamos dar um nome técnico a esse processo de transformação.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para este caso, a ferramenta ideal é um Fluxograma da Ressignificação, que nos ajudará a visualizar a jornada do objeto.

O Fluxograma da Ressignificação:

[PONTO DE PARTIDA: O OBJETO EM SEU CONTEXTO ORIGINAL]

  • O que é? “recipientes plásticos descartados”.
  • Função Original: Utilitária (carregar combustível, água, etc.).
  • Status: Produto de consumo / Lixo.

⬇️
[A INTERVENÇÃO ARTÍSTICA: O GESTO TRANSFORMADOR]

  • Ação: O artista seleciona o objeto e adiciona outros elementos (tecido).
  • Processo Mental: Ele enxerga no objeto suas “possibilidades antropomórficas” (potencial de parecer um rosto).

⬇️
[PONTO DE CHEGADA: O OBJETO EM SEU NOVO CONTEXTO]

  • O que se torna? Uma “máscara” (obra de arte).
  • Nova Função: Estética e Crítica. Não é para ser usada, mas para ser contemplada e para “chamar a atenção para a quantidade de lixo”.
  • Novo Status: Obra de arte em uma galeria.

Conclusão da Análise: O artista mudou o objeto de lugar (do lixo para a galeria) e de propósito (de utilitário para estético). Esse processo é um reposicionamento estético através da mudança de função.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

O texto nos dá pistas cruciais. A primeira é que as máscaras “não foram feitas para serem usadas”. Isso nos diz que a função original do objeto (recipiente) e a função aparente da nova forma (máscara de vestir) foram anuladas. A nova função é outra.

A segunda pista é que o artista explora as “possibilidades antropomórficas dos recipientes plásticos”. Isso significa que ele olha para uma lata de plástico e não vê uma lata, vê um nariz, olhos, um rosto. Ele muda a percepção sobre o objeto.

A frase final do enunciado amarra tudo: Hazoumé “manda de volta ao oeste o refugo de uma sociedade de consumo”. Ele pega o lixo que o Ocidente produz, o transforma em arte e o exibe em galerias ocidentais. É o ciclo completo do reposicionamento.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais sedutora aqui é a alternativa (D), sobre a “militância com temas da ecologia”. É inegável que a obra tem uma forte mensagem ecológica (“chamam a atenção para a quantidade de lixo”). Mas a armadilha é confundir a mensagem com o gesto artístico. Como ele constrói essa mensagem ecológica? Ele o faz através de um método específico: o de pegar o lixo e transformá-lo em outra coisa. A crítica ecológica é o resultado do reposicionamento estético. A alternativa (B) descreve o processo, o como, que é mais fundamental para a prática artística dele do que a temática específica.

  • A Bússola (O Perfil do Culpado):
    • Síntese do raciocínio: A investigação revela que o cerne da prática artística de Hazoumé é a transformação. Ele pega objetos de um universo (o do consumo e do descarte) e os insere em outro (o da arte), alterando radicalmente sua função e seu significado.
    • Expectativa: A alternativa correta deve, portanto, descrever esse processo de transformação, recontextualização, mudança de função ou reposicionamento estético.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Vamos confrontar nossa Expectativa com os suspeitos.

A) empobrecimento do valor artístico pela combinação de diferentes matérias-primas.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor tem um preconceito de que arte feita com lixo é “pobre”.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição com o Contexto. A obra está em uma galeria famosa e é tema de análise em livros de arte, o que sugere o oposto: um enriquecimento do valor artístico.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

B) reposicionamento estético de objetos por meio da mudança de função.

  • Análise de Correspondência: Encaixe perfeito. Descreve com precisão o modus operandi do artista que identificamos em nosso fluxograma.
  • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.

C) convite aos espectadores para interagir e completar obras inacabadas.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor aplica um conceito genérico de arte contemporânea que não se encaixa neste caso.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. O texto não dá nenhuma indicação de que a obra seja interativa ou inacabada.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

D) militância com temas da ecologia que marcam o continente africano.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor cai na “Armadilha Clássica”.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Descrever a Mensagem, não o Método. A militância ecológica é uma das mensagens da obra, mas a forma como essa mensagem é construída é através do reposicionamento estético. A alternativa (B) descreve a técnica, que é mais fundamental.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

E) realidade precária de suas condições de produção artística.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor assume que um artista africano que usa lixo o faz por falta de recursos.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Falsa Inferência / Preconceito. O uso de materiais “pobres” na arte contemporânea é uma escolha estética e conceitual, não necessariamente uma imposição da precariedade. O texto não dá nenhuma informação sobre as condições do artista.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa (B) é a correta, pois a obra de Hazoumé é um poderoso exemplo de como a arte contemporânea encontra significado não em materiais nobres, mas na inteligência com que transforma o banal em extraordinário.

Resumo-flash (A Imagem Mental): O artista não cria do nada; ele ensina um objeto a ter uma segunda vida com uma nova alma.

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O gesto de Hazoumé é um herdeiro direto do conceito de ready-made, criado por Marcel Duchamp no início do século XX. O ready-made consiste em pegar um objeto industrializado (como um urinol ou uma roda de bicicleta), retirá-lo de sua função original e, pela simples escolha do artista e sua inserção em um contexto de arte (um museu), declará-lo uma obra de arte. Hazoumé leva esse conceito adiante: ele não apenas seleciona o objeto, ele o modifica minimamente (adicionando tecidos) para extrair dele uma nova forma (“possibilidades antropomórficas”). Sua obra, portanto, dialoga com um dos movimentos mais revolucionários da história da arte, mostrando como a ideia de ressignificação continua a ser uma ferramenta poderosa para os artistas do século XXI.

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